Avenidas de seis faixas cortam o silêncio. Arranha-céus residenciais refletem o sol do deserto de Gobi sem uma única cortina nas janelas. No coração da Mongólia Interior, o distrito de Kangbashi foi erguido para abrigar 1 milhão de pessoas, mas durante anos atraiu pouco mais que vento e areia.
Como uma região de pastores se tornou a mais rica da China?
A resposta está debaixo da terra. Ordos abriga um sexto de todas as reservas de carvão da China e um terço das reservas comprovadas de gás natural do país, segundo dados compilados pela The China Story, publicação da Universidade Nacional Australiana. Nos anos 2000, a exploração de carvão transformou a cidade em uma máquina de riqueza. O PIB per capita de Ordos chegou a superar o de Pequim e o de Hong Kong.
Com dinheiro sobrando e poucas opções de investimento, governo local e novos milionários fizeram a mesma aposta: imóveis. Em 2003, as autoridades lançaram o plano para construir Kangbashi, um distrito inteiramente novo a 25 km do centro antigo de Dongsheng. O investimento estimado alcançou 1,1 trilhão de yuans, cerca de US$ 161 bilhões, segundo a Wikipedia. O terreno de 355 km² ficava entre dois desertos e três reservatórios de água.

Uma metrópole com museu premiado, estádio olímpico e zero vizinhos
Kangbashi não era um conjunto habitacional improvisado. O plano urbanístico seguia uma geometria radial ao redor de uma praça central monumental. O governo encomendou edifícios de grife: o Museu de Ordos, projetado pelo escritório MAD Architects e inaugurado em 2011, tem 41 mil m² e formato orgânico inspirado nas dunas do deserto de Gobi. A fachada de aço polido protege o interior de tempestades de areia e invernos que chegam a −25 °C.
Ao lado do museu, a biblioteca municipal imita três livros gigantes inclinados. O teatro de ópera reproduz um chapéu tradicional mongol em metal. Cada edifício foi pensado para impressionar visto do alto ou de um carro em alta velocidade. O problema é que quase ninguém passava por ali para admirar.
O projeto de 100 vilas assinadas por arquitetos de 27 países que nunca foi construído
Em 2008, o artista Ai Weiwei e o escritório suíço Herzog & de Meuron selecionaram 100 arquitetos de 27 países para projetar 100 vilas de 1.000 m² cada no distrito. O projeto, batizado de Ordos 100, pretendia criar um bairro residencial de vanguarda no meio da estepe. Os modelos foram apresentados, o documentário foi filmado, mas nenhuma das vilas chegou a ser concluída. Com a queda no preço do carvão e o esvaziamento do mercado imobiliário, o financiamento secou. O Ordos 100 permanece, até hoje, como uma das maiores promessas não realizadas da arquitetura contemporânea.

A reportagem de 2009 que transformou Kangbashi em símbolo global de fracasso
Em 2009, a jornalista Melissa Chan, da Al Jazeera, publicou uma reportagem sobre o distrito ainda em obras. As imagens de avenidas vazias e prédios sem moradores correram o mundo. A revista Time reforçou o rótulo em 2010 com a frase que se tornou célebre: Kangbashi seria “uma cidade chinesa nova que, tirando pessoas, tem tudo”.
O que a cobertura não mencionava era que Kangbashi tinha apenas cinco anos de existência e já reunia 30 mil moradores. Em 2017, o jornalista Wade Shepard argumentou na Forbes que o rótulo de “cidade fantasma” fora aplicado cedo demais. Na mesma época, a população já havia saltado para 153 mil habitantes, e os preços dos imóveis tinham subido 50% desde 2015. Das 40 mil unidades construídas desde 2004, apenas 500 permaneciam à venda.
Miss World no deserto e a cidade que não desistiu de existir
Em agosto de 2012, Kangbashi recebeu a final do Miss World, com 116 candidatas de todo o planeta, recorde da competição na época. O evento aconteceu no Dongsheng Fitness Center Stadium, e a chinesa Yu Wenxia levou a coroa. Para muitas das participantes, Ordos era um nome desconhecido até a chegada ao aeroporto.
A aposta em educação também mudou o cenário. Após a transferência de escolas de prestígio como o Ordos No. 1 High School e um campus da Universidade Normal de Pequim, famílias começaram a migrar para o distrito. Em 2024, a população de Kangbashi alcançou cerca de 130 mil pessoas, segundo relatos recentes. Longe do 1 milhão projetado, mas igualmente longe da “cidade fantasma” retratada em 2009.
Quem busca entender os mitos sobre o desenvolvimento chinês, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Cymye Trip List, que conta com mais de 29 mil visualizações, onde a apresentadora mostra a realidade sobre a “cidade fantasma” de Ordos Kangbashi, na China:
A lição que Kangbashi deixa no concreto do deserto
Kangbashi é, ao mesmo tempo, um monumento à ambição desmedida e um laboratório vivo de planejamento urbano. A cidade prova que erguer prédios não basta para criar comunidade, mas também mostra que rótulos dados cedo demais podem envelhecer mal. O distrito segue crescendo, devagar, entre museus futuristas e dunas de areia.
Se você se interessa por urbanismo levado ao extremo, Kangbashi merece entrar no radar: poucas paisagens no mundo reúnem tanta arquitetura de vanguarda, tanto silêncio e tanta história para contar.

