No meio do deserto mais árido do planeta, uma mancha verde rompe a monotonia da areia. Huacachina é uma vila erguida ao redor de uma lagoa esmeralda alimentada por aquíferos subterrâneos, a apenas 5 km da cidade de Ica, no sudoeste do Peru. A NASA classificou o lugar como o único oásis natural de todo o continente sul-americano.
Como uma lagoa nasceu no deserto mais seco do mundo
A lagoa de Huacachina se formou pela infiltração de água de aquíferos subterrâneos que atravessam a areia do deserto de Atacama. Segundo o NASA Earth Observatory, essa água promoveu o crescimento de palmeiras, eucaliptos e algarrobos ao redor de uma depressão natural. O resultado é uma lagoa de aproximadamente 2 acres cercada por dunas que alcançam até 500 metros de altura, as maiores da América do Sul.
O nome vem do quéchua wakachina, que pode significar “guardar” ou “ocultar”. Uma versão estendida, wakachina qucha, traduz-se como “lagoa escondida”. A etimologia reflete bem a surpresa de quem chega: o oásis permanece invisível até o último instante, quando as dunas se abrem e revelam a água verde entre as palmeiras.

A princesa que virou sereia e deu nome ao oásis
A lenda mais conhecida de Huacachina conta que uma princesa inca chorava a morte de seu guerreiro. Suas lágrimas teriam formado a lagoa. Outra versão diz que a princesa se banhava quando percebeu um caçador se aproximando. Assustada, fugiu pelo deserto. As dobras de seu manto se transformaram nas dunas, e o espelho que deixou para trás virou a lagoa.
Moradores dizem que, nas noites de lua cheia, a princesa emerge das águas como sereia. Uma estátua da personagem marca a margem da lagoa até hoje. O mito fez do oásis peruano um lugar onde geologia e imaginário popular se confundem sem esforço.

De refúgio da elite a atração na nota de 50 soles
No início do século XX, a elite peruana transformou o oásis em balneário de saúde. Acreditava-se que as águas e a lama tinham propriedades terapêuticas contra artrite, reumatismo e bronquite. Hotéis em estilo colonial espanhol, calçadões e até um spa surgiram ao redor da lagoa nos anos 1940.
O prestígio era tamanho que o Banco Central de Reserva del Perú (BCRP) estampou Huacachina no verso da nota de 50 nuevos soles em 1991. A imagem permaneceu na cédula até a série de 2009, quando foi substituída pelo Templo Nuevo de Chavín de Huantar. Poucos lugares no mundo conquistaram o privilégio de aparecer no dinheiro nacional por quase duas décadas.
Quem sonha em conhecer o único oásis da América do Sul, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Viaja Brito, que conta com mais de 20 mil visualizações, onde Davi mostra como visitar Huacachina em um dia, incluindo passeios de bugue e sandboard no Deserto de Ica:
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O oásis que quase desapareceu e agora luta para sobreviver
A partir dos anos 1980, a perfuração de poços na região de Ica começou a drenar os aquíferos que alimentavam a lagoa. O nível da água caiu de forma acentuada, e o oásis correu risco real de secar por completo. Em 2015, empresários locais passaram a bombear água de fazendas vizinhas para manter a lagoa visível, uma medida artificial que preserva o cenário turístico.
Em 2014, o Ministério do Ambiente do Peru (MINAM) classificou o entorno como Área de Conservação Regional, protegendo 2.407 hectares de dunas e ecossistema desértico subtropical. O decreto reconheceu a presença de espécies endêmicas, como a lagartija de los arenales, e de aves migratórias que usam o oásis como refúgio. Em 2016, o cientista peruano-japonês Marino Morikawa, criador de um sistema de nanobolhas que recuperou o lago El Cascajo, foi convidado a liderar um projeto de restauração da lagoa.

Uma vila de 100 pessoas que recebe milhares por ano
Huacachina abriga cerca de 100 moradores permanentes. A vila inteira se percorre a pé em menos de 15 minutos. Hotéis, restaurantes e agências de turismo se espremem entre a lagoa e a base das dunas, formando um anel compacto de serviços. Dezenas de milhares de visitantes passam pelo oásis todos os anos, atraídos pelo sandboard nas dunas gigantes e pelos passeios de buggy conhecidos localmente como areneros.
A região de Ica também é o berço do pisco, a aguardente de uva considerada bebida nacional do Peru. Vinícolas como a Tacama, fundada no século XVI, ficam a poucos minutos do oásis e oferecem degustações. O contraste entre areia escaldante e taças geladas de pisco sour resume bem a experiência de quem visita a “lagoa escondida” do deserto peruano.
Um espelho verde que resiste ao deserto
Huacachina existe como um improvável ponto de equilíbrio entre natureza e intervenção humana. A lagoa nasceu de aquíferos, ganhou lendas, virou balneário, quase secou e agora sobrevive com ajuda artificial e proteção ambiental. Tudo isso em um trecho de areia onde chovem menos de 25 milímetros por ano.
Se você busca um lugar onde o deserto guarda segredos líquidos, vale cruzar o Peru até Ica e descer as dunas até encontrar esse espelho verde que insiste em não desaparecer.

