O mercado financeiro inicia 2026 com projeções que reforçam um cenário de inflação ainda resistente, política monetária contracionista por mais tempo e crescimento econômico moderado. Os dados constam do Relatório Focus divulgado pelo Banco Central nesta segunda-feira (5), que reúne as medianas das expectativas de analistas para os principais indicadores macroeconômicos.
Para o IPCA de 2025, a projeção foi levemente revisada para baixo, passando de 4,32% para 4,31%, mas segue acima do centro da meta. Já para 2026, o mercado elevou marginalmente a estimativa de inflação, de 4,05% para 4,06%, reforçando a percepção de dificuldade no processo de desinflação. Para 2027, a projeção permanece em 3,8%, enquanto para 2028 está em 3,50%, patamar próximo ao centro da meta de longo prazo.
Os preços administrados continuam sendo um ponto de atenção. A expectativa para 2025 é de alta de 5,31%, enquanto para 2026 o número subiu para 3,73%, com novas elevações previstas em 2027, para 3,71%.
Economista avalia dados do Focus
O economista Maykon Douglas destaca que, conforme sua previsão, a inflação fechou o ano de 2025 em 4,3%.
“O número referente a dezembro será divulgado nesta semana e deve indicar certa aceleração nos preços dos serviços subjacentes, apesar da trajetória geral ser mais benigna do que a registrada há alguns meses“, destaca.
Ele pondera que continua esperando que isso não seja suficiente para que o BC comece a cortar os juros na reunião de janeiro, dado o aperto ainda evidente no mercado de trabalho e a estagnação das expectativas longas de inflação em patamar acima da meta.
“Além disso, a depender dos desdobramentos das tensões entre Venezuela e EUA até lá, a autoridade monetária pode introduzir alguma incerteza adicional sobre o impacto dos conflitos sobre o dólar e os preços do petróleo, ambos importantes para a conta do BC. Não vejo efeitos muito significativos para ambos a priori, mas é preciso observar“, conclui.
Crescimento perde fôlego a partir de 2026, segundo Focus
Na atividade econômica, o Focus indica desaceleração após um 2025 mais robusto. A projeção para o PIB deste ano é de crescimento de 2,26%. Para 2026, a expectativa é de avanço de apenas 1,8%, mantendo-se nesse mesmo patamar em 2027. Apenas em 2028 o mercado vê uma leve recuperação, com crescimento estimado em 2%.
O cenário reflete a combinação de juros elevados, menor impulso fiscal e ambiente externo mais desafiador, fatores que limitam a expansão da economia no médio prazo.
Selic segue alta e cortes devem ser graduais
A política monetária permanece restritiva nas projeções dos analistas. Para 2026, o mercado projeta uma redução para 12,25% na Selic, ainda em nível elevado. Os cortes continuam de forma gradual nos anos seguintes, com a taxa chegando a 10,50% em 2027 e 9,75% em 2028.
O movimento reforça a leitura de que o Banco Central deverá conduzir um ciclo de flexibilização cauteloso, condicionado ao comportamento da inflação e às expectativas futuras.
Câmbio segue pressionado, mostra Focus
No câmbio, o relatório mostra estabilidade em patamar depreciado. A mediana das projeções aponta o dólar em R$ 5,50 ao final de 2025, 2026 e 2027, com leve ajuste para R$ 5,52 em 2028. O número reflete a combinação de fatores externos, diferencial de juros e percepção de risco fiscal doméstico.
Contas externas seguem deficitárias
As projeções para o setor externo indicam déficits persistentes em conta corrente. Para 2025, o saldo negativo esperado é de US$ 75 bilhões. Em 2026, o déficit recua para US$ 67 bilhões, com nova melhora gradual até US$ 63,6 bilhões em 2028.
A balança comercial, por outro lado, segue superavitária. O mercado projeta saldo de US$ 63 bilhões em 2025, US$ 66 bilhões em 2026 e US$ 70 bilhões em 2027 e 2028. O investimento direto no país deve somar US$ 79,7 bilhões em 2025, cair para US$ 74 bilhões em 2026 e voltar a crescer nos anos seguintes.
Fiscal segue no radar do mercado
O quadro fiscal permanece como um dos principais pontos de atenção. A dívida líquida do setor público deve encerrar 2025 em 65,97% do PIB, subindo para 70,23% em 2026, 73,77% em 2027 e 76,00% em 2028.
O resultado primário segue negativo ao longo de todo o horizonte analisado. Para 2025, o déficit estimado é de 0,5% do PIB. Em 2026, a projeção piora para 0,55%, com alguma melhora gradual apenas nos anos seguintes. Já o resultado nominal permanece elevado, com déficit de 8,48% do PIB em 2025 e 8,66% em 2026, caindo lentamente até 7,2% em 2028.
O conjunto das projeções mostra que o mercado inicia 2026 com leitura cautelosa sobre inflação, crescimento e contas públicas, mantendo no radar a necessidade de ajustes fiscais e a condução cuidadosa da política monetária.












