O acordo comercial entre Mercosul e União Europeia começa a ganhar espaço no radar do mercado financeiro como um vetor estrutural de transformação para a economia brasileira. Ainda que seus efeitos sejam graduais, a iniciativa é vista como um sinal institucional relevante, capaz de ampliar a previsibilidade regulatória, fortalecer o investimento produtivo e impulsionar o mercado de crédito privado no país.
Na avaliação de Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, o impacto do acordo tende a ser incorporado progressivamente aos preços dos ativos brasileiros. Segundo ele, a maior integração comercial contribui para reduzir incertezas externas, melhorar a percepção de risco e favorecer, ao longo do tempo, a compressão dos prêmios exigidos tanto em renda variável quanto em crédito privado.
“Empresas mais organizadas, com exposição internacional e capacidade de adaptação, passam a ter maior visibilidade de receita e caixa, o que melhora a análise de risco de estruturas de recebíveis e financiamentos corporativos. Embora o impacto não seja imediato, o acordo cria um ambiente mais favorável ao investimento produtivo, à modernização das empresas e ao fortalecimento do mercado de crédito no Brasil”, afirma Lima.
Inovação, venture capital e crédito caminham juntos
Para o ecossistema de inovação, o acordo Mercosul–União Europeia reforça uma agenda de longo prazo mais favorável ao empreendedorismo e à internacionalização das empresas brasileiras. Antonio Patrus, diretor da Bossa Invest, destaca que startups e scale-ups passam a operar em um ambiente com maior previsibilidade institucional e potencial de acesso a mercados mais amplos.
Segundo Patrus, esse cenário fortalece a tese de crescimento das empresas e amplia a atratividade para investidores, ao mesmo tempo em que cria espaço para o crédito privado complementar o venture capital. “O crédito passa a financiar fases de expansão, adaptação regulatória e ganho de escala, contribuindo para um ecossistema mais robusto, no qual capital, inovação e mercado caminham juntos”, avalia.
Crédito privado ganha protagonismo na adaptação das empresas
Na visão de Pedro Ros, CEO da Referência Capital, a ampliação da previsibilidade e da integração econômica com um dos blocos mais relevantes do mundo cria um ambiente mais favorável para decisões de investimento de médio e longo prazo. Nesse contexto, o crédito privado se consolida como uma ferramenta estratégica para financiar modernização, eficiência operacional e elevação dos padrões de governança.
“Ao melhorar a visibilidade de receitas e contratos, o acordo contribui para uma leitura mais construtiva de risco nas estruturas de recebíveis da economia real, fortalecendo o papel do mercado de capitais como complemento ao crédito tradicional”, afirma Ros.
Pressão competitiva e crédito estressado como ponte
Por outro lado, o aumento da concorrência internacional também traz desafios. Para André Matos, CEO da MA7 Negócio, empresas que já operam com margens apertadas podem enfrentar maior pressão em um cenário de abertura comercial, especialmente diante de um crédito bancário ainda caro e restrito.
“Muitas companhias economicamente viáveis não quebram por falta de mercado, mas por falta de fôlego financeiro para atravessar períodos de transição. Nesse contexto, a recuperação judicial e outras soluções de reorganização de passivos passam a funcionar como ferramentas estratégicas para preservação de caixa e ajuste ao novo ambiente competitivo”, explica.
Investidor de longo prazo e fortalecimento do mercado de capitais
Para o investidor de longo prazo, o acordo representa um sinal positivo para a alocação em ativos brasileiros. Fábio Murad, economista e CEO da Super-ETF Educação, destaca que a integração comercial tende a favorecer empresas com capacidade de competir globalmente, refletindo-se tanto em ações quanto em instrumentos de crédito privado.
Segundo Murad, o movimento reforça a importância da diversificação, da previsibilidade e da educação financeira, além de consolidar o mercado de capitais como canal essencial de financiamento da economia real.
FIDCs e estruturas de recebíveis ganham qualidade
Na ótica dos FIDCs, o acordo Mercosul–União Europeia tende a ampliar a previsibilidade comercial e regulatória, fator central na análise de risco. Para Gustavo Assis, CEO da Asset Bank, empresas que precisarem se adequar a padrões internacionais devem demandar capital para investir em processos, tecnologia e expansão, e o crédito privado está bem posicionado para atender essa necessidade.
“Com maior clareza sobre fluxos de caixa, contratos e mercados de destino, as estruturas de recebíveis da economia real tendem a ganhar qualidade, permitindo melhor precificação, alongamento de prazos e maior conforto para investidores”, avalia.
Eliminação de tarifas e novos desafios de risco
O acordo prevê a eliminação gradual de tarifas sobre a maior parte dos bens e serviços, com isenção imediata para diversos produtos industriais e agrícolas. Para Volnei Eyng, CEO da Multiplike, esse movimento deve aumentar a competitividade e a integração do Brasil às cadeias globais de valor.
No entanto, Eyng ressalta que o aumento das exportações e a diversificação de receitas também trazem riscos cambiais e setoriais, exigindo uma recalibração na análise de risco dos FIDCs e das estruturas de recebíveis.
Implementação gradual, impacto estrutural
Na avaliação de João Kepler, CEO da Equity Group, embora os efeitos do acordo sejam condicionados à sua implementação prática, a redução das incertezas de longo prazo tende a melhorar a leitura de risco para investidores e abrir espaço para capital voltado à modernização das empresas brasileiras.
“O crédito privado ganha espaço como instrumento essencial de financiamento, especialmente para companhias que buscam crescer, inovar e se integrar ao mercado internacional, incluindo startups e empresas de médio porte”, conclui.












