Quem atravessa a rua principal do Chuí muda de país sem tirar os pés do asfalto. A cidade gaúcha e sua irmã uruguaia Chuy compartilham a mesma avenida, sem muro, cancela ou placa de imigração no meio do caminho.
O canteiro que é também uma fronteira internacional
A divisa entre o Brasil e o Uruguai segue por 1.069 km, do extremo oeste gaúcho até a foz do Arroio Chuí, no Atlântico. O trecho urbano do Chuí é o único pedaço dessa linha em que nenhuma ponte, rio ou posto de controle se coloca entre os dois países: basta atravessar o canteiro central da Avenida Internacional, segundo o verbete sobre a Fronteira Brasil–Uruguai.
No lado brasileiro, a via se chama Avenida Uruguai. No uruguaio, Avenida Brasil. Cada país batizou sua faixa com o nome do vizinho, o que virou um achado para quem tira a foto clássica com um pé em cada território.

A menor cidade gaúcha que é porta do Mercosul
O Chuí foi emancipado de Santa Vitória do Palmar em 1997 e é hoje o município brasileiro mais distante da linha do Equador. Tem 6.262 habitantes segundo o Censo 2022, informação confirmada pela Prefeitura Municipal do Chuí e pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Apesar do tamanho, a cidade funciona como uma das principais portas de entrada terrestres para o Mercosul. Quem segue de carro do sul gaúcho para Montevidéu ou Punta del Este passa quase obrigatoriamente pelo asfalto do Chuí.
Como funciona o comércio nos free shops do lado uruguaio?
Os free shops ficam concentrados no lado de lá da avenida, em um corredor que atravessa o centro de Chuy. As lojas vendem perfumes, bebidas, eletrônicos, chocolates e roupas importadas com preços competitivos, aproveitando o regime aduaneiro especial da fronteira.
A cota de compras permitida para brasileiros é de 500 dólares por pessoa a cada 30 dias, e os pagamentos podem ser feitos em real, peso uruguaio ou dólar na mesma loja. Do outro lado da rua, o movimento é inverso: uruguaios cruzam a avenida em busca de alimentos, itens de higiene e roupas mais baratas nos supermercados brasileiros.
Quem deseja explorar o extremo sul do Brasil, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Livres, Leves & Soltos, que conta com mais de 14 mil visualizações, onde Adriana e Jean Strauch mostram as curiosidades e compras no Chuí, na fronteira com o Uruguai:
A cidade mais secular do Brasil e o sotaque palestino
Um dado surpreende até quem mora perto: o Chuí foi o município com maior proporção de pessoas sem religião do país no Censo 2010, com 54,2% dos moradores declarando não ter filiação religiosa. A análise do demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos (IHU), liga o fenômeno à influência direta do Uruguai, o país mais secular da América Latina.
O perfil religioso também reflete a presença de uma comunidade de descendentes de palestinos que se instalou na faixa de fronteira gaúcha ao longo do século XX, com registros de assentamento nas regiões de Santana do Livramento, Bagé e Chuí. O resultado é um cotidiano em que português, espanhol, portunhol e árabe dividem a mesma calçada.
Quem tem curiosidade sobre a vida na fronteira, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Mundo Sem Fim, que conta com mais de 590 mil visualizações, onde Renan e Michele mostram como é cruzar a divisa entre Chuí e Chuy e as famosas lojas de Free Shop:
Conheça a fronteira que une em vez de separar
O Chuí é um pedaço do Rio Grande do Sul onde dois países coexistem na mesma rua, no mesmo caixa de supermercado e no mesmo time de futebol de rua. A divisa aqui não interrompe nada: organiza o cotidiano de quem escolheu viver entre duas bandeiras.
Você precisa ir até o extremo sul e caminhar pela Avenida Internacional para entender por que, no Chuí, atravessar a rua é a viagem mais curta para outro país.

