Um robô submarino chegou onde nenhum humano jamais chegou e filmou o que ninguém queria ver: rachaduras gigantes na base da Geleira Thwaites, na Antártida, onde a água quente do oceano destrói o gelo de dentro para fora, de forma muito mais complexa e acelerada do que os modelos científicos previam.
Por que a Geleira Thwaites é chamada de “Geleira do Juízo Final”?
A Geleira Thwaites é o maior ponto de instabilidade da calota glacial da Antártida Ocidental. Com área equivalente à do estado do Paraná, cerca de 192.000 km², ela já é responsável por aproximadamente 4% da elevação do nível do mar em todo o mundo.
Se colapsar completamente, os modelos atuais projetam uma elevação do nível do mar de 65 cm a 1 metro, o suficiente para inundar permanentemente cidades costeiras em todos os continentes. Desde 1992, a linha de flutuação da geleira recuou 14 km. Em algumas regiões, a taxa de recuo chega a 1,2 km por ano.

Como o robô Icefin chegou até a base da geleira?
O Icefin é um veículo submarino autônomo desenvolvido pela pesquisadora Britney Schmidt e sua equipe, primeiro no Georgia Institute of Technology e depois na Universidade Cornell. Com formato de torpedo, tem menos de 25 cm de diâmetro e mais de 3,6 metros de comprimento, equipado com câmeras, sonares e sensores de temperatura, salinidade e corrente.
A Colaboração Internacional Thwaites Glacier (ITGC), parceria entre a NSF americana e o NERC britânico, usou uma sonda de água quente para perfurar um furo de 600 metros de profundidade através do gelo. O Icefin foi descido por esse furo e navegou pelo oceano subglacial a cerca de 1 km da linha de flutuação da geleira.

O que as imagens do robô revelaram sobre o derretimento da geleira?
O canal Science News, com mais de 51,8 mil inscritos, publicou imagens capturadas pelo Icefin mostrando a superfície inferior da Geleira Thwaites e a diferença visual entre áreas de derretimento lento e rápido:
Os resultados, publicados em fevereiro de 2023 na revista Nature pela equipe da Cornell, surpreenderam a comunidade científica em dois sentidos opostos:
- Nas áreas planas e horizontais sob a geleira, a taxa de derretimento vertical foi de 1,8 a 5,5 metros por ano, menor do que a maioria dos modelos previa
- Nas fendas profundas e terraços escalonados, o derretimento era significativamente mais intenso, pois a geometria irregular canaliza o calor e o sal da água oceânica para dentro do gelo
- A base da geleira não é uma superfície plana como os modelos assumiam: é uma geomorfologia complexa com paredes quase verticais onde o contato com a água quente é máximo
“O Icefin está mostrando que esse sistema é muito complexo e exige uma revisão de como o oceano está derretendo o gelo”, disse o pesquisador Peter Washam, da Cornell.
A descoberta de 2024 que tornou o cenário ainda mais preocupante
Um segundo estudo publicado na PNAS em maio de 2024 identificou intrusões de água do mar de vários quilômetros penetrando sob o gelo ainda ancorado da Thwaites, sincronizadas com as marés.
Isso revelou que a fronteira entre gelo ancorado e gelo flutuante não é uma linha fixa: é uma zona dinâmica e porosa, onde a água salgada e quente invade e recua com cada maré, ampliando lentamente a erosão da base da geleira.
O que é a “rolha de champanhe” e por que ela é o ponto crítico da Thwaites?
Os cientistas descrevem a linha de flutuação da Thwaites como uma “rolha de champanhe”: o ponto de ancoragem que retém o peso de toda a geleira acima. À medida que a água quente corrói essa região, a área de apoio diminui e o risco de colapso acelerado aumenta.
“A linha de flutuação está sendo submetida a um estresse que essencialmente pode fazer o gelo todo escorregar de uma vez para o oceano”, afirmou o glaciologista Peter Davis, do British Antarctic Survey. Se isso ocorrer, o processo seria irreversível na escala de tempo humana: a elevação do nível do mar resultante levaria séculos para se estabilizar.

Existe algum plano para salvar a Geleira Thwaites?
A incerteza sobre o futuro da Thwaites motivou pesquisadores a propor um projeto bilionário de geoengenharia: instalar barreiras submarinas para bloquear as correntes quentes que alimentam o derretimento. Se executado, seria o maior projeto de geoengenharia da história da humanidade.
A tabela abaixo resume os principais dados e descobertas sobre a Geleira Thwaites:
| Dado | Valor |
|---|---|
| Área total da geleira | ~192.000 km² (equivalente ao Paraná) |
| Contribuição atual ao nível do mar | ~4% da elevação global |
| Elevação projetada em caso de colapso | 65 cm a 1 metro |
| Recuo da linha de flutuação desde 1992 | 14 km (até 1,2 km/ano em algumas regiões) |
| Profundidade do furo perfurado pelo ITGC | 600 metros |
O que o Icefin encontrou muda tudo o que sabíamos sobre o degelo antártico
O Icefin não apenas filmou a base de uma geleira: documentou que os modelos usados para prever o colapso da Thwaites estavam incompletos. A superfície irregular, as fendas e os terraços escalonados criam padrões de derretimento que nenhum modelo havia considerado.
Isso não significa que o cenário é menos grave. Significa que é mais complexo do que se imaginava, e que as projeções precisam ser revisadas para cima em algumas regiões e para baixo em outras. O que permanece certo é que a Geleira Thwaites continua sendo o maior termômetro da estabilidade climática do planeta.

