O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) avançou 0,33% em dezembro e encerrou 2025 com alta acumulada de 4,26%, abaixo do teto da meta de inflação, de 4,50%. O dado, divulgado nesta sexta-feira (9) pelo IBGE, confirma um processo de desaceleração ao longo do ano, sustentado principalmente pelo comportamento mais benigno dos bens, embora a inflação de serviços siga pressionada.
Segundo o economista Alexandre Maluf, da XP, o resultado veio totalmente em linha com o cenário já esperado pelo mercado. “O IPCA fechou agora 2025 em 4,26%, arredondando 4,3%, em linha com nossa projeção de muitos meses. Na variação mensal, fez 0,33%, tínhamos 0,32%, em linha também e com a composição bem em linha”, afirmou.
Bens ajudam a conter inflação em 2025
No detalhamento do índice, os preços de alimentação e bens industriais foram determinantes para a desaceleração da inflação ao longo do ano. De acordo com o economista Júlio Barros, do Banco Daycoval, esses grupos surpreenderam positivamente. “Em 2025, a alimentação e os bens industriais foram os principais vetores da desinflação que esperávamos, surpreendendo inclusive o que se projetava desde o início do ano”, afirmou.
Segundo Barros, esse comportamento esteve diretamente ligado ao cenário externo e ao câmbio. “Esse resultado está evidentemente relacionado ao comportamento mais benigno das commodities e do câmbio ao longo do ano de 2025”, disse.
Em dezembro, os bens industrializados voltaram a acelerar, após meses de preços deprimidos. Para Maluf, esse movimento já era esperado. “A gente esperava essa aceleração em bens industrializados depois de uma Black Friday, Natal e festas de final de ano”, afirmou. O grupo avançou 0,48% no mês.
Serviços encerram o ano pressionados
Apesar do alívio vindo dos bens, a inflação de serviços segue como o principal foco de preocupação. Em dezembro, o grupo registrou alta expressiva, influenciado por fatores sazonais, como o aumento das passagens aéreas durante o período de férias.
“Quando a gente olha para o grupo de serviços, ele terminou dezembro com uma alta expressiva, algo comum no fim do ano, por conta de questões sazonais, como o aumento das passagens aéreas”, explicou Júlio Barros.
No entanto, a avaliação dos economistas é que a pressão vai além da sazonalidade. “No todo, a inflação de serviços terminou 2025 bem mais pressionada do que no ano passado”, destacou Barros. Segundo ele, os componentes mais persistentes seguem elevados. “Quando a gente abre o grupo de serviços, a parte mais perene, o núcleo de inflação e os serviços intensivos em trabalho seguem sendo um desafio importante para o Banco Central”.
Maluf reforçou essa leitura ao destacar as métricas de curto prazo. “A média móvel de três meses dessazonalizada dos serviços subjacentes voltou para 5,1%, bem acima da meta, muito por conta da dissipação da forte queda dos seguros de veículos no fim do terceiro trimestre”, afirmou.
Energia elétrica ajuda no mês, mas segue como risco no ano
Entre os preços administrados, a energia elétrica residencial teve papel relevante na moderação do IPCA de dezembro. “Tivemos o acionamento da bandeira amarela nas tarifas de energia em dezembro, o que levou a uma deflação de 2,4% em energia elétrica, bastante relevante para a moderação do índice”, disse Maluf.
Ainda assim, no acumulado do ano, a energia segue como um dos principais focos de pressão, refletindo os impactos do clima mais seco e da maior utilização de termelétricas ao longo de 2025.
Selic: cenário segue inalterado
Na avaliação da XP e do Banco Daycoval, o resultado do IPCA não altera o cenário de política monetária. Júlio Barros afirmou que o dado reforça a cautela do Banco Central. “Esse resultado não altera nossa expectativa para o início do corte de juros apenas em março pelo Banco Central”, disse.
Segundo ele, a composição da inflação reforça um viés conservador. “A parte mais perene da inflação está mais elevada do que a parte volátil, o que coloca um viés de postergação no nosso cenário base de corte de juros em março, somado às expectativas desancoradas e aos desafios para 2026”, afirmou.
A projeção do Daycoval para a inflação em 2026 é de 4,1%, com leve viés de baixa. “Esse número tem um viés levemente menor para janeiro, justamente por conta de uma alta um pouco menor para o grupo de alimentos”, explicou Barros.
Maluf também destacou que outros dados devem pesar mais para o Copom nos próximos meses. “Os dados de atividade mais recentes, especialmente de mercado de trabalho, devem ser mais decisivos para o Copom do que esse IPCA em linha”, afirmou. Segundo ele, “o plano de voo do Copom está bem traçado para o início do ciclo de cortes em março”.













