Na periferia de Almere, na Holanda, o bairro experimental de Oosterwold desafia o urbanismo tradicional com uma regra simples e inusitada: todo morador deve dedicar pelo menos metade do seu terreno à agricultura urbana. O que começou como uma utopia verde em 2016 transformou-se numa comunidade de 6.000 pessoas que tentam equilibrar a vida moderna com a produção de alimentos.
Como funciona a liberdade de construção com responsabilidades
Diferente do resto do país, conhecido pelo planejamento rígido, em Oosterwold os moradores têm liberdade quase total para desenhar as suas próprias casas e escolher a arquitetura. Em troca dessa autonomia, eles assumem a responsabilidade de construir e manter a infraestrutura básica, como ruas e saneamento, além de cumprirem a cota agrícola nos seus lotes.
Essa dinâmica cria um ambiente de “seleção natural”, onde apenas aqueles dispostos a trabalhar arduamente na terra e na gestão comunitária prosperam. A ausência de um planejamento centralizado obriga os vizinhos a negociarem diretamente entre si para resolver problemas coletivos, desde a drenagem da água até a construção de escolas.
O papel do VOKO na economia local
Para escoar o excedente da produção caseira, os moradores criaram o VOKO Oosterwold, um coletivo de consumidores onde frutas e vegetais cultivados nos quintais são vendidos e comprados localmente. O sistema opera com base na confiança mútua, garantindo que todos os produtos sejam livres de pesticidas e sigam padrões orgânicos.
A logística é imbatível em frescura: os vegetais colhidos na manhã de quarta-feira já estão disponíveis para distribuição na mesma tarde. Abaixo, destacamos os desafios e as conquistas deste modelo agrícola amador:
- A meta original de suprir 10% da procura alimentar da cidade vizinha ainda não foi alcançada devido à inexperiência agrícola da maioria.
- Muitos residentes vêm de contextos puramente urbanos e descobrem na prática a dureza do trabalho no campo.
- Apesar das dificuldades, o projeto é considerado um sucesso por promover a autossuficiência e a colaboração comunitária.
- A especulação imobiliária recente elevou os preços, mas ainda existem áreas verdes disponíveis para novos “agricultores urbanos”.
Por que viver em Oosterwold não é para todos
A vida neste bairro exige perseverança. O sonho de uma casa sustentável com balanço energético neutro vem acompanhado da obrigação de cavar a terra e participar ativamente na construção da sociedade local. Não é um paraíso livre de problemas, mas um laboratório vivo que propõe uma alternativa radical ao estilo de vida passivo das grandes cidades.
Para entender melhor este fato, o canal DW Brasil produziu um conteúdo onde a reportagem detalha os pontos principais desta experiência. O vídeo mostra como a arquitetura variada se mistura com as hortas e entrevista moradores que trocaram o conforto urbano pela enxada.
Conhecer Oosterwold é questionar o papel do cidadão na produção do seu próprio sustento e na gestão do espaço onde vive. O entendimento sobre este experimento holandês oferece lições valiosas sobre sustentabilidade, governança local e os limites do planejamento urbano participativo.



