Quem desembarca em Fernando de Noronha paga uma taxa antes de pisar na areia. A cobrança existe desde 1989, é calculada por dia de permanência e aumenta progressivamente para desestimular estadias longas. O arquipélago de 21 ilhas, erguido sobre uma cordilheira vulcânica a 4 mil metros de profundidade no Atlântico, foi reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Natural da Humanidade em 2001 e segue sendo o destino de mergulho mais cobiçado do Brasil.
De presídio político a Patrimônio Mundial em meio século
A história de Noronha começa em 1503, quando Américo Vespúcio descreveu o arquipélago pela primeira vez. Nos séculos seguintes, a ilha serviu como fortaleza militar e destino de presos políticos: ciganos em 1739, farroupilhas em 1844, capoeiristas em 1890. Em 1938, virou oficialmente presídio. Durante a Segunda Guerra, abrigou uma base da Marinha Americana e um destacamento da FAB.
A virada veio com a Constituição de 1988, que reintegrou Noronha ao estado de Pernambuco como Distrito Estadual. No mesmo ano, o Decreto federal 96.693 criou o Parque Nacional Marinho, que abrange 70% do arquipélago e protege 11.270 hectares de ecossistemas marinhos e terrestres. Em 2001, a UNESCO declarou o conjunto Patrimônio Natural da Humanidade, e em 2017 o IPHAN tombou o Conjunto Histórico como Patrimônio Cultural do Brasil.

Quanto custa entrar e como funciona o controle de visitantes?
Noronha opera com duas cobranças obrigatórias que financiam a preservação. A Taxa de Preservação Ambiental (TPA), instituída pela Lei estadual 10.403/1989, custa R$ 105,79 por dia em 2026 e cresce progressivamente. Dias excedentes sem agendamento prévio são cobrados em dobro. A segunda é o ingresso do Parque Nacional Marinho, administrado pelo ICMBio: R$ 192 para brasileiros e R$ 384 para estrangeiros, válido por 10 dias.
O controle vai além do preço. Trilhas como Atalaia e Baía dos Porcos têm limite de visitantes por horário e exigem agendamento prévio, que muda mensalmente conforme a tábua de marés. A Baía dos Golfinhos proíbe mergulho e aproximação de embarcações. É o sistema de preservação mais rigoroso entre os destinos turísticos brasileiros, e os resultados aparecem na água: visibilidade de até 50 metros em dias de mar calmo.

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O que visitar no arquipélago mais preservado do Brasil?
Noronha tem 16 praias na ilha principal, divididas entre o Mar de Dentro (voltado para o continente, águas calmas) e o Mar de Fora (voltado para o Atlântico, ondas e correntes). Estes são os pontos que justificam a viagem:
- Baía do Sancho: eleita a praia mais bonita do mundo pelo TripAdvisor em múltiplas edições. Acesso por escadaria encravada na rocha ou por barco. Piscinas naturais na maré baixa.
- Praia do Leão: principal área de desova de tartarugas marinhas, com acesso controlado entre janeiro e junho no período noturno.
- Baía dos Golfinhos: observação do mirante ao amanhecer, quando centenas de golfinhos-rotadores entram na baía. Proibido descer à praia.
- Praia da Atalaia: piscina natural com limite de visitantes por sessão, agendamento obrigatório e tempo máximo de permanência de 30 minutos.
- Cacimba do Padre: vista para o Morro Dois Irmãos, cartão-postal do arquipélago, com ondas que atraem surfistas entre dezembro e março.
- Baía do Sueste: trilha submarina guiada com tartarugas, raias, polvos e pequenos tubarões. Único manguezal oceânico do Atlântico Sul.
Quem sonha em conhecer Fernando de Noronha, em Pernambuco, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Vou Levar Na Viagem, que conta com mais de 124 mil visualizações, onde Luisa mostra um roteiro completo de 5 dias com praias, taxas e dicas de passeios:
Por que Noronha é referência mundial em mergulho?
A combinação de águas quentes (26-28°C), visibilidade de até 50 metros e fauna abundante fez de Noronha um dos destinos de mergulho mais reconhecidos do planeta. Três operadoras oferecem imersões entre 12 e 60 metros de profundidade. O mergulho na Corveta Ipiranga, naufrágio a 62 metros, é considerado um dos mais desafiadores do Brasil.
A vida marinha é o grande diferencial. O Governo de Pernambuco e a UNESCO destacam que o arquipélago abriga a maior concentração de aves tropicais marinhas do Oceano Atlântico, além de ser área de reprodução e alimentação de atum, tubarão, tartaruga-de-pente e cetáceos. A Baía dos Golfinhos é o ponto de observação mais regular de golfinhos-rotadores (Stenella longirostris) em todo o planeta, com centenas de indivíduos reunidos diariamente ao amanhecer.
Quando o clima favorece cada tipo de experiência em Noronha?
O arquipélago tem clima tropical oceânico com duas estações bem definidas. A temperatura média anual fica entre 23°C e 31°C. A tabela orienta a melhor época para cada atividade:
| Período | Meses | Temperatura | Chuva | O que fazer |
|---|---|---|---|---|
| Seco | Set-Mar | 25-31°C | Baixa | Mergulho, snorkeling, visibilidade máxima |
| Chuvoso | Abr-Ago | 23-29°C | Alta | Surfe na Cacimba, trilhas com vegetação verde |
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo e dados do Governo de Pernambuco. Condições podem variar.
Como chegar ao arquipélago mais isolado do país?
Fernando de Noronha fica a 545 km de Recife e 360 km de Natal. Voos diários partem dessas duas capitais, operados pela Azul e pela Gol, com duração de aproximadamente 1h10. Entre outubro e fevereiro, cruzeiros marítimos autorizados também fazem parada no arquipélago. Não há transporte marítimo regular de passageiros. Na ilha, o deslocamento é feito por buggies e táxis, com a Administração do Distrito trabalhando para proibir veículos a combustão até 2030, conforme o Decreto Distrital 003/2019.
O santuário que escolheu preservar antes de lucrar
Noronha não é o destino mais fácil nem o mais barato do Brasil. É, sem dúvida, o mais protegido. Cada taxa paga, cada trilha agendada e cada limite de visitantes existe para que as tartarugas continuem desovando no Leão, os golfinhos continuem entrando na baía ao amanhecer e a Corveta continue intacta a 62 metros.
Você precisa ver com os próprios olhos por que um arquipélago de 26 km² no meio do Atlântico cobra caro, controla tudo e mesmo assim tem fila de espera o ano inteiro.

