A ata do Copom que ratificou o quinto corte consecutivo de 0,25 ponto percentual na Selic trouxe um diagnóstico incômodo: a política monetária restritiva do Banco Central está sendo anulada pela expansão simultânea de programas de gasto público e de crédito direcionado. A avaliação foi comentada em detalhes pelo analista Écio Costa em entrevista à BM&C News, que destrincha os principais alertas embutidos no documento.
Para Costa, a mensagem central da autoridade monetária é clara: sem disciplina fiscal, a taxa de juros precisará permanecer em patamar restritivo por mais tempo, com impactos diretos sobre o custo da desinflação e a trajetória da dívida pública.
Duas políticas de crédito puxam em direções opostas
Segundo o analista, a ata revela uma cisão no mercado de crédito brasileiro. Enquanto o crédito livre desacelera em linha com a atividade econômica mais fraca, o crédito direcionado — via BNDES e financiamento imobiliário — segue em expansão. Essa diferença não é técnica: é política.
Na leitura de Costa, programas de estímulo via crédito subsidiado funcionam como política fiscal disfarçada de política de fomento. O resultado prático é que o Banco Central aperta de um lado, e o governo afrouxe de outro. O mercado não reage ao discurso, reage ao risco.
Inflação pontual não muda diagnóstico estrutural
O contexto internacional reforça a cautela. O analista destacou as incertezas relacionadas ao conflito envolvendo o Irã e a volatilidade do petróleo, que afetam commodities, logística e comércio exterior. Esses choques externos adicionam pressão sobre os preços domésticos e dificultam a ancoragem das expectativas.
A deflação registrada em agosto, puxada por preços controlados como combustíveis, não altera o cenário de fundo. Para Costa, o Copom entende que a queda foi circunstancial e não reflete uma trajetória de convergência sustentável da inflação.
Falta de coordenação eleva o custo da estabilização
O Banco Central aponta que a falta de disciplina fiscal força a política monetária a carregar sozinha o peso da desinflação. Costa observa que isso eleva a taxa de juros neutra — aquela que não estimula nem desacelera a economia — e compromete a sustentabilidade da dívida pública.
Na avaliação do analista, o trade-off está explícito: quanto maior a expansão fiscal, maior a desaceleração da atividade necessária para trazer a inflação de volta à meta. Dois erros não fazem um acerto.
A ata sinaliza que o ajuste será mais longo e custoso
A leitura estratégica de Costa é que o Banco Central está preparando o mercado para um ciclo de juros restritivos prolongado, até que haja uma reversão crível na trajetória fiscal. Sem coordenação entre as políticas monetária e fiscal, o custo recai sobre o crescimento, o emprego e o endividamento público.
A ata do Copom, portanto, não é apenas um documento técnico. É um recado político: a conta está aberta, e alguém vai ter que pagá-la.
Assista à entrevista completa da BM&C News neste link: https://www.youtube.com/watch?v=FWXO9uD0o_I
