O mercado financeiro manteve a leitura de inflação controlada e ciclo de normalização monetária gradual nos próximos anos. É o que mostra o Boletim Focus divulgado pelo Banco Central nesta segunda-feira (26), que consolida as expectativas de mais de uma centena de instituições para os principais indicadores macroeconômicos.
Para 2026, a mediana das projeções aponta IPCA de 4,00%, nível próximo ao teto da meta, enquanto a taxa Selic permanece em 12,25% ao ano, sinalizando que o Banco Central ainda deve manter uma política monetária restritiva no curto prazo.
No horizonte mais longo, o Focus reforça a percepção de que os juros devem entrar em trajetória estrutural de queda. A Selic é projetada em 10,50% em 2027, 9,75% em 2028 e 9,50% em 2029, indicando que o mercado enxerga espaço para flexibilização monetária à medida que a inflação se mantenha sob controle.
Economista analisa destaques do Boletim Focus
Para o economista Maykon Douglas, um ponto interessante a respeito de 2028, entretanto, é a mediana das previsões para a taxa Selic, que subiu pela segunda semana consecutiva.
“Ainda é cedo para apontar motivos para isso. Caso o movimento se mantenha nas próximas sondagens, creio que refletirá um aumento na percepção de risco fiscal doméstico. Isso deve ser fruto da possibilidade de nenhum dos principais presidenciáveis tratar o ajuste das contas públicas como um alicerce das suas campanhas, mesmo diante do cenário de esgotamento do espaço fiscal no futuro próximo“, avalia.
Inflação converge para a meta, segundo Focus
As projeções do relatório indicam um processo de desinflação consistente ao longo do tempo. O IPCA recua de 4,00% em 2026 para 3,80% em 2027, chegando a 3,50% em 2028 e 2029, patamar alinhado ao centro da meta do regime de inflação.
Os preços administrados acompanham essa tendência, com estimativas de 3,76% em 2026, 3,71% em 2027 e 3,50% a partir de 2028.
Câmbio permanece pressionado
Mesmo com inflação ancorada e expectativa de queda dos juros, o mercado mantém uma visão cautelosa para o câmbio. O dólar é projetado em R$ 5,50 em 2026 e 2027, R$ 5,52 em 2028 e R$ 5,58 em 2029.
O patamar reflete a percepção de que o Brasil seguirá operando com prêmio de risco estrutural elevado, influenciado principalmente pelas incertezas fiscais e pelo cenário internacional ainda restritivo.
Crescimento segue moderado, mostra Focus
No campo da atividade, as expectativas apontam para um crescimento modesto e relativamente estável da economia brasileira. O Produto Interno Bruto (PIB) deve avançar 1,8% em 2026 e 2027, com leve aceleração para 2,0% em 2028 e 2029.
O cenário sugere que o país deve crescer próximo ao seu potencial, sem sinais de expansão mais forte no curto e médio prazo.
Fiscal continua no centro do debate
Apesar da melhora gradual do resultado primário ao longo do horizonte, o quadro fiscal segue sendo o principal ponto de atenção dos agentes econômicos. O mercado projeta déficit primário de 0,53% do PIB em 2026, 0,40% em 2027, 0,20% em 2028 e ainda 0,03% em 2029.
Já o resultado nominal, que inclui os gastos com juros da dívida, permanece elevado e negativo: -8,60% do PIB em 2026, -7,85% em 2027, -7,50% em 2028 e -6,97% em 2029.
Como consequência, a dívida líquida do setor público segue em trajetória de alta, passando de 70,36% do PIB em 2026 para 78,82% em 2029, reforçando a percepção de que o ajuste fiscal ainda é lento e insuficiente para estabilizar a dinâmica da dívida.
Setor externo sustenta financiamento
No setor externo, o Focus mostra que o Brasil deve continuar operando com déficits em conta corrente, que variam de US$ 67,8 bilhões em 2026 para US$ 65,9 bilhões em 2029.
Esse desequilíbrio, no entanto, segue sendo compensado por fluxo robusto de investimento direto no país, que cresce de US$ 74,85 bilhões em 2026 para US$ 80 bilhões a partir de 2028.
A balança comercial permanece superavitária, com estimativa de US$ 67,65 bilhões em 2026, US$ 71,55 bilhões em 2027 e US$ 74 bilhões em 2028, chegando a US$ 75 bilhões em 2029.
Leitura macro
O novo Focus consolida um cenário de inflação sob controle, política monetária em processo de normalização e crescimento moderado, mas com um pano de fundo ainda desafiador do ponto de vista fiscal.
Mesmo com a perspectiva de juros mais baixos, o relatório sinaliza que o risco fiscal continua sendo o principal vetor de precificação dos ativos brasileiros, limitando ganhos estruturais de confiança e mantendo o câmbio em patamares elevados.














