O Brasil atingiu em 2025 o maior número de afastamentos do trabalho por transtornos mentais da última década. Segundo dados do Ministério da Previdência Social, mais de 546 mil licenças foram concedidas por ansiedade, depressão e outros distúrbios psicológicos ao longo do ano.
O avanço tem impacto direto sobre as contas públicas. Apenas com benefícios pagos pelo INSS, o custo estimado já se aproxima de R$ 3,5 bilhões por ano, considerando a média de valores dos auxílios por incapacidade temporária.
O dado consolida um fenômeno que deixa de ser apenas social ou sanitário e passa a assumir dimensão econômica relevante, ao afetar simultaneamente despesa pública, produtividade e base de arrecadação.
Saúde mental na economia: o custo fiscal invisível
Do ponto de vista fiscal, os afastamentos por transtornos mentais entram majoritariamente na categoria de benefícios por incapacidade temporária, pressionando diretamente o caixa da Previdência Social.
O problema se soma a outros vetores estruturais de desequilíbrio do sistema previdenciário, como o envelhecimento populacional, a alta informalidade no mercado de trabalho e o déficit estrutural das contas da Previdência.
Diferentemente de outros gastos, a saúde mental atua como um risco fiscal difuso, de difícil mensuração e pouco discutido nos debates orçamentários.
Para a advogada trabalhista Bárbara Ferrari, sócia do Ferrari Rodrigues Advogados, a legislação já oferece base para responsabilização, inclusive com efeitos indiretos sobre a Previdência. Segundo ela, a NR-1 é a norma central do sistema de Segurança e Saúde no Trabalho e define como as empresas devem identificar, avaliar e gerenciar riscos ocupacionais.
“A NR-1 é a norma base do Ministério do Trabalho. É nela que está previsto o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, o GRO, e o Programa de Gerenciamento de Riscos, o PGR”, explica.
Menos arrecadação, mais despesa
O impacto não se limita ao aumento da despesa pública. Trabalhadores afastados deixam de contribuir com Imposto de Renda, INSS e FGTS, ao mesmo tempo em que reduzem a capacidade produtiva das empresas.
Na prática, forma-se um ciclo vicioso: menos trabalhadores ativos, menor base produtiva e maior gasto obrigatório por parte do Estado.
O impacto não é apenas sobre a despesa, mas também sobre a base de arrecadação, criando um duplo efeito negativo sobre o equilíbrio fiscal.
Para o empresário e psicanalista, esse custo já aparece de forma direta nos indicadores internos das empresas.
“Hoje isso aparece de forma muito clara no dia a dia da empresa. Aumenta o número de faltas, cresce a quantidade de pessoas que até vão trabalhar, mas rendem pouco, o clima pesa e a rotatividade sobe. O empresário sente isso no resultado, no cansaço do time e na conta do plano de saúde. Muitas vezes ele sente o prejuízo antes de perceber que o problema é emocional”, afirma.
Segundo ele, o afastamento por saúde mental gera um impacto econômico mais amplo do que o custo imediato da licença.
“O impacto é bem maior do que parece. Não é só colocar outra pessoa no lugar. Tem o custo de contratar, treinar, esperar a pessoa pegar ritmo e, enquanto isso, o time fica sobrecarregado. Além disso, a empresa perde alguém que já conhecia o trabalho, o processo e as pessoas. Isso gera atraso, erro e queda de desempenho”, explica.
Transtornos mentais viram problema macroeconômico
O aumento estrutural dos afastamentos por saúde mental reduz o estoque efetivo de capital humano disponível na economia, limitando a capacidade de crescimento de longo prazo do país.
Na prática, parte relevante da força de trabalho deixa de operar em sua capacidade plena, afetando produtividade, eficiência e potencial de expansão do PIB.
Na avaliação do empresário e psicanalista, o fenômeno já pode ser interpretado como uma perda econômica agregada.
“Economicamente significa menos gente trabalhando, menos produção e menos dinheiro girando. Isso afeta empresas, famílias e o país inteiro. Não é só um problema de quem adoeceu, é um impacto direto na economia”, afirma.
Segundo ele, o efeito não se limita à quantidade de trabalhadores, mas à qualidade do capital humano disponível.
“Representa também uma redução do estoque efetivo de capital humano. Porque capital humano não é só estudo ou técnica. É clareza para decidir, energia para trabalhar e capacidade de se relacionar. Quando a mente adoece, tudo isso cai. E o país perde junto”, diz.
Mercado de trabalho e precarização
O avanço de vínculos mais frágeis e da instabilidade profissional aparece como um dos fatores estruturais por trás do aumento dos afastamentos.
Modelos baseados emmúltiplos vínculos, jornadas longas, metas agressivas e menor proteção trabalhista tendem a gerar maior desgaste psicológico e menor previsibilidade de renda.
Para o psicólogo empresarial Fredy Figner, da Fredy Explica Psicologia Empresarial, o adoecimento mental está diretamente ligado à forma como o trabalho é organizado.
“Ambientes tóxicos, excesso de pressão, metas inalcançáveis, jornadas extensas e falta de apoio emocional adoecem tanto quanto um risco físico. Hoje, já está claro que adoecer não é só se machucar fisicamente”, afirma.
Segundo ele, a saúde mental precisa ser tratada como uma variável organizacional, e não apenas individual.
“O foco não é tratar a pessoa, mas sim os fatores psicossociais daquele ambiente que levam ao adoecimento”, diz.
A regulação que foi adiada
A Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que estabelece o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, passou a incluir riscos psicossociais, mas a fiscalização efetiva só está prevista para maio de 2026.
Para Fredy Figner, a discussão não é nova, mas ganhou força diante dos dados recentes.
“A NR-1 é a porta de entrada de todas as normas de saúde e segurança do trabalho. Ela organiza o ‘como fazer’, orientando que as empresas identifiquem, avaliem e gerenciem riscos. E os riscos psicossociais fazem parte disso. Não é moda nem exagero: não existe saúde sem saúde mental”, afirma.
Na avaliação de Bárbara Ferrari, a responsabilização já é uma realidade no Judiciário Trabalhista, mesmo antes da fiscalização efetiva.
“A legislação atual permite responsabilizar a empresa quando fica comprovado que o adoecimento tem relação com o trabalho e que não houve medidas adequadas de prevenção. A NR-1, aliada à Constituição, à CLT e às normas previdenciárias, fornece base legal para esse tipo de responsabilização”, explica.
Risco estrutural para as contas públicas
O avanço dos transtornos mentais tende a se consolidar como mais um fator permanente de pressão sobre o gasto público, ao lado da Previdência, da saúde e da assistência social.
Ao mesmo tempo, a perda de produtividade e de capital humano compromete a capacidade de crescimento econômico e amplia o desafio de equilíbrio fiscal no médio e longo prazo.
Para Júnior Silva, o problema já começa a afetar inclusive o potencial de crescimento do país.
“Um país cresce quando as pessoas conseguem trabalhar bem, produzir e pensar com clareza. Quando muita gente adoece emocionalmente, o crescimento fica mais lento. Por isso saúde mental deixou de ser um tema secundário e virou uma questão estratégica”, afirma.
Saúde mental impacta economia brasileira
O fenômeno dos afastamentos por transtornos mentais deixa de ser apenas um problema de saúde pública e passa a se consolidar como uma variável econômica relevante, com impacto direto sobre produtividade, capital humano e sustentabilidade fiscal.
Sem uma abordagem estruturada, o tema tende a se incorporar de forma permanente ao conjunto de pressões que já limitam a capacidade de crescimento e de organização das contas públicas no Brasil, ao lado de fatores clássicos como envelhecimento populacional, informalidade e desequilíbrio previdenciário.













