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ECONOMIA

Gigante na economia, pequeno na Bolsa: por que o agro não deslancha no mercado de capitais?

O agronegócio brasileiro é um dos principais motores da economia nacional. Responde por cerca de 25% do Produto Interno Bruto (PIB), é responsável por sucessivos superávits na balança comercial e abastece mais de 200 países. No entanto, quando se trata de mercado de capitais, esse gigante econômico ainda caminha a passos curtos. Segundo dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), apenas 3,5% dos ativos listados na Bolsa têm relação direta com o setor.

Por que há tamanha desconexão entre o peso econômico do agro e sua representatividade na B3? E o que falta para que esse potencial seja destravado?

A resposta começa, segundo o economista Miguel Daud, pela compreensão das duas faces do agronegócio. A primeira, da porteira para dentro, refere-se à produção agrícola, pecuária, tecnologia e insumos — altamente competitiva e moderna. A segunda, da porteira para fora, envolve armazenagem, logística, industrialização, exportação, crédito e seguros — e é justamente onde o elo com o mercado financeiro se fortalece, mas também onde estão os maiores desafios.

“A produção primária do agro brasileiro é referência global. Mas o setor ainda é tratado com desconfiança por parte do mercado financeiro, que tem dificuldades em compreender seus ciclos, riscos e dinâmicas de caixa”, afirma Daud. Para ele, essa assimetria ainda afasta investidores e limita o uso de instrumentos financeiros por parte dos produtores, especialmente os pequenos e médios.

André Vasconcellos, diretor de RI da Fictor Alimentos, concorda e amplia a visão: “Historicamente, o agronegócio brasileiro cresceu com base em governança familiar, capital próprio e pouca exposição pública. Isso gerou um setor eficiente, mas distante da cultura de mercado.”

A experiência da Fictor Alimentos é simbólica. A empresa realizou um IPO reverso em 2024 e viu sua estratégia se transformar. “O mercado de capitais nos trouxe visibilidade, credibilidade e alternativas de financiamento que seriam impensáveis em um ambiente fechado”, relata Vasconcellos. Segundo ele, o acesso ao capital permitiu antecipar ciclos de investimento e elevar o padrão de governança, planejamento e alocação de recursos.

Ainda assim, a cultura empresarial do agro segue como barreira para o avanço na Bolsa. “Abrir capital não é apenas um evento financeiro — é uma mudança de cultura. Envolve governança, disciplina e um compromisso de longo prazo com o mercado. Nem toda empresa está pronta para esse salto”, afirma.

André Vasconcellos, diretor de RI da Fictor Alimentos (Foto: Leo Freitas/Divulgação)

Além disso, há um desafio de linguagem e entendimento. O investidor médio da B3, acostumado com setores urbanos e margens previsíveis, nem sempre entende os fundamentos do agro. “Quando uma empresa agrícola reporta margens pressionadas no primeiro trimestre, isso não é sinal de crise — é o ciclo natural da lavoura. Mas o mercado ainda precisa aprender a ler esse ritmo”, explica Vasconcellos.

O caso BrasilAgro: pioneirismo e disciplina

Um exemplo bem-sucedido dessa ponte entre campo e mercado financeiro é a BrasilAgro. Fundada em 2006 já como empresa listada no Novo Mercado da B3, a companhia foi uma das pioneiras na abertura de capital no setor de produção agrícola. “A gente já nasceu com as ações listadas. Os fundadores perceberam que a oportunidade era muito maior do que inicialmente imaginavam. Foi aí que veio a ideia de ir para a Bolsa como plano de negócios”, relembra Ana Paula Zerbinati, head de RI e Mercado de Capitais da empresa.

A companhia captou R$ 584 milhões em sua estreia e estruturou nos primeiros cinco anos um portfólio robusto de terras com foco na valorização imobiliária e na produção agrícola. Hoje, além de atuar em seis estados brasileiros, está presente no Paraguai e na Bolívia — e também foi a primeira do setor a listar ADRs na Bolsa de Nova York.

Para Ana Paula, a disciplina financeira foi essencial para atravessar os diferentes ciclos do agro. “Nadamos de braçada no início, mas já sabíamos que viriam momentos desafiadores. Desde o começo, desenhamos uma estrutura leve, com baixa alavancagem e gestão disciplinada. Isso permitiu que a empresa se mantivesse sólida, mesmo em tempos de margens mais apertadas”, explica.

Ana Paula Zerbinati, da BrasilAgro (Foto: Divulgação)

Ela também destaca que o modelo da BrasilAgro já nasceu moldado para atender as exigências de governança, o que facilitou a adaptação às normas do mercado. “Foi muito natural para a gente. Já estruturamos os processos para funcionar dentro de um ERP de classe mundial e passamos a seguir não só as regras da B3, mas também da SEC, nos Estados Unidos. Governança é parte do nosso DNA.”

Futuro do agro na Bolsa

Para que o agro se firme como ativo, os especialistas apontam caminhos convergentes: educação financeira no campo, comunicação mais didática por parte das empresas, incentivo a estruturas jurídicas organizadas e um ambiente regulatório estável.

Daud também destaca a importância de políticas públicas que incentivem o capital de risco e a criação de instrumentos como ETFs e CRAs mais acessíveis, além da profissionalização da governança nas propriedades rurais. “O agro já fez sua parte. O produtor brasileiro é gestor, empreendedor e inovador. O que ele precisa agora são pontes entre o campo e o capital urbano”, diz.

A Fictor Alimentos, por sua vez, já aposta nesse caminho com uma estratégia de comunicação que busca “transformar complexidade em clareza, ruído em narrativa, e resultado em reputação”. Para Vasconcellos, “se quisermos um mercado de capitais representativo da economia brasileira, o agro precisa estar não só no campo, mas também no radar dos investidores”.

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