A volta do capital estrangeiro ao mercado brasileiro não representa necessariamente um voto de confiança na economia local. Na avaliação de Marcio Sette Fortes, analista entrevistado pela BM&C News, o movimento recente de retorno do investidor externo está mais ligado à lógica de carry trade do que a uma aposta estrutural no país.
Os juros reais elevados no Brasil criam condições favoráveis para operações de curto prazo, mas o perfil desse fluxo carrega uma fragilidade: a volatilidade. Segundo Fortes, o capital que entra agora é altamente sensível à incerteza, especialmente em um contexto de aproximação do período eleitoral.
O juro alto atrai capital, mas não garante permanência
Para o analista, a taxa de juros brasileira funciona como ímã para recursos externos em busca de rentabilidade rápida. O carry trade — estratégia que consiste em tomar empréstimos em moedas de países com juros baixos e aplicar em mercados de juros altos — ganha tração em ambientes como o atual.
O problema é que esse tipo de operação responde com velocidade a mudanças no cenário político. A incerteza eleitoral, tema recorrente no Brasil, tem potencial de reverter o movimento de entrada com a mesma rapidez com que ele se estabeleceu. O mercado não reage ao discurso, reage ao risco.
PIB cresce, mas investimento patina
Fortes destacou ainda o descompasso entre o desempenho do PIB brasileiro e a evolução da formação bruta de capital fixo, indicador que mede o volume de novos investimentos produtivos na economia. Enquanto o produto interno mostra crescimento em comparação a outros países, o ritmo de expansão do investimento segue baixo.
Esse cenário revela um paradoxo: a economia avança, mas não constrói base produtiva para sustentar crescimento de longo prazo. O custo elevado do crédito pressiona famílias e empresas, reduzindo a capacidade de novos projetos e ampliação de capacidade instalada.
Desaceleração pode forçar corte de juros, mas não resolve estrutura
Na leitura de Fortes, a desaceleração da atividade econômica pode eventualmente abrir espaço para que o Banco Central inicie um ciclo de cortes na taxa de juros. A questão é que o alívio monetário, por si só, não resolve o problema estrutural de baixa formação de capital.
A taxa de juros elevada impacta diretamente a decisão de investir. Empresas postergam projetos, empreendedores recuam diante do custo de capital, e o ciclo de ampliação produtiva perde fôlego. O capital estrangeiro, enquanto isso, segue volátil, atento ao calendário político e aos sinais de risco que possam justificar uma saída rápida.
A análise completa de Marcio Sette Fortes sobre o comportamento do capital estrangeiro e os desafios para a bolsa brasileira pode ser conferida na íntegra neste link: https://www.youtube.com/watch?v=jGrpM8a3VXY
