Construída sobre camadas de argila mole no delta do rio Chao Phraya, Bangkok carrega um paradoxo silencioso: quanto mais cresce para cima, mais afunda para baixo. A capital da Tailândia é hoje uma das cidades mais vulneráveis do planeta à elevação do nível do mar.
Por que a capital tailandesa está afundando?
O solo sob Bangkok é composto por camadas compressíveis de argila saturada de água, conhecidas entre geólogos como “argila de Bangkok”, com cerca de 15 metros de espessura. Na década de 1980, a extração descontrolada de água subterrânea fez a cidade afundar até 12 centímetros por ano, segundo dados do Ministério de Recursos Naturais e Meio Ambiente da Tailândia (MONRE). Após legislações que restringiram a perfuração de poços, a taxa caiu para 1 a 2 centímetros anuais. O problema é que a subsidência não parou. O peso dos arranha-céus, a impermeabilização do solo e o avanço do nível do mar continuam empurrando a metrópole para baixo.

O que dizem os relatórios do Banco Mundial sobre Bangkok?
O cenário projetado pelo Banco Mundial é preocupante. Uma enchente do mesmo porte da ocorrida em 2011 custaria, se repetida em 2030, mais de 10% do PIB tailandês em perdas produtivas. O relatório climático de 2025 do banco estima que investimentos em mitigação de enchentes, proteção costeira e segurança hídrica poderiam elevar o PIB anual entre 2% e 3% até 2040, e entre 4% e 5% até 2050, em comparação ao cenário sem ação. Sem esses investimentos, a subsidência do solo deve responder por quase 70% do aumento nos custos de inundação da cidade até meados do século.
A enchente de 2011 que paralisou o país inteiro
Entre julho e janeiro de 2012, a Tailândia viveu a pior inundação em 70 anos. As águas cobriram 65 das 76 províncias do país, mataram 815 pessoas e afetaram 13,6 milhões. Bangkok ficou parcialmente submersa por meses. O Banco Mundial estimou as perdas econômicas em 46,5 bilhões de dólares, o que fez da enchente o evento de inundação mais caro já registrado pelo setor global de seguros, segundo a Swiss Re. Fábricas que produziam cerca de 25% dos discos rígidos do mundo foram paralisadas, e o preço dos componentes quase dobrou no mercado internacional.
Desde então, Bangkok reforçou diques ao longo do Chao Phraya, mas especialistas alertam que o sistema de drenagem da cidade suporta apenas 60 milímetros de chuva por hora, volume frequentemente ultrapassado durante as monções.
O templo que o mar engoliu a 60 km da capital
A cerca de 60 km ao sul de Bangkok, o Wat Khun Samut Chin é uma evidência física da crise. O templo budista, construído durante o reinado de Rama V, já esteve no centro de uma vila com 76 rai de terra firme (cerca de 12 hectares). Hoje, restam apenas cinco rai. O mar avançou mais de um quilômetro sobre a antiga comunidade, engolindo casas, escolas e postos de saúde. Os monges elevaram o piso do templo em quase um metro para mantê-lo seco durante a maré alta, e a única forma de chegar ao local é por barco.
O abade Somnuek Atipanyo recusou-se a abandonar o templo, que hoje atrai visitantes curiosos e virou símbolo da luta tailandesa contra a erosão costeira. Especialistas do governo estimam que o nível do mar local sobe cerca de 4 milímetros por ano no Golfo da Tailândia, taxa superior à média global.
Esse vídeo especialmente selecionado do canal FRANCE 24 English, que conta com mais de 2,9 milhões de inscritos, onde especialistas mostram como a capital da Tailândia corre o risco de ficar submersa devido às mudanças climáticas:
Um parque projetado para inundar no coração da cidade
Em 2017, a Universidade Chulalongkorn inaugurou o Chulalongkorn Centenary Park, a primeira infraestrutura verde de Bangkok projetada para combater enchentes urbanas. Construído sobre um terreno de 11 acres avaliado em 700 milhões de dólares, o parque usa a gravidade como aliada: inclinado em 3 graus, ele conduz a água da chuva de um telhado verde de 5.200 m² para zonas alagáveis, passando por jardins filtrantes e terminando em um lago de retenção capaz de armazenar cerca de 3,8 milhões de litros. O projeto, da arquiteta paisagista Kotchakorn Voraakhom, recebeu o Honor Award da ASLA em 2019.
Bangkok é considerada a grande cidade com menor área verde por habitante da Ásia, com apenas 3,3 m² per capita, segundo o Siemens Green City Index. Cingapura, por exemplo, oferece 66 m² por pessoa. O parque da Chulalongkorn mostra que é possível transformar concreto em esponja, mas a escala do desafio exige muito mais.

Conheça a metrópole que luta contra o próprio chão
Bangkok é uma cidade que desafia a lógica: cresce, afunda, inunda e recomeça. Seus templos resistem ao avanço do mar, seus parques absorvem a chuva que o concreto rejeita e seus moradores convivem com um rio que ora alimenta, ora ameaça.
Se você busca entender como o futuro das grandes cidades costeiras está sendo disputado metro a metro, Bangkok é o lugar onde essa história já começou a ser escrita.

