A sucessão de liquidações promovidas pelo Banco Central nos últimos meses reacendeu um alerta do mercado em relação ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mecanismo responsável por proteger depositantes e investidores em caso de quebra de instituições financeiras. Em um exercício hipotético, economistas passaram a simular qual seria o impacto sistêmico caso o Banco de Brasília (BRB), um dos investigados no escândalo do Master, enfrentasse um processo de liquidação extrajudicial.
Liquidações dos últimos meses: BRB pode ser o próximo?
Em 18 de novembro, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial das instituições do grupo Master, incluindo Banco Master S.A., Banco Master de Investimento, Banco Letsbank, Master Corretora e Banco Master Múltiplo.
Já em 15 de janeiro, a autoridade monetária liquidou a CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, anteriormente conhecida como Reag Trust DTVM.
Por fim, nesta semana, o BC decretou a liquidação da Will Financeira S.A. – Crédito, Financiamento e Investimento, popularmente conhecida como Will Bank.
Essas movimentações levaram os investidores a acender o sinal de alerta em torno do BRB.
O que o FGC cobre e o que fica de fora?
O Fundo Garantidor de Créditos assegura até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ por instituição financeira, abrangendo produtos como depósitos à vista, poupança, CDBs, RDBs, LCIs e LCAs. Ficam fora da cobertura, entre outros, depósitos judiciais, recursos governamentais, depósitos interfinanceiros e aplicações de controladores.
Na prática, isso significa que, mesmo em um cenário de falência bancária, apenas uma fração do passivo total da instituição dialoga diretamente com o FGC.
O impacto real depende da composição dos depósitos e da distribuição dos valores por cliente.
Os números do BRB e a exposição efetiva
Segundo dados públicos do Banco Central, o BRB possui cerca de R$ 74,5 bilhões em ativos e R$ 48,6 bilhões em depósitos totais, sendo aproximadamente R$ 23,6 bilhões em CDBs e R$ 19,4 bilhões em depósitos judiciais.
Para o economista Carlos Honorato, a estrutura do passivo do banco reduz de forma significativa a exposição efetiva do FGC em um cenário hipotético de liquidação.
“O BRB tem cerca de R$ 40,6 bilhões em depósitos totais, mas apenas algo em torno de R$ 15 bilhões são depósitos típicos de pessoas físicas e jurídicas que realmente entram no cálculo do FGC. Depósitos governamentais e judiciais, que somam mais de R$ 20 bilhões, não são cobertos”, afirma.
Para entender melhor, o economista traçou dois cenários diferentes em relação à uma possível quebra do BRB.
Cenário base: impacto controlado
No cenário considerado mais plausível, Honorato estima que, após a aplicação do teto de R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, a exposição efetiva do FGC ao BRB cairia para algo entre R$ 4,5 bilhões e R$ 6,8 bilhões.
“Com um patrimônio próximo de R$ 160 bilhões, o FGC conseguiria absorver sozinho um evento dessa magnitude sem comprometer sua solvência. Haveria ruído, mas não colapso”, avalia.
Cenário de estresse: consumo relevante do fundo
Em um cenário mais adverso, com maior concentração de depósitos dentro do limite de cobertura, a simulação aponta para um impacto entre R$ 25 bilhões e R$ 40 bilhões, o que consumiria entre 15% e 25% do patrimônio do FGC, estimado em cerca de R$ 160 bilhões em setembro de 2025.
O movimento se somaria aos desembolsos recentes do fundo, que já superam R$ 46,9 bilhões nos casos envolvendo o grupo Master, reduzindo a liquidez disponível para enfrentar novos episódios.
O risco não é um banco, mas a sequência de eventos
Apesar de os números indicarem que o FGC é capaz de absorver a quebra isolada de um banco médio, especialistas alertam que o verdadeiro risco está na repetição de liquidações em curto espaço de tempo.
“O FGC aguenta um banco médio. O problema é a sucessão de eventos. Múltiplas falências forçam aumento das contribuições dos bancos, elevam o custo de funding do sistema e acabam sendo repassadas ao investidor e ao tomador de crédito”, explica Honorato.
Teste de robustez institucional
O exercício não implica qualquer avaliação de solvência do BRB, mas funciona como um teste de estresse conceitual sobre a arquitetura de proteção do sistema financeiro brasileiro. A análise mostra que o FGC permanece robusto para eventos pontuais, mas que uma sequência prolongada de intervenções pode transformar um instrumento de estabilidade em um fator adicional de pressão sobre o mercado.
Em um ambiente de maior vigilância regulatória, o especialista alerta para a necessidade de reformas.
“O sistema financeiro vai enfrentar um teste de fogo demandando um aprimoramento das regras e algumas reformas imediatas“, conclui. Honorato














