A expansão acelerada das apostas online no Brasil começa a produzir efeitos visíveis sobre a economia real, com impactos que vão do orçamento das famílias à dinâmica do varejo. Em entrevista à BM&C News, Alex André traçou um diagnóstico sobre como o vício em bets está deslocando recursos do consumo básico para o jogo, elevando a inadimplência e pressionando setores que dependem da renda disponível das classes C e D.
Para o especialista, o fenômeno já ultrapassou a esfera do entretenimento e passou a representar um risco estrutural. A restrição de crédito pelos bancos, o aumento do endividamento e o relato de perda de consumo por supermercadistas compõem um quadro que exige leitura atenta.
O dinheiro que deveria circular no varejo está indo para as bets
Segundo Alex André, o avanço das casas de apostas atinge em cheio a população de baixa renda, segmento historicamente sensível a variações de renda e crédito. O vício em apostas compromete a produtividade e corrói a capacidade de consumo das famílias, gerando um efeito cascata sobre o varejo.
Supermercados e comércios de bairro, que dependem da regularidade da demanda, começaram a reportar queda nas vendas. A renda que antes alimentava o consumo básico agora é canalizada para plataformas de apostas, criando um buraco no fluxo de caixa de empresas que operam com margens apertadas.
A inadimplência subiu e os bancos reduziram a oferta de crédito
Na avaliação do especialista, o ciclo de endividamento gerado pelas bets levou os bancos a apertar os critérios de concessão de crédito. A alta da inadimplência não passou despercebida pelas instituições financeiras, que reagiram com restrição da oferta, especialmente para os segmentos mais vulneráveis.
Esse movimento agrava o cenário para o varejo, que além de perder faturamento direto, vê minguar a capacidade de financiamento do consumidor. O Excel fecha. O caixa é que cobra. E o varejo brasileiro, já pressionado por custos crescentes e margens estreitas, enfrenta agora um deslocamento de demanda que não estava no radar.
A regulação chegou tarde e o dano já está feito
Alex André destacou que o governo federal demorou a reagir. A explosão da publicidade de bets, especialmente vinculada ao esporte, consolidou a presença dessas plataformas no cotidiano dos brasileiros antes que houvesse qualquer controle efetivo. A vedação de apostas por beneficiários do Bolsa Família e a exigência de alertas na publicidade são medidas tardias diante da escala do problema.
O especialista apontou incoerências na postura do governo, que de um lado busca arrecadação e de outro tenta conter os danos. A trajetória regulatória revela um descompasso entre a velocidade de entrada das bets no mercado e a capacidade do Estado de impor limites.
O problema virou questão de saúde pública e exige resposta estrutural
Para Alex André, o tema já ultrapassou a esfera econômica e se tornou uma questão de saúde pública. O vício em apostas online exige políticas de tratamento e educação, além de regulação mais dura. A possibilidade de extinção da modalidade, ainda que remota, ganhou espaço no debate à medida que os custos sociais e econômicos se tornaram evidentes.
O risco é que a busca por arrecadação a qualquer custo esteja criando um passivo estrutural. O varejo perde, as famílias se endividam, os bancos se retraem e a produtividade cai. A soma desses efeitos pode resultar em um estrangulamento lento, mas persistente, da capacidade de crescimento da economia brasileira.
Assista à entrevista completa da BM&C News neste link: https://www.youtube.com/watch?v=wUtbp0EwYWU
