A atratividade do mercado brasileiro segue fortemente ligada ao comportamento do investidor estrangeiro. Em um cenário global marcado por rotação de portfólio em direção a países emergentes, o Brasil continua sendo destino relevante de capital. No entanto, segundo avaliação do gestor Gustavo Bertotti, da Fami Capital, o principal fator de risco para a continuidade desse fluxo não está no nível dos juros, mas na deterioração fiscal e na incerteza política à frente.
“O investidor estrangeiro observa o Brasil como parte de um conjunto de emergentes, não de forma isolada. Ele compra México, compra outros países, e o Brasil entra nesse pacote”, afirma Bertotti.
Segundo o gestor, o movimento recente foi favorecido pelo cenário de corte de juros nos Estados Unidos e pela busca global por maior rentabilidade, o que impulsionou bolsas emergentes de forma generalizada.
Apesar disso, o volume de recursos direcionado ao Brasil ainda é considerado baixo quando comparado a ciclos anteriores. De acordo com Bertotti, o fluxo estrangeiro acumulado permanece significativamente inferior ao observado em 2023, mesmo tendo sido fundamental para sustentar a performance do mercado acionário em 2025.
“A dependência desse capital, somada à fragilidade do investidor institucional doméstico, amplia a sensibilidade da Bolsa a mudanças de percepção externa“, avalia.
Fiscal e eleições no centro da decisão
Para o gestor, o principal ponto de atenção do investidor internacional está concentrado no horizonte político e fiscal.
“A preocupação maior é com o cenário eleitoral e, principalmente, com 2027. Independentemente de quem vença a eleição, o Brasil enfrenta um fiscal muito crônico”, avalia.
A trajetória das contas públicas, segundo ele, tem se deteriorado de forma recorrente, com aumento estrutural de gastos e crescimento expressivo das emendas parlamentares, especialmente em anos eleitorais. Esse ambiente gera dúvidas sobre a sustentabilidade da política fiscal e seus impactos diretos sobre a política monetária, os ativos de risco e o nível de endividamento da economia.
Esse quadro, na leitura do mercado, tende a limitar a ampliação do fluxo estrangeiro no médio prazo.
“O fluxo foi muito importante em 2025, mas a continuidade ou expansão vai depender muito dos fatores domésticos, especialmente gasto público, fiscal e eleições”, destaca Bertotti.
Juros altos ajudam, mas não resolvem
Mesmo com expectativa de início do ciclo de corte de juros no Brasil, o país segue oferecendo um dos maiores juros reais do mundo. Esse diferencial mantém a renda fixa atrativa e sustenta o interesse de investidores globais, sobretudo em um contexto de redução das taxas nos Estados Unidos.
Ainda assim, Bertotti ressalta que juros elevados não são suficientes para compensar riscos estruturais.
“O Brasil continua sendo uma rota sólida de investimento, tanto em renda fixa quanto em renda variável, mas o investidor está cada vez mais atento à qualidade do ambiente macro e institucional”, afirma.
Na Bolsa, o argumento de valuation também segue presente. O mercado brasileiro negocia abaixo de médias históricas e em desconto frente a outros países, o que abre espaço para oportunidades pontuais. Além disso, diversas companhias listadas passaram por ajustes relevantes nos últimos anos, preservando margens, reduzindo endividamento e mantendo capacidade de geração de caixa.
Empresas resilientes, ambiente desafiador
Apesar do cenário macro considerado preocupante, Bertotti avalia que muitas empresas fizeram “o dever de casa” e seguem entregando resultados consistentes, com destaque para aquelas que oferecem dividendos elevados. Esse fator pode estimular, de forma gradual, uma maior migração para a renda variável ao longo do ciclo de queda dos juros.
Ainda assim, o especialista reforça que a renda fixa deve permanecer competitiva por um período prolongado, especialmente enquanto persistirem incertezas fiscais e políticas. Para o investidor estrangeiro, a equação entre retorno e risco segue condicionada menos ao nível da taxa básica de juros e mais à capacidade do país de endereçar seus desequilíbrios estruturais.












