Perder quatro dedos da mão no século 15 era, na maior parte dos casos, o fim da vida produtiva de qualquer trabalhador. Em Freising, na Baviera, um homem que viveu entre 1450 e 1620 encontrou uma saída: uma prótese de ferro medieval encaixada no coto da mão esquerda, descoberta séculos depois durante obras de instalação de tubulações perto da Igreja Paroquial de São Jorge.
Como a prótese de ferro foi encontrada durante as obras em Freising?
O achado não veio de uma escavação arqueológica planejada. Trabalhadores que instalavam tubulações nas proximidades da Igreja Paroquial de São Jorge depararam com os restos mortais durante a execução da obra, num contexto urbano que raramente oferece condições ideais para preservação simultânea de materiais orgânicos e metálicos.
A descoberta foi anunciada oficialmente em 27 de outubro de 2023 pelo Escritório Estatal da Baviera para a Preservação de Monumentos (BLfD). A datação por radiocarbono confirmou que o homem tinha entre 30 e 50 anos na época da morte, e marcas nos ossos indicam que ele viveu por algum tempo adaptado à prótese de ferro.

Como era construída a mão artificial medieval encontrada em Freising?
Segundo o comunicado oficial do BLfD, a peça substituía os dedos indicador, médio, anelar e mínimo da mão esquerda. O Dr. Walter Irlinger, chefe de departamento do BLfD, descreve os dedos como formados individualmente em chapa metálica, imóveis e dispostos paralelamente, levemente curvados para imitar a posição natural de repouso da mão. Entre os elementos identificados na estrutura estão:
- Estrutura oca feita de ferro e metais não ferrosos, moldada dedo a dedo em chapa metálica
- Resíduos de têxtil no interior, usados como acolchoamento entre o metal e a pele do coto
- Sistema de fixação provavelmente composto por tiras de couro presas ao que restava da mão
- Polegar preservado com o osso ainda preso internamente à estrutura metálica, único dedo natural restante

O que torna a prótese de ferro de Freising um achado raro na Europa?
Em toda a Europa Central do final da Idade Média e início da Idade Moderna, são conhecidas apenas cerca de 50 próteses desse tipo. A combinação de elementos preservados no exemplar de Freising é ainda mais incomum, pois estrutura metálica, acolchoamento têxtil interno e posição do polegar raramente sobrevivem juntos ao longo de séculos.
Para entender a dimensão do achado, o canal Science ForEveryone, com mais de 1,42 mil inscritos, produziu um vídeo detalhado sobre a descoberta em Freising, explicando a anatomia da prótese e o contexto histórico da medicina medieval:
Qual a diferença entre a prótese de Freising e a Mão de Ferro de Götz von Berlichingen?
A prótese mais famosa do período é a Mão de Ferro do cavaleiro Götz von Berlichingen, que perdeu a mão direita em 1504 durante o Cerco de Landshut. Ao contrário da prótese de ferro encontrada em Freising, a de Götz von Berlichingen possuía dedos totalmente articulados e móveis individualmente, sendo considerada um prodígio da engenharia mecânica medieval.
A comparação entre as duas peças revela o espectro da prótese medieval: de um lado, dispositivos funcionais acessíveis a homens comuns; de outro, encomendas de alta complexidade mecânica reservadas à nobreza com recursos para financiá-las.
Por que Freising concentrava casos de amputação entre os séculos 15 e 17?
O BLfD ressalta que Freising foi palco de ofensivas militares em diversas ocasiões, entre elas a Guerra dos Trinta Anos (1618–1648), o que provavelmente levou a um aumento das amputações e da demanda por próteses na região. A cidade, por sua posição geográfica na Baviera, esteve exposta a conflitos recorrentes durante todo o período coberto pela datação do esqueleto.
O contexto militar explica tanto a amputação quanto a existência da prótese de ferro. Homens que perdiam membros em combate precisavam de soluções funcionais para continuar trabalhando, e artesãos especializados em metal já dominavam as técnicas necessárias para fabricar peças como a encontrada em Freising.

O que o achado revela sobre medicina e adaptação humana na Idade Média
A presença do acolchoamento têxtil no interior da peça indica um cuidado com a interface entre metal e tecido humano que vai além do puramente funcional. Quem fabricou a prótese tinha conhecimento prático de como o coto reagia ao contato prolongado com metal rígido, e adotou uma solução que reduzia atrito e pressão sobre a pele.
Para um homem comum do século 15, sobreviver a uma amputação de quatro dedos, adaptar-se a uma prótese e continuar vivendo por anos após o procedimento representa uma combinação de resistência física e acesso a recursos artesanais que a arqueologia raramente documenta com tanta precisão. O esqueleto de Freising é um desses casos excepcionais.

