O vapor sobe do chão e o cheiro de enxofre se mistura ao vento do Pacífico. Aogashima é uma ilha vulcânica de 3,5 km de comprimento perdida no Mar das Filipinas, onde cerca de 160 pessoas vivem dentro de uma caldeira que ainda emite calor.
Um vulcão dentro de outro vulcão no meio do oceano
A formação geológica de Aogashima é rara. A ilha inteira é o topo de um vulcão submarino cercado por falésias verticais de depósitos vulcânicos. No interior, a caldeira Ikenosawa, com 1,5 km de diâmetro, abriga um segundo cone chamado Maruyama. Essa estrutura de caldeira dupla, um vulcão encaixado dentro de outro, foi moldada por pelo menos quatro erupções submarinas ao longo de milhares de anos, segundo o Global Volcanism Program da Smithsonian Institution.
O ponto mais alto da ilha, Otonbu, alcança 423 m e fica na borda sul da caldeira externa. De lá, é possível enxergar toda a cratera verde com o cone Maruyama ao centro, como uma tigela com um morro de chá matcha no meio.

A erupção que matou metade da população e esvaziou a ilha por 50 anos
Registros do período Edo já documentavam atividade vulcânica em 1652 e entre 1670 e 1680. Em julho de 1780, tremores intensos sacudiram a ilha. Vapor começou a subir dos lagos na caldeira Ikenosawa. Em maio de 1781, a erupção teve início.
O pior veio em 1785. Fluxos de lava do cone Maruyama forçaram a evacuação das 63 famílias. Dos 327 moradores, entre 130 e 140 morreram. Os sobreviventes fugiram para a vizinha Hachijojima, a 64 km ao norte. A ilha ficou completamente desabitada por quase meio século.
Quem busca destinos remotos, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal WAO RYU!ONLY in JAPAN, que conta com mais de 7,6 milhões de visualizações, onde o apresentador mostra a fascinante ilha de Aogashima, um vulcão dentro de outro vulcão em Tóquio:
O homem que trouxe os moradores de volta ao vulcão
Em 1835, após quase duas décadas de planejamento, Sasaki Jirodayu liderou uma expedição de antigos moradores de volta a Aogashima. A paisagem havia mudado radicalmente. Mesmo assim, o grupo refez o levantamento fundiário e reconstruiu a vila. No início do século XX, a população chegou a 750 pessoas.
Sasaki é considerado herói local. Sua estátua fica a poucos minutos do escritório da vila, junto a um monumento que marca o retorno. As ruínas de sua antiga residência, com muros de pedras arredondadas na técnica tamaishigaki, ainda podem ser visitadas.
Como o calor do vulcão alimenta e sustenta a comunidade
As fumarolas no fundo da caldeira, chamadas de hingya no dialeto local, são o motor da vida cotidiana. No piso da Ikenosawa, cinco fornos geotermais aquecem alimentos com vapor do solo. Moradores e visitantes colocam ovos, batatas-doces e peixes em panelas sobre as bocas de vapor e esperam de 20 a 30 minutos. O uso é gratuito.
A mesma energia alimenta a sauna pública Fureai Sauna, com banho comunitário e chuveiros aquecidos por vapor natural. Desde 1999, uma fábrica de sal gerida pela vila produz o sal Hingya. Água do mar da Corrente Kuroshio é aquecida a cerca de 60°C pelo vapor geotermal. A cristalização começa no 13º dia e o processo inteiro leva um mês, segundo o Tokyo Updates, site oficial do Governo Metropolitano de Tóquio. O resultado é um sal rico em cálcio, com sabor adocicado, disputado por chefs e confeiteiros em restaurantes como o mikuni Marunouchi e o Hotel New Otani.

O menor município do Japão pertence oficialmente a Tóquio
Aogashima é administrada como vila dentro da subprefeitura de Hachijo, subordinada ao Governo Metropolitano de Tóquio. A ilha fica a 358 km do centro da capital, mas recebe os mesmos canais de TV e serviços públicos. É o município menos populoso do Japão, com cerca de 160 moradores.
A única escola da ilha atende do ensino fundamental ao médio. Em março de 2022, havia 11 alunos do fundamental, 3 do médio e 24 funcionários, o que faz da instituição uma das maiores empregadoras locais. Impostos arrecadados na vila cobrem apenas 4,1% do orçamento municipal, e 35,5% vem de subsídio direto do governo metropolitano. A Agência Meteorológica do Japão (JMA) monitora o vulcão continuamente com sismógrafos, câmeras, GPS e sensores de infrassom. A classificação de risco é C, a mais baixa entre os três níveis.
Chegar é quase tão difícil quanto viver lá
O único caminho até a ilha passa por Hachijojima, acessível por voo de 50 minutos a partir do aeroporto de Haneda, em Tóquio. De lá, um helicóptero faz o trecho final em 20 minutos, mas carrega no máximo 9 passageiros e costuma ser reservado com meses de antecedência. A alternativa é a balsa Kanjumaru, que leva cerca de 2h30, mas tem taxa de cancelamento superior a 50% por causa do mar agitado, conforme o guia oficial GO TOKYO.
Hospedagem se resume a poucas minshuku (pousadas familiares) e um camping gratuito na caldeira. Não há hospital. Emergências exigem remoção por helicóptero até Hachijojima.
A ilha que escolheu conviver com o perigo
Aogashima existe como um acordo silencioso entre pessoas e vulcão. O mesmo calor que ameaçou extinguir a comunidade em 1785 hoje aquece sua sauna, tempera seu sal e cozinha suas batatas. A ilha não nega o risco. Apenas decidiu que o risco faz parte da vida.
Você precisa ao menos conhecer a história dessa ilha onde o chão ainda respira, a 358 km de uma das maiores metrópoles do planeta.

