Visto de cima, parece uma floresta sobre o mar. De perto, telhados, janelas e escadarias surgem sob camadas de hera e samambaias. Houtouwan é um vilarejo abandonado na ilha de Shengshan, a cerca de 65 km de Xangai, onde a vegetação recobriu centenas de construções e transformou ruas inteiras em corredores verdes.
A vila de pescadores que chegou a ter 3 mil moradores
Houtouwan, que significa “baía dos fundos” em chinês, foi fundada nos anos 1950 como comunidade pesqueira. A ilha de Shengshan faz parte do Arquipélago Shengsi, um conjunto de 394 ilhas dentro do Arquipélago de Zhoushan, na província de Zhejiang. Shengsi é a única área cênica de nível nacional estabelecida sobre um grupo de ilhas naturais na China, conforme registro do governo municipal de Zhoushan.
Na década de 1980, a vila vivia seu auge. Mais de 2 mil pescadores e suas famílias ocupavam casas de alvenaria espalhadas pelas encostas íngremes voltadas para o Mar da China Oriental. Algumas fontes indicam que a população chegou a 3 mil pessoas no período de maior prosperidade da indústria pesqueira local.

Por que todos foram embora em menos de uma década
A partir dos anos 1990, Houtouwan começou a se esvaziar. A pequena baía não conseguia mais atender à demanda crescente da pesca comercial, e a concorrência de portos industrializados próximos a Xangai tornou o vilarejo economicamente inviável. A falta de estradas adequadas, escolas e serviços de saúde acelerou a migração.
Chegar à cidade mais próxima no continente exigia táxi até a ponte que conecta Shengshan à vizinha Ilha Gouqi, depois uma travessia de barco de mais de três horas e ainda duas horas de estrada. Em 2002, o vilarejo foi oficialmente considerado despovoado, segundo reportagem da CNN Travel. Restaram apenas alguns poucos moradores idosos.
Quem se encanta por lugares abandonados e natureza, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Free Doc Bites, que conta com mais de 50 mil visualizações, onde a repórter Anne explora a vila fantasma de Houtouwan, na China, que foi completamente tomada pela vegetação:
Como a vegetação conquistou cada parede em duas décadas
Sem manutenção, as casas de alvenaria ficaram expostas ao clima subtropical úmido. A temperatura média anual da região é de 15,8°C, com verões quentes e chuvas frequentes. Trepadeiras, samambaias e musgos encontraram superfícies perfeitas: paredes ásperas, telhados rachados e janelas abertas.
Em pouco mais de vinte anos, a vegetação cobriu centenas de construções de forma quase uniforme. Vista aérea, a vila parece uma colina natural, sem vestígio óbvio de ocupação humana. De perto, ângulos retos e sombras de arquitetura revelam que há estruturas sob o manto verde. Dentro das casas, móveis, utensílios e peças de roupa permanecem como foram deixados, congelados no tempo sob camadas de folhagem.
As fotos virais de 2015 que mudaram o destino do vilarejo
Houtouwan permaneceu praticamente desconhecido até 2015, quando uma série de fotografias do vilarejo coberto de verde viralizou nas redes sociais chinesas. A repercussão foi imediata. O telefone da administração de Shengshan não parava de tocar, e turistas começaram a chegar sem que houvesse qualquer estrutura para recebê-los.
Chen Bo, funcionário da administração da ilha, declarou na época que Houtouwan não tinha condições de receber visitantes e pediu que respeitassem a tranquilidade do local. Dois anos depois, em 2017, a vila abriu oficialmente ao turismo com uma plataforma de observação e trilhas sinalizadas. A entrada custa 50 yuans (cerca de 8 dólares), com avisos para que ninguém entre nas casas em ruínas, conforme relatado pelo Atlas Obscura.
O que existe além das ruínas verdes na ilha
Shengshan não é apenas Houtouwan. A ilha abriga uma das maiores fazendas de mexilhões da China, com estruturas que se estendem mar adentro. A ponte Sanjiaoshan liga Shengshan à Ilha Gouqi, onde praias, restaurantes de frutos do mar e pequenas pousadas recebem visitantes. A região faz parte das quatro áreas cênicas do Arquipélago Shengsi: Sijiao, Huaniao, Shengshan-Gouqi e Yangshan.
A viagem desde Xangai leva entre cinco e seis horas, combinando ônibus e balsa a partir da estação rodoviária da Ponte Nanpu. A balsa segue até a Ilha Gouqi, e de lá um táxi cruza a ponte até Shengshan. A melhor época para visitar é o verão, quando a folhagem atinge o tom mais intenso e o clima permite caminhadas ao ar livre.
O vilarejo que a natureza preferiu não devolver
Houtouwan não é ruína nem floresta. É algo entre os dois, um lugar onde a natureza aceitou o convite que os moradores fizeram ao partir. Cada janela coberta de hera conta a mesma história: o mar não bastou para segurar quem precisava de escola, hospital e estrada.
Você precisa ver Houtouwan antes que o verde termine de apagar o último vestígio de parede, porque ali a natureza está escrevendo, em tempo real, o rascunho de um mundo sem gente.

