O mercado de trabalho no Brasil iniciou 2026 com sinais ambíguos. A PNAD Contínua, divulgada pelo IBGE, mostrou que a taxa de desocupação ficou em 5,8% no trimestre encerrado em fevereiro, acima dos 5,2% do trimestre anterior, mas ainda abaixo dos 6,8% registrados no mesmo período de 2025.
O dado reforça a leitura de um mercado ainda resiliente, mas com perda de tração no curto prazo, especialmente diante da queda na população ocupada e do avanço de indicadores de subutilização.
Principais indicadores do mercado de trabalho
| Indicador | Dez-Fev 2026 | Trim. anterior | Mesmo período 2025 |
|---|---|---|---|
| Taxa de desocupação | 5,8% | 5,2% | 6,8% |
| Taxa de subutilização | 14,1% | 13,5% | 15,7% |
| Rendimento médio | R$ 3.679 | R$ 3.606 | R$ 3.495 |
Ocupação recua no trimestre
A população ocupada somou 102,1 milhões de pessoas, com queda de 0,8% no trimestre, equivalente a menos 874 mil pessoas. No entanto, na comparação anual, houve crescimento de 1,5%, o que indica que o mercado ainda opera próximo de níveis elevados de emprego, de acordo com o IBGE.
Já a população desocupada atingiu 6,2 milhões, com aumento frente ao trimestre anterior, mas queda significativa de 14,8% em relação ao mesmo período de 2025.
Subutilização cresce e acende alerta
A taxa de subutilização avançou para 14,1%, acompanhada por aumento da população subutilizada para 16,1 milhões de pessoas no trimestre.
O movimento indica que, embora o desemprego siga baixo, há deterioração qualitativa no mercado de trabalho, com maior número de pessoas trabalhando menos horas do que gostariam ou fora de ocupações ideais.
Estrutura do emprego mostra estabilidade com leve melhora na informalidade e renda segue em crescimento
- Trabalhadores com carteira assinada: 39,2 milhões (estável);
- Trabalhadores sem carteira: 13,3 milhões (queda no trimestre);
- Conta própria: 26,1 milhões (alta no ano);
- Taxa de informalidade: 37,5% (leve recuo).
O dado de informalidade sugere uma leve melhora na qualidade do emprego, embora o nível ainda permaneça elevado.
Já o rendimento médio real habitual alcançou R$ 3.679, com alta de 2,0% no trimestre e 5,2% no ano.
A massa de rendimento totalizou R$ 371,1 bilhões, com crescimento de 6,9% na comparação anual, reforçando o papel da renda como suporte para a atividade econômica.
Destaques setoriais e de renda no mercado de trabalho
Entre os setores, o crescimento anual foi concentrado em áreas ligadas a serviços e administração pública:
- Informação, comunicação e atividades financeiras: +4,0%
- Administração pública, saúde e educação: +4,5%
No recorte de renda, os maiores avanços foram observados em:
- Outros serviços: +11,2%
- Empregadores: +10,0%
- Trabalhadores sem carteira: +9,1%
O que os dados indicam para o mercado
- Desemprego segue baixo, indicando mercado ainda aquecido;
- Queda da ocupação no trimestre sugere desaceleração recente;
- Subutilização em alta aponta fragilidade na qualidade do emprego;
- Renda em crescimento continua sustentando o consumo;
- Informalidade ainda elevada limita ganhos estruturais.
Leitura do mercado
Para o economista Leonardo Costa, do ASA, o mercado de trabalho segue sem sinais de ruptura, operando em patamar historicamente apertado. A taxa de desemprego em nova mínima e a massa salarial em recorde reforçam a resiliência da renda das famílias, fator que ajuda a sustentar o consumo, mas mantém pressão sobre os núcleos de inflação de serviços.
“O ritmo de criação de emprego dá sinais, ainda incipientes, de acomodação na margem, consistente com uma economia sob efeito contracionista de juros elevados, mas ainda longe de deterioração cíclica. O mercado de trabalho segue sendo o principal suporte da atividade doméstica, ainda que seu dinamismo tenda a moderar gradualmente ao longo de 2026“, avalia.
Já o economista Maykon Douglas destaca que o mercado de trabalho costuma piorar no primeiro trimestre. Trata-se de um comportamento sazonal provocado, por exemplo, pela demissão de trabalhadores temporários contratados no fim do ano.
“Ao excluirmos esses efeitos, vemos que a alta na taxa de desemprego foi bem mais modesta“, pondera.
A massa salarial continua apresentando um crescimento real expressivo, acima de 6%, apesar da desaceleração na margem. Além disso, ela vinha renovando as máximas históricas nos últimos meses.
“Portanto, temos um quadro de um mercado de trabalho apertado. Minha projeção é de que a taxa de desemprego volte a cair a partir de abril e feche 2026 com uma média anual de 5,2%“, conclui.












