BofA muda Brasil de posição neutra para overweight e projeta Selic a 11,25% no fim de 2027; queda mais profunda dos juros pode ampliar valorização para setores que ficaram para trás na Bolsa
O Bank of America (BofA) elevou a recomendação para as ações brasileiras nesta terça-feira (8), em uma mudança relevante de avaliação sobre o mercado local. O banco passou o Brasil de marketweight, posição neutra em relação ao índice de referência, para overweight, que representa uma exposição acima da média. O principal fundamento da revisão é a expectativa de um ciclo mais profundo de redução da taxa Selic.
A decisão marca uma reversão da postura mais cautelosa adotada pela instituição nos últimos meses. Em junho, o BofA havia reduzido a recomendação para as ações brasileiras de overweight para neutra, citando inflação, volatilidade associada ao cenário eleitoral e a perspectiva de juros elevados por mais tempo. Agora, a mudança nas projeções para a política monetária voltou a colocar o mercado brasileiro entre as apostas do banco.
O BofA projeta que a Selic encerre 2027 em 11,25% ao ano, abaixo dos 12,75% previstos anteriormente. De acordo com o relatório, a desaceleração da atividade econômica e a redução dos riscos inflacionários podem abrir espaço para um ciclo de flexibilização monetária maior do que aquele atualmente incorporado aos preços dos ativos. “O ponto central da revisão para baixo nas projeções do relatório refere-se à taxa Selic. O analista posicionou-se de forma significativamente mais otimista do que a curva de juros atual, o que, caso se concretize, poderá proporcionar uma valorização expressiva do Ibovespa”, afirma Marco Saravalle, CIO da Krivo.
Por que a Selic mudou a visão do Bank of America sobre o Brasil?
A revisão da trajetória dos juros é o principal elemento da nova avaliação do banco. Na leitura do BofA, uma Selic mais baixa pode reduzir a pressão sobre empresas afetadas pelo elevado custo de capital e permitir uma recuperação dos múltiplos da Bolsa brasileira.
A projeção também revela uma diferença relevante em relação às expectativas predominantes no mercado. O Boletim Focus divulgado nesta terça-feira mantém a mediana das projeções para a Selic em 13,75% no fim de 2026 e 12% no fim de 2027. O cenário do BofA, portanto, prevê juros 0,75 ponto percentual abaixo do consenso para o final do próximo ano.
No relatório, a instituição afirma ainda que os 11,25% projetados para o fim de 2027 estão bem abaixo dos cerca de 14% que, segundo o banco, estão atualmente incorporados aos preços de mercado. É justamente essa diferença que cria, na avaliação da instituição, espaço para uma reprecificação das ações caso o cenário mais benigno para os juros se confirme.
Segundo Saravalle, fatores como entrada de capital estrangeiro, valorização do petróleo, desempenho da Petrobras e cenário eleitoral podem ajudar a explicar movimentos de curto prazo, mas não constituem o núcleo da nova tese do BofA. Para ele, a perspectiva de uma Selic mais baixa é o elemento capaz de sustentar uma valorização por um período mais longo.
Quais ações podem se beneficiar mais da nova projeção?
A mudança de recomendação também alterou a estratégia setorial do Bank of America. O banco ampliou a exposição principalmente a empresas mais sensíveis aos juros, incluindo companhias ligadas ao mercado de capitais, empresas mais alavancadas e ações cujo valor tende a responder de forma mais intensa às mudanças nas taxas.
A lógica é que uma redução do custo do dinheiro pode produzir efeitos em diferentes frentes. Empresas endividadas teriam menor pressão financeira, enquanto companhias ligadas ao mercado de capitais poderiam se beneficiar de maior atividade de negociação, emissões e operações de financiamento.
O BofA, no entanto, ressalta que os juros permaneceriam elevados mesmo dentro do cenário mais favorável. Por isso, a instituição também mantém exposição a empresas de grande capitalização, com liquidez, geração de caixa e balanços considerados mais sólidos.
Em commodities, a instituição não ampliou a exposição na mesma proporção. Vale e Petrobras permanecem com recomendação marketweight, reforçando que a reavaliação positiva do Brasil está mais associada ao potencial de empresas domésticas beneficiadas pela queda dos juros do que propriamente à valorização recente do petróleo e do minério de ferro.
Ainda há espaço para a Bolsa subir?
Apesar da valorização recente do Ibovespa, o BofA identifica segmentos que ainda negociam abaixo de suas referências históricas. Segundo o relatório, quando as empresas de commodities são excluídas do índice, a Bolsa brasileira apresenta desconto de aproximadamente 10% em relação à sua média histórica.
Saravalle destaca que essa diferença ajuda a explicar por que uma queda mais forte dos juros poderia provocar uma ampliação do movimento de alta para além das empresas que vêm sustentando o avanço recente do índice.
Na avaliação do CIO da Krivo, a valorização atual permanece concentrada em poucos ativos, especialmente relacionados ao petróleo. “O índice atual tem avançado de forma concentrada em poucos ativos, especialmente no setor de petróleo. Ao excluirmos essas altas pontuais, percebe-se que o mercado permanece descontado, com oportunidades relevantes em diversos setores, notadamente no financeiro e em empresas sensíveis à economia doméstica, que ainda negociam abaixo de suas médias históricas”, destaca Saravalle.
O fluxo estrangeiro também voltou a contribuir para o mercado. Segundo números citados pelo BofA, investidores internacionais colocaram R$ 6 bilhões no mercado brasileiro à vista nos dez dias anteriores ao relatório, movimento que reverte parcialmente uma saída de R$ 20 bilhões observada nos três meses anteriores.
O que pode colocar a tese do BofA em risco?
A principal condição para que a reavaliação se confirme está justamente na inflação e na capacidade do Banco Central de reduzir os juros nos próximos trimestres.
O cenário do Bank of America é mais otimista do que o consenso captado pelo Focus. Nesta semana, a mediana das expectativas para o IPCA de 2027 subiu de 4,28% para 4,29%, enquanto a projeção para a Selic daquele ano permaneceu em 12%.
Para Saravalle, a inflação precisaria continuar arrefecendo e caminhar em direção ao centro da meta para criar espaço para cortes adicionais. Caso isso aconteça, a projeção de 11,25% do BofA ganharia sustentação e poderia desencadear um processo mais prolongado de reprecificação dos ativos brasileiros.
A eleição presidencial, o comportamento das commodities, o fluxo estrangeiro e eventuais revisões nos lucros das companhias continuam entre os fatores acompanhados pelo mercado. O próprio BofA reconhece esses riscos. A principal mudança, porém, é que o banco considera agora que o efeito de um ciclo de juros mais profundo pode ser suficientemente relevante para compensar parte dessas incertezas.
Na prática, a nova recomendação do Bank of America representa uma aposta de que a próxima etapa de valorização da Bolsa brasileira poderá ser menos dependente de Petrobras, Vale e commodities e mais disseminada entre empresas domésticas. Para que isso aconteça, porém, o principal gatilho terá de sair das projeções e se materializar: uma trajetória da Selic abaixo daquela que hoje predomina nas expectativas do mercado.
