A sirene dispara sem aviso. Em segundos, moradores, turistas e crianças colocam máscaras de gás enquanto uma nuvem invisível de dióxido de enxofre desce do vulcão. A cena não vem de um filme. Acontece em Miyakejima, uma ilha de 55 km² no Oceano Pacífico, a 180 km ao sul de Tóquio.
Por que um vulcão expulsou 3.600 pessoas de casa?
O Monte Oyama, estratovulcão de 775 m de altitude no centro da ilha, entrou em erupção em junho de 2000 após 17 anos de silêncio. As explosões provocaram 17.500 terremotos em menos de um mês. Colunas de cinza subiram a 15 km de altura, e lava incandescente escorreu pelas encostas. Três meses depois, o governo metropolitano de Tóquio ordenou a evacuação obrigatória de todos os moradores. Cerca de 3.600 pessoas deixaram a ilha e foram realocadas na capital, segundo dados do Observatório Terrestre da NASA.
O problema, porém, não era a lava. Era o ar. Após a erupção, o Oyama passou a emitir quantidades colossais de dióxido de enxofre (SO₂). No pico, em novembro de 2000, a taxa chegou a 80 mil toneladas por dia, conforme estudo publicado no Journal of Occupational Health via PubMed Central. Para efeito de comparação, essa carga era superior à emissão diária de SO₂ de todas as fontes industriais do Japão combinadas.

Cinco anos de exílio a 180 km do vulcão
De setembro de 2000 a fevereiro de 2005, Miyakejima ficou oficialmente interditada. Árvores secaram sob a chuva ácida, carros enferrujaram a céu aberto e o mato cobriu estradas e jardins. Apenas cientistas e equipes de monitoramento acessavam a ilha. Os voos comerciais foram suspensos por quase oito anos, já que o gás vulcânico colocava em risco a segurança de aeronaves.
Os moradores, na maioria pescadores e agricultores autônomos, foram abrigados em apartamentos temporários em Tóquio. Muitos acumularam dívidas enquanto esperavam a autorização de retorno. A distância de apenas 180 km tornava a saudade ainda mais aguda: dava para ver notícias sobre a ilha todos os dias, mas não pisar nela.
O retorno com máscaras de gás na mochila
Em 1º de fevereiro de 2005, o governo suspendeu a ordem de evacuação. O retorno, no entanto, veio acompanhado de uma condição sem precedentes: todos os residentes e visitantes passaram a ser obrigados por lei a carregar uma máscara de gás a qualquer momento. Sirenes espalhadas pela ilha disparam quando os níveis de SO₂ ultrapassam limites seguros. Ao ouvir o alerta, a regra é vestir a máscara imediatamente.
Nem todos voltaram. Dos 3.600 evacuados, cerca de 2.800 retornaram nos primeiros anos. Em 2016, a população era de 2.451, segundo a Wikipedia. Aproximadamente um terço da ilha permanece em zona de exclusão, interditada por conta das emissões contínuas de gás.

Um vulcão que entra em erupção a cada 20 anos
O Monte Oyama não é novidade para os moradores. Registros históricos documentam ao menos 15 erupções desde o ano de 1085. Desde 1940, o vulcão segue um ciclo aproximado de duas décadas: entrou em atividade em 1940 (quando 11 pessoas morreram por fluxo de lava), 1962, 1983 e 2000. Na erupção de 1983, a lava destruiu cerca de 500 casas na vila de Ako, segundo o Programa Global de Vulcanismo do Instituto Smithsonian.
Mesmo entre erupções, o Oyama continua emitindo SO₂. Em 2002, a taxa diária variava entre 10 mil e 20 mil toneladas. Em 2009, já havia caído para cerca de mil toneladas. Hoje, as emissões são monitoradas em tempo real por estações fixas e pelo sistema Multi-Component Gas Analyzer, que detecta desgaseificação de magma ascendente e ajuda a prever novas erupções.
A ilha que virou santuário de aves e ponto de mergulho
Apesar do vulcão, Miyakejima integra o Parque Nacional de Fuji-Hakone-Izu, um dos mais visitados do Japão. A ilha é reconhecida internacionalmente como refúgio de aves raras. O Akakokko (tordo-de-Izu), espécie endêmica ameaçada, habita as florestas remanescentes, e a Wild Bird Society of Japan mantém ali uma estação de observação.
No mar, recifes de coral e formações de lava submersa atraem mergulhadores. Golfinhos-nariz-de-garrafa-do-Indo-Pacífico vivem nas águas entre Miyakejima e a vizinha Mikurajima. A mesma ilha que obriga turistas a comprar máscaras de gás na chegada também oferece trilhas costeiras, fontes termais e piscinas naturais esculpidas pela lava.
Quem busca curiosidades sobre lugares perigosos, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal TOP LULU SPACE, que conta com mais de 6 mil visualizações, onde Lulu mostra a história de Miyakejima, no Japão:
A ilha que ensina a conviver com o perigo
Miyakejima é um caso raro de comunidade que escolheu voltar para casa sabendo que o risco nunca vai desaparecer. Exames médicos regulares, restrições de moradia em áreas de maior concentração de gás e um sistema de alerta que funciona 24 horas por dia fazem parte da rotina. O vulcão destruiu 60% das florestas da ilha, mas a vegetação já avança sobre as cinzas.
Se histórias de resiliência e paisagens vulcânicas impressionam você, Miyakejima vale cada minuto da travessia de barco desde Tóquio: são seis horas e meia de navegação até uma ilha onde natureza e perigo dividem a mesma calçada.

