A Assembleia Geral da ONU deste ano se tornou uma das mais intensas dos últimos anos, segundo o professor Marcus Vinicius de Freitas, especialista convidado pela BM&C News. O evento expôs não apenas a polarização entre diferentes visões de ordem internacional, mas também os limites da diplomacia multilateral em um contexto de guerras simultâneas e realinhamentos econômicos. Na avaliação do professor, o contraste entre os discursos de Lula e Trump simboliza a fratura que atravessa o sistema internacional.
O presidente brasileiro assumiu protagonismo como voz do chamado Sul Global, enquanto o retorno de Trump à cena internacional trouxe uma perspectiva radicalmente distinta sobre o papel das instituições multilaterais. Marcos Vinicius observa que essa tensão não é apenas retórica — ela se reflete em posições concretas sobre conflitos, comércio e governança global.
A Assembleia virou palco de rupturas diplomáticas explícitas
A intensidade do evento ficou visível nas críticas diretas a Israel e nas reações ao discurso do primeiro-ministro israelense, que provocaram a saída de delegações do plenário. Para Marcos Vinicius, a função da Assembleia Geral como parlatório global ganha relevância justamente quando o consenso se torna impossível. O espaço diplomático, mesmo limitado, permite que posições opostas sejam formalizadas publicamente.
Além de Lula e Trump, lideranças como o presidente do Irã, o presidente da Venezuela e Emmanuel Macron ocuparam o centro do debate. Cada discurso revelou não apenas alinhamentos ideológicos, mas também interesses econômicos subjacentes. A ordem global em disputa não é apenas geopolítica — é também comercial, energética e financeira.
Guerras na Ucrânia e no Oriente Médio pressionam a economia global pelo lado da oferta
As implicações econômicas dos conflitos em curso foram abordadas pelo professor Marcos Vinicius como elemento central da conjuntura. A estagnação da Europa, os preços do petróleo e os efeitos sobre países do Sul Global compõem um quadro de pressão sobre cadeias produtivas e balanços de pagamentos. A redução do consumo de petróleo pela China, segundo ele, tem efeito direto sobre os preços da commodity e, por consequência, sobre a capacidade de financiamento de economias dependentes de exportação de energia.
A guerra não é apenas um choque de oferta — ela redistribui poder de compra, altera fluxos de capital e redefine quem ganha e quem perde na geografia econômica global. O mercado não reage ao discurso, reage ao risco. E o risco, neste momento, está mais distribuído do que concentrado.
A sucessão de Guterres pode marcar mudança de eixo na governança multilateral
Esta foi a última Assembleia Geral sob a gestão do secretário-geral António Guterres. Para Marcos Vinicius, a transição de liderança na ONU ocorre em momento crítico, quando a própria relevância do sistema multilateral está em questão. A sucessão não é apenas administrativa — ela pode sinalizar qual visão de ordem global prevalecerá nos próximos anos, se a da coordenação institucional ou a da competição aberta entre blocos.
A leitura do especialista aponta que a Assembleia Geral da ONU, mesmo com suas limitações operacionais, continua sendo termômetro das fraturas globais. O que se discute em Nova York não resolve guerras, mas expõe quem está disposto a arcar com os custos da desordem. Assista à entrevista completa da BM&C News neste link: https://www.youtube.com/watch?v=a7r3hozkly4
