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ECONOMIA

Juros nos EUA podem subir novamente? O que mudou após a decisão do Fed

Alta de 0,25 ponto levou os juros americanos para 3,75% a 4% e foi aprovada por unanimidade. Projeções do Fed apontam para mais uma elevação ainda em 2026, enquanto analistas avaliam os efeitos sobre dólar, Treasuries e ativos de risco

A decisão do Federal Reserve de elevar os juros dos Estados Unidos nesta quarta-feira (16) foi esperada no tamanho, mas trouxe uma mensagem mais ampla para os mercados: o combate à inflação voltou a ocupar o centro da política monetária americana e a possibilidade de uma nova alta antes do fim do ano permanece sobre a mesa.

O Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) aumentou a taxa dos Fed Funds em 0,25 ponto percentual, para a faixa de 3,75% a 4 % ao ano, em uma decisão unânime. No comunicado, o Fed afirmou que a atividade econômica continua crescendo em ritmo sólido, enquanto a inflação permanece elevada. “O Fed retomou o ciclo de alta dos juros com uma elevação de 25 pontos-base, aprovada por 12 votos a 0. A decisão unânime é rara e politicamente relevante. Protege Warsh de acusações de que, por ser aliado de Trump, atuaria para reduzir os juros e conduzir a política monetária de modo a agradar à Casa Branca”, comenta Beto Saadia, economista-chefe da Nomos.

O dado que ganhou relevância adicional depois da decisão veio das novas projeções econômicas. A mediana esperada para os juros no fim de 2026 subiu de 3,8%, em junho, para 4,1% agora, nível compatível com pelo menos mais um aumento de 0,25 ponto nas duas reuniões restantes do ano. Dos 18 participantes que apresentaram projeções, 16 indicaram pelo menos mais uma alta em 2026.

O aumento desta quarta-feira interrompe a fase de estabilidade dos juros e recoloca o debate sobre um novo ciclo de aperto monetário nos Estados Unidos.

A projeção para a inflação medida pelo PCE também foi revisada marginalmente para cima em 2026, de 3,6% para 3,7%, enquanto a convergência para 2% aparece apenas em 2029 nas estimativas medianas. “A economia americana está aguentando juros altos sem travar e isso provavelmente deve dar ao Fed conforto para continuar priorizando o combate à inflação em vez de se preocupar somente com crescimento ou emprego”, diz Marcelo Bassani, economista e sócio-fundador da Boa Brasil Capital.

Por que o Fed ainda vê espaço para apertar os juros?

O comunicado apresenta uma economia que continua absorvendo o nível elevado dos juros sem uma deterioração significativa da atividade.

O Fomc afirmou que os gastos domésticos permanecem resilientes, a produtividade cresce em ritmo forte, os investimentos de capital continuam robustos e a criação de empregos acompanha a expansão da força de trabalho. A taxa de desemprego, segundo o Fed, pouco mudou.

Na entrevista coletiva posterior à decisão, Warsh reforçou essa percepção. O presidente do Fed afirmou que a inflação continua alta há tempo demais e que os números do verão americano não mostraram melhora significativa da tendência subjacente dos preços.

O Fed está voltando ao “higher for longer”?

Para Saadia, o tom adotado por Warsh reforça a possibilidade de juros altos por mais tempo.

“Isso é um discurso claramente hawkish, e o fato de essa avaliação ser ‘amplamente compartilhada’ pelo FOMC, nas palavras do próprio Warsh, reforça que não se trata de posição isolada.”

Na avaliação do economista, a mensagem aumenta a cautela para ativos de maior risco.

“Para ativos de risco como ações, o recado é de cautela, já que ‘higher for longer’ volta a predominar.”

A expressão higher for longer descreve um ambiente em que o banco central mantém os juros em níveis elevados durante um período prolongado, mesmo depois do movimento inicial de aperto.

Saadia também interpreta a decisão como parte de uma busca por reafirmação institucional do Fed diante dos questionamentos sobre sua independência.

“Na nossa leitura, o Fed opta por reconstruir credibilidade após meses de questionamento sobre sua independência, e a melhor forma de fazer isso é parecer mais duro do que o esperado.”

Para ele, o efeito pode ser de pressão sobre a curva de juros americana e fortalecimento do dólar no curto prazo.

O movimento da moeda americana após a decisão foi compatível com essa leitura inicial: o índice do dólar avançava cerca de 0,3% após a decisão, perto do maior nível em quase cinco semanas, em meio à perspectiva de novos aumentos dos juros.

A alta é preventiva ou início de um ciclo mais longo?

Guilherme Loureiro, CIO da Monte Bravo, chama atenção para outra interpretação da decisão: a de que o Fed estaria realizando uma alta preventiva para evitar que as expectativas de inflação se deteriorem.

“A leitura é de insurance hikes: um ajuste preventivo para evitar perda de controle das expectativas.”

Loureiro destaca que as novas projeções apontam para duas elevações em 2026 — a realizada nesta quarta e mais uma — acompanhadas de juros elevados por mais tempo e uma projeção de inflação ligeiramente maior.

A leitura encontra respaldo no dot plot. As novas projeções mostram 16 dos 18 participantes do Fomc indicando pelo menos uma nova alta antes do encerramento do ano.

Mas Loureiro também faz uma distinção importante sobre o movimento recente dos Treasuries.

Na avaliação dele, embora fatores estruturais como política fiscal, expectativas de inflação e emissão de dívida continuem relevantes, uma parte importante da alta recente dos rendimentos dos títulos americanos veio da reprecificação das taxas de curto prazo provocada pelo choque do petróleo.

Isso significa, segundo o CIO, que uma eventual redução da pressão sobre a energia também poderia alterar rapidamente essa dinâmica.

“Da mesma forma que os juros subiram rapidamente, também podem recuar com velocidade caso esse choque se dissipe. Isso reabre espaço para juros mais baixos a médio prazo.”

Pode haver outra alta ainda em 2026?

Para Bassani, essa passou a ser a principal informação da reunião desta quarta-feira.

“Neste momento acredito que teremos novas altas até o fim do ano.”

O economista destaca que a mediana de 4,1% projetada pelo próprio Fed para dezembro dificilmente seria compatível com uma manutenção da atual faixa até o fim do ano.

“Na minha leitura este é o dado mais importante da rodada: a projeção mediana do próprio Fed para 2026 subiu para 4,1%, o que matematicamente só se sustenta com pelo menos mais uma alta de 25pb em uma das duas reuniões restantes do ano.”

Ele acrescenta que, a partir dessas projeções, os investidores podem passar a incorporar de maneira mais consistente uma nova elevação dos Fed Funds.

A projeção mediana do Fomc, entretanto, não representa um compromisso formal com uma decisão futura. Cada ponto do gráfico corresponde à avaliação individual de um participante sobre a trajetória adequada dos juros, e as decisões continuam dependentes da evolução da economia.

O que os mercados passam a acompanhar agora?

Depois da decisão desta quarta-feira, três variáveis assumem papel central para os próximos encontros do Fed: inflação, petróleo e resistência da economia americana aos juros elevados.

Uma desaceleração mais consistente dos preços poderia diminuir a necessidade de novas altas. No sentido contrário, persistência da inflação, novas pressões sobre energia ou uma atividade ainda mais resistente podem fortalecer a defesa de um aperto adicional.

A reação política também passa a integrar o radar dos investidores. Trump vinha pressionando publicamente o Fed por juros menores, enquanto a decisão desta quarta avançou na direção oposta.

Juros nos EUA podem subir novamente? O que mudou após a decisão do Fed
Foto: Divulgação FED