Peça central do gigantesco projeto NEOM, no noroeste da Arábia Saudita, The Line foi apresentada como uma cidade em linha reta com 500 metros de altura, 200 metros de largura e 170 quilômetros de comprimento, onde não entrariam carros e caberiam 9 milhões de pessoas. Em 2025, as obras foram paralisadas.
A ideia de um príncipe que quer mudar o que se entende por cidade
O plano de The Line foi mostrado ao mundo no dia 10 de janeiro de 2021 pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, numa transmissão ao vivo pela TV estatal saudita. A proposta era ousada: duas paredes enormes de vidro espelhado correriam por 170 quilômetros pelo meio do deserto, indo do Mar Vermelho até a região de Tabuk, criando uma cidade empilhada onde tudo o que fosse essencial estaria a, no máximo, cinco minutos a pé. Nada de ruas, nada de carros, nada de fumaça. Para ir de uma ponta à outra, um trem de alta velocidade faria o trajeto todo em 20 minutos.
O projeto é parte do NEOM, um empreendimento colossal orçado em 500 bilhões de dólares que ocupa um pedaço do noroeste saudita e que ainda prevê uma estação de esqui no meio da areia (Trojena), uma cidade portuária que boiaria na água (Oxagon) e uma ilha de alto luxo (Sindalah). O NEOM, por sua vez, está dentro do Vision 2030, o plano do reino para variar as fontes de dinheiro e parar de depender tanto do petróleo. O nome NEOM mistura o grego neo (que quer dizer novo) com a palavra árabe mostaqbal (que significa futuro).

Morar em três andares: como seria a cidade empilhada
O desenho de The Line mexe com tudo o que a gente conhece sobre como fazer uma cidade. Ela seria arrumada em camadas, uma por cima da outra, dentro das duas paredes de vidro, com um vão aberto no meio que funcionaria como um vale artificial cheio de plantas, praças e luz do sol. Na parte de baixo ficariam o transporte de carga, a parte pesada da cidade e o trem veloz. Nos andares do meio, as casas, os escritórios, as escolas e os hospitais. Lá em cima, áreas de descanso e espaços ao ar livre, incluindo um estádio suspenso a 350 metros do chão que foi pensado para receber partidas da Copa do Mundo FIFA de 2034.
Se saísse do papel exatamente como no plano original, The Line teria uma concentração de 260 mil pessoas por quilômetro quadrado, quase seis vezes mais do que Manila, que era a cidade mais apertada do mundo em 2020, com 44 mil habitantes por quilômetro quadrado. A parte de fora, toda espelhada, iria refletir o deserto e o mar ao redor, fazendo a construção quase sumir na paisagem quando vista de longe — pelo menos era o que mostravam as imagens de propaganda. A área que tocaria o chão seria de só 34 quilômetros quadrados para abrigar 9 milhões de almas, o que, segundo os criadores do projeto, deixaria 95% da área natural do NEOM intocada.
Toda a energia viria de fontes que não poluem, como placas de captação de sol e torres de vento, alimentando um sistema de inteligência artificial que cuidaria do transporte, da segurança, da saúde e de toda a parte pesada da cidade, em tempo real. Gente que estuda os direitos no mundo digital, como Vincent Mosco, já avisou que a quantidade absurda de informações coletadas poderia fazer de The Line uma verdadeira “cidade vigiada”, ainda mais conhecendo o jeito como os direitos humanos são tratados na Arábia Saudita.
Quem se interessa por megaconstruções futuristas, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Investiga, Pinhel!, que conta com mais de 273 mil visualizações, onde o apresentador mostra os detalhes e polêmicas do ambicioso projeto The Line, na Arábia Saudita:
O que de verdade já foi erguido até agora
Os trabalhos de acertar o terreno começaram em outubro de 2021. Até o final de 2024, fotos tiradas por satélite mostravam buracos enormes, alojamentos para os trabalhadores e a parte de apoio ao longo de um pedaço do caminho. Em abril de 2025, o diretor que cuidava das obras de The Line, Giles Pendleton, publicou imagens que mostravam bases de concreto, muros de arrimo e canos sendo postos em valas abertas. O plano falava em usar 4,8 milhões de toneladas de vigas de aço só nos miolos da estrutura.
Só que, na vida real, o andamento da obra ficou muito atrás do que estava prometido. A primeira fase, que teria 20 blocos de moradias ao longo de 16 quilômetros, foi diminuindo: caiu para 12, depois para 7, depois para 4 e, lá pelo fim de 2023, para míseros 3 blocos. Com esse encolhimento, milhares de estacas que já tinham sido fincadas no deserto ficaram lá, sem serventia. Um chefe de obras experiente, que conversou com o Financial Times, disse que aquilo tudo era fruto de “tentar correr antes mesmo de aprender a andar”. Até o apagar das luzes de 2025, só 2,4 quilômetros de estrutura básica estavam prontos, e não tinha ninguém morando lá.

Quando o dinheiro do petróleo dá de cara com a lei da gravidade
O valor que se pensava gastar com The Line no começo era de 1,6 trilhão de dólares. Um cálculo feito por dentro em 2022 já jogava esse custo para 4,5 trilhões. Em 2025, uma nova projeção chegava à casa dos 8,8 trilhões de dólares. Para se ter uma noção, tudo o que a Arábia Saudita produz de riqueza num ano gira em torno de 1 trilhão. A obra é paga pelo Fundo de Investimento Público (PIF), que é o cofre cheio de dinheiro do governo saudita com quase 1 trilhão de dólares guardado. Em agosto de 2025, esse fundo registrou um prejuízo de 8 bilhões de dólares só por causa de dinheiro que já tinha ido para o NEOM.
A queda nos preços do barril de petróleo só piorou a situação. Os economistas da Bloomberg calculam que a Arábia Saudita precisa vender o barril a 96 dólares para as contas do governo fecharem no azul, e a 113 dólares para conseguir pagar todos os projetos do príncipe. Em dezembro de 2025, o barril saudita valia 55,60 dólares. O dinheiro de investidores de outros países, que o reino tanto esperava, não apareceu no tamanho que precisava. Em julho de 2025, o NEOM começou a demitir gente e a mandar mais de mil funcionários para a capital, Riad. Em setembro de 2025, o PIF mandou parar as obras até segunda ordem.
Uma auditoria interna revelada pelo Wall Street Journal em 2025 encontrou problemas extensos no gerenciamento do projeto, incluindo evidências de “manipulação deliberada” de dados por parte de gestores. Um oficial saudita admitiu ao Sunday Times que o reino “gastou demais” e “correu a 160 km/h” sem planejamento adequado.

O custo em vidas humanas que as imagens bonitas não mostram
Para construir The Line, foi preciso tirar à força comunidades inteiras da tribo Huwaitat, que morava na região de Tabuk há muitas gerações. Em abril de 2020, Abdul Rahim al-Huwaiti foi morto a tiros pela polícia dentro da própria casa, no vilarejo de Al-Khariba, depois de ter colocado vídeos nas redes sociais falando contra a desapropriação das terras. Em outubro de 2022, três pessoas da mesma tribo — Shadli, Ibrahim e Ataullah al-Huwaiti — foram sentenciadas à morte por não aceitarem sair de onde moravam. Shadli era irmão de Abdul Rahim.
Além da violência contra quem já vivia lá, o projeto fez acender um alerta sobre o meio ambiente. Quem é contra a obra avisa que uma barreira de 170 quilômetros cortando o deserto seria um muro impossível de atravessar para os pássaros e os bichos que migram, quebrando os ecossistemas de uma região onde a vida já é muito castigada pela secura. O próprio NEOM já admitiu que os desafios são grandes e disse que está buscando jeitos de fazer passagens para os animais, mas até agora não mostrou nenhum plano técnico de como isso funcionaria.
Laboratório do amanhã ou um monumento à vontade de poder sem freio?
Neste fevereiro de 2026, ninguém sabe ao certo qual será a sorte de The Line. Uma reavaliação completa da estratégia, feita por empresas de consultoria de fora a pedido do PIF, deve terminar lá pelo final de março, e a expectativa é que o projeto mude bastante de tamanho e de cara. Os relatórios dão conta de que o foco agora é terminar um trecho de 2,4 quilômetros que teria o tal estádio para a Copa de 2034, com capacidade para menos de 300 mil pessoas morando ali até o fim desta década — uma micharia perto dos 9 milhões do plano inicial. A entrega completa dos 170 quilômetros foi empurrada para 2045, e análises feitas por quem é de fora sugerem que um prazo mais realista jogaria a conclusão lá para as décadas de 2070 ou 2080.

