O crescimento da massa salarial real no Brasil tem sido consistente nos últimos anos, mas o consumo das famílias não tem acompanhado esse avanço na mesma intensidade. A explicação pode estar no aumento do endividamento das famílias, segundo estudo divulgado pelo Departamento de Pesquisa Econômica (DPEc) do Banco Daycoval.
A análise identifica que existe um ponto crítico a partir do qual a dívida passa a limitar o efeito da renda sobre o consumo. De acordo com o relatório, quando o endividamento das famílias ultrapassa 39,6% da renda, o impacto da massa salarial sobre o consumo se reduz significativamente.
No regime de menor endividamento, cada 1 ponto percentual de crescimento da massa salarial adiciona cerca de 0,29 ponto percentual ao consumo das famílias. Já no regime de endividamento elevado, esse coeficiente cai para 0,17 ponto percentual, indicando uma redução de aproximadamente 40% na transmissão da renda para o consumo.
Dívida das famílias quase triplicou desde 2005
O estudo mostra que o endividamento das famílias brasileiras cresceu de forma expressiva nas últimas duas décadas. Em 2005, o nível de dívida representava cerca de 17% da renda das famílias. Em 2025, esse percentual se aproxima de 50%.
A expansão do crédito habitacional foi o principal fator por trás desse movimento. O endividamento associado a financiamentos imobiliários passou de 2,6% da renda para 18,5% no período analisado, enquanto o endividamento não habitacional permaneceu oscilando entre 25% e 31% da renda.
Segundo os economistas responsáveis pelo estudo, a economia brasileira ultrapassou o limiar identificado pelo modelo em 2020 e desde então opera em um regime de alto endividamento.
O estudo é assinado por Rafael Cardoso, economista-chefe do Daycoval, Julio Cesar Barros, economista, e Antonio Ricciardi, economista, integrantes do Departamento de Pesquisa Econômica do banco. “Enquanto o endividamento permanecer acima do limiar, expansões de massa salarial terão eficácia reduzida sobre o consumo, e a desalavancagem das famílias passa a ser um ponto de relevância para o comportamento do consumo das famílias”, afirmam os autores.
Crédito sustentou consumo na pandemia
O relatório também aponta que o papel do crédito muda quando o endividamento das famílias está elevado. Em um ambiente de menor endividamento, a renda é o principal motor do consumo. Já em um cenário de dívida mais alta, o crédito passa a ter influência direta na sustentação da demanda.
Esse mecanismo ficou evidente durante a pandemia. Entre 2020 e 2022, o elevado nível de endividamento ajudou a sustentar o consumo por meio da expansão do crédito às famílias, compensando parcialmente os efeitos da queda da renda em alguns momentos da crise.
Desde 2023, endividamento passou a frear o consumo
A partir de 2023, no entanto, esse efeito começou a se inverter. Com a desaceleração das concessões de crédito para pessoas físicas, o impacto negativo do alto endividamento sobre o consumo se tornou mais evidente.
Segundo a simulação realizada no estudo, desde 2023 o consumo das famílias acumulou cerca de 3 pontos percentuais a menos de crescimento ao ano do que teria registrado em um cenário de menor endividamento. Em 2025, caso a dívida das famílias estivesse abaixo do limiar identificado, o consumo poderia ter sido 3,6 pontos percentuais maior.
Os economistas também destacam que modelos tradicionais de previsão econômica tendem a superestimar o consumo ao considerar apenas a expansão da renda. Já modelos que incorporam o regime de endividamento conseguem explicar com maior precisão a desaceleração observada nos últimos anos.
A conclusão do estudo é que, enquanto o nível de endividamento permanecer elevado, o crescimento da renda tende a ter impacto limitado sobre o consumo das famílias — reforçando a importância de um processo gradual de desalavancagem para sustentar a demanda doméstica nos próximos anos.

