Em Longyearbyen, o assentamento habitado mais ao norte do planeta, o sol não nasce durante cerca de 4 meses no inverno e uma determinação de 1950 proíbe enterros dentro dos limites da cidade. O motivo não é simbólico: o solo permanentemente congelado conserva corpos e vírus por décadas, tornando o sepultamento um risco sanitário real. A cidade fica no arquipélago de Svalbard, na Noruega, a mais de 2.000 km do continente europeu.
Por que o permafrost transformou a morte em problema de saúde pública
O solo de Longyearbyen permanece congelado o ano inteiro. Essa camada de gelo permanente, chamada permafrost, impede que se façam buracos profundos para sepultamento e faz com que os corpos enterrados não se decomponham. Em 1998, cientistas exumaram cadáveres de vítimas da gripe espanhola de 1918 e recuperaram amostras vivas do vírus, mais de 80 anos após o enterro.
A descoberta confirmou o risco: com o aquecimento global derretendo gradualmente o permafrost, vírus e bactérias preservados por décadas poderiam ser liberados no ambiente. Desde 1950, as autoridades norueguesas determinaram que ninguém pode ser enterrado em Longyearbyen. O único cemitério da cidade foi fechado para novos sepultamentos. Quem está em estado grave ou em fase terminal é transferido para o continente norueguês, a mais de 2.000 km de distância.

Nascer também é algo que essa cidade tenta evitar
A restrição não se limita à morte. Gestantes são incentivadas a deixar Longyearbyen e se mudar para o continente pelo menos um mês antes da data prevista para o parto. A cidade não tem maternidade nem estrutura hospitalar completa para emergências obstétricas. Quem morre antes de conseguir ser transferido pode ser cremado, mas o processo exige uma licença estadual específica.
Outras regras reforçam a singularidade do lugar. Desde 2012, é obrigatório portar arma de fogo ao sair dos limites urbanos, por causa dos cerca de 3.000 ursos polares que habitam o arquipélago de Svalbard, número que supera a população humana local. Gatos domésticos são proibidos para proteger a fauna nativa.
O que acontece quando o sol desaparece por 4 meses
De novembro a fevereiro, Longyearbyen mergulha na noite polar: o sol não ultrapassa o horizonte e a escuridão é total por semanas consecutivas. As temperaturas podem chegar a -46 °C. No extremo oposto, entre abril e agosto, o sol da meia-noite banha a cidade com luz ininterrupta durante 24 horas por dia. A média anual de temperatura gira em torno de -6 °C.
O inverno escuro, no entanto, traz uma compensação: a aurora boreal. O fenômeno luminoso é visível praticamente toda noite entre novembro e fevereiro, transformando o céu polar em espetáculo. A comunidade de cerca de 2.100 habitantes, vindos de mais de 50 nacionalidades, se organiza em torno de festas de luz e atividades coletivas para enfrentar os meses sem sol.
O que existe nesse assentamento além de gelo e escuridão
Longyearbyen foi fundada em 1906 pelo americano John Munroe Longyear como assentamento de mineração de carvão. A cidade se reinventou ao longo das décadas e hoje concentra pesquisa científica, turismo e o que pode ser chamado de maior seguro de vida do planeta:
- Svalbard Global Seed Vault: inaugurado em 2008, o “Cofre do Juízo Final” armazena cópias de sementes de todo o mundo a -18 °C dentro de uma montanha de rocha sólida. É a reserva de biodiversidade mais segura da humanidade, conforme o site oficial do Seed Vault e o Governo da Noruega.
- Museu de Svalbard: conta a história da mineração, da exploração polar e da fauna ártica da região.
- Passeios de barco pelos fiordes: possibilidade de avistar ursos polares, baleias e geleiras a partir da água.
- Cavernas de gelo e glaciares: expedições guiadas para o interior das formações glaciais do arquipélago.
- Galeria de Arte de Svalbard: obras de artistas locais e internacionais inspiradas no Ártico.
Quem busca curiosidades sobre lugares remotos, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal RFI Brasil, que conta com mais de 11 mil visualizações, onde a reportagem detalha por que não é permitido morrer ou ser enterrado em Longyearbyen, na Noruega:
O lugar mais improvável para guardar o futuro da humanidade
Longyearbyen é o tipo de lugar onde as regras do resto do mundo perdem o sentido. Uma cidade que proíbe enterros, incentiva gestantes a irem embora e obriga moradores a andar armados contra ursos polares. Ao mesmo tempo, abriga o cofre que pode garantir a alimentação do planeta em caso de catástrofe global.
Se existe um assentamento capaz de provar que a humanidade se adapta a qualquer condição, é esse ponto remoto entre a Noruega e o Polo Norte, onde o sol desaparece por meses, os mortos precisam ser exportados e as sementes do futuro dormem a -18 °C dentro de uma montanha de gelo.













