O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou nesta segunda-feira (9) que a política monetária brasileira entrou em uma nova etapa, marcada pela “calibragem” do nível de restrição dos juros. A declaração foi feita durante o evento Estabilidade Financeira e Perspectivas para 2026 e 2027, promovido pela Associação Brasileira de Bancos.
Segundo Gabriel Galípolo, o Banco Central precisou reforçar a atuação ao longo de 2025 para cumprir seus dois mandatos principais: garantir a estabilidade monetária e preservar a estabilidade financeira.
“No primeiro momento tivemos uma entrega de altas para responder à deterioração e a um repique da atividade. As expectativas chegaram a namorar com 6%”, disse.
O presidente do Banco Central afirmou que, no período mais crítico do ano passado, a inflação mostrou forte disseminação. De acordo com ele, entre abril e maio, 85% dos componentes do IPCA estavam acima da metade da meta e cerca de 50% chegaram a ficar acima do dobro da meta de inflação.
Presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, fala sobre política monetária e efeito dos juros
Gabriel Galípolo avaliou que o Banco Central manteve os juros elevados por tempo suficiente para que os efeitos fossem transmitidos à economia. Para o dirigente, a reação foi mais rápida do que se imaginava, principalmente no comportamento do câmbio e das expectativas.
“Conseguimos demonstrar que a política monetária funciona. Câmbio e expectativas se apresentaram de maneira mais rápida do que se imaginaria”, afirmou.
Apesar disso, o presidente do Banco Central ressaltou que o momento não representa o fim do processo de combate à inflação.
“Não é uma volta da vitória. Ainda existem dados que mostram uma resiliência econômica. O que temos agora é um ajuste”, declarou.
Segundo ele, o Banco Central não trabalha com uma taxa de juros real específica e continuará dependente dos dados econômicos para definir a intensidade da política monetária. O objetivo é dosar o nível de restrição necessário para garantir a convergência da inflação para a meta.
Inflação melhora, mas atividade surpreende
Gabriel Galípolo afirmou que houve melhora recente na inflação e nas expectativas, mas destacou que a atividade econômica segue mais forte do que o previsto para o atual patamar de juros.
“A inflação se comportou melhor, mas também é verdade que a atividade se tornou mais resiliente do que se esperava numa taxa nesse patamar”, disse.
Ele também demonstrou preocupação com as projeções inflacionárias de longo prazo.
“As expectativas ainda estão acima e a desancoragem nos horizontes mais longos incomoda”, afirmou.
O presidente do Banco Central avaliou ainda que as incertezas relacionadas à política econômica dos Estados Unidos se materializaram, mas produziram efeitos diferentes do esperado nos mercados financeiros.
Segundo Gabriel Galípolo, o movimento global acabou criando um ambiente favorável a economias emergentes, algo incomum em momentos de aversão ao risco.
Ele também afirmou que a indicação de Kevin Warsh para o Federal Reserve contribuiu para reduzir parte das incertezas no cenário internacional, classificando o economista como um nome técnico.
Reformas fiscais e banco Master
Durante a apresentação, Gabriel Galípolo voltou a defender reformas estruturais para melhorar o quadro fiscal brasileiro. De acordo com o presidente do Banco Central, não existe solução única para o equilíbrio das contas públicas.
“Não tem uma bala de prata”, afirmou.
O dirigente também comentou o acompanhamento realizado pela autoridade monetária no caso do Banco Master. Segundo ele, captações acima do CDI não são, isoladamente, motivo para a liquidação de uma instituição financeira.
“Comentaram sobre captações acima do CDI, mas isso não configura um objeto para liquidar o banco”, disse.
Ele explicou que o Banco Central passou a monitorar a instituição após sinais de problemas de liquidez no fim de 2024. Em novembro, a diretoria de fiscalização chamou o banco para prestar esclarecimentos e concedeu prazo de seis meses.
Em janeiro surgiram dúvidas sobre negociações de carteiras de crédito. Em fevereiro foi criado um grupo de análise e, a partir de março, as suspeitas foram corroboradas. Nesse período, chegou a ser considerada a possibilidade de aquisição da instituição pelo BRB.
“O Banco Central não faz notícia de crime, faz notícia de fatos que vão ser investigados”, afirmou.
Gabriel Galípolo também afirmou que o Banco Central pretende reforçar sua comunicação institucional. A nova agenda visual da autoridade monetária terá como símbolo um quadrado, referência ao arquétipo de estabilidade, com partes vazadas para representar transparência, um desafio enfrentado por bancos centrais em todo o mundo.













