As expectativas do mercado financeiro para os principais indicadores econômicos seguem apontando um cenário de inflação ainda pressionada no curto prazo e acomodação gradual dos juros ao longo dos próximos anos. É o que mostra a edição mais recente do Relatório Focus, divulgada nesta segunda-feira (23) pelo Banco Central.
De acordo com a mediana das projeções coletadas junto a instituições financeiras, o IPCA esperado para 2026 teve alta novamente, e está em 4,17%, patamar que distancia o indicador do centro da meta de inflação.
Já para os anos seguintes, o mercado projeta desaceleração gradual dos preços, com estimativas de 3,80% em 2027, 3,52% em 2028 e 3,50% em 2029.
Focus: crescimento segue moderado no horizonte relevante
No campo da atividade econômica, as projeções indicam crescimento moderado. O mercado estima expansão de 1,84% do PIB em 2026, com aceleração para 1,80% em 2027 e 2,00% em 2028 e 2029.
O cenário reforça a leitura de que a economia deve operar com ritmo de expansão contido, em meio a condições financeiras ainda restritivas e desafios fiscais que seguem no radar dos investidores.
Juros em trajetória de queda gradual
As expectativas para a taxa básica de juros indicam nova alta na projeção. Segundo o Focus, a Selic deve encerrar 2026 em 12,50% ao ano, recuando para 10,50% em 2027, 10,00% em 2028 e 9,50% em 2029.
O movimento projetado reflete a perspectiva de convergência gradual da inflação e eventual melhora das condições macroeconômicas, embora o mercado ainda veja a política monetária em nível contracionista no curto prazo.
Câmbio permanece pressionado
A taxa de câmbio esperada pelo mercado permanece em patamar elevado ao longo do horizonte de projeção. Para 2026, a mediana aponta dólar a R$ 5,40, com avanço para R$ 5,45 em 2027 e R$ 5,50 em 2028 e 2029.
O cenário cambial incorpora riscos associados ao ambiente externo, às condições fiscais domésticas e ao diferencial de juros entre Brasil e economias desenvolvidas.
Contas externas e setor público seguem no radar
No setor externo, a expectativa é de déficit em conta corrente de US$ 66,8 bilhões em 2026, com leve redução ao longo dos anos seguintes. Já a balança comercial deve registrar superávit de US$ 70 bilhões em 2026, avançando gradualmente até US$ 75,09 bilhões em 2029.
As projeções também indicam continuidade do aumento da dívida líquida do setor público, estimada em 69,9% do PIB em 2026, com trajetória ascendente até 78,8% do PIB em 2029.
No campo fiscal, o mercado espera resultado primário negativo de 0,50% do PIB em 2026, com melhora gradual nos anos seguintes. O resultado nominal, que inclui despesas com juros, deve permanecer em patamar elevado, próximo de -8,5% do PIB em 2026.
Mercado sentiu o conflito no Oriente Médio
Para o economista Maykon Douglas, a maior parte do mercado parece ter visto um tom dovish do Copom na decisão da semana passada. O Comitê reconhece o impacto potencial do conflito e enxerga forte incerteza em sua projeção de inflação para o horizonte relevante, porém, parece determinado a seguir o ciclo de calibração dos juros no curto prazo caso o cenário permita.
“O problema é que o cenário de conflito mais duradouro vem ganhando força, principalmente se os EUA cumprirem o ultimato feito ao Irã para a reabertura do estreito de Ormuz. De todo modo, mesmo após a reabertura, levará algum tempo para que o fluxo marítimo e a produção de petróleo e gás natural na região voltem ao ritmo normal, considerando o tempo de inatividade e os ataques a algumas instalações. Portanto, a política monetária volta a enfrentar mares mais tenebrosos“, avalia o economista.
O economista destaca que mesmo sem a guerra, o Copom manteria uma postura mais cautelosa do que o consenso parecia esperar. O mercado de trabalho continua apertado, ajudando a sustentar o núcleo de serviços, e também temos um cenário de impulso fiscal positivo em 2026.
“Os desdobramentos da guerra sobre as commodities, serão o foco no curto prazo e trazem forte incerteza adicional“, conclui.















