O degelo das montanhas do Hindu Kush costumava alimentar três rios e recarregar os aquíferos sob a capital afegã. Hoje, Cabul extrai quase o dobro de água subterrânea que a natureza consegue repor, e metade dos poços profundos da cidade já está seca. Se nada mudar, projeções da UNICEF indicam que os reservatórios subterrâneos podem se esgotar até 2030.
De 1 milhão a 6 milhões em duas décadas
Em 2001, quando forças internacionais derrubaram o primeiro governo talibã, Cabul tinha cerca de 1 milhão de habitantes. A promessa de segurança e oportunidade econômica atraiu migrantes de todo o Afeganistão. Em pouco mais de vinte anos, a população saltou para aproximadamente 6 milhões, segundo relatório da Mercy Corps publicado em abril de 2025.
A infraestrutura hídrica, porém, nunca acompanhou esse ritmo. A cidade foi projetada para uma fração dos moradores atuais. Apenas 20% da população tem acesso à água encanada, e cerca de 90% depende de poços perfurados no solo para beber, cozinhar e se lavar. O resultado é uma corrida subterrânea: mais de 120 mil poços irregulares disputam água com centenas de fábricas e estufas agrícolas que ocupam a bacia de Cabul.

44 milhões de metros cúbicos a mais do que a terra repõe
O dado mais alarmante do relatório da Mercy Corps é direto: a cada ano, Cabul retira dos aquíferos 44 milhões de metros cúbicos de água além do que o ciclo natural consegue devolver. É quase o dobro da taxa sustentável. Nos últimos dez anos, o nível dos aquíferos caiu entre 25 e 30 metros. Poços que antes alcançavam água a menos de 100 metros de profundidade agora precisam perfurar até 300 metros, conforme entrevistas conduzidas pela própria ONG com empresas de perfuração locais.
Três rios alimentam a bacia subterrânea da capital: Cabul, Paghman e Logar. Todos dependem do derretimento de neve e gelo das montanhas do Hindu Kush. Entre outubro de 2023 e janeiro de 2024, o Afeganistão recebeu apenas 45% a 60% da precipitação média de inverno, segundo o mesmo relatório. Menos neve significa menos recarga, e os aquíferos continuam encolhendo.
80% da água subterrânea está contaminada
A escassez é grave, mas a qualidade do pouco que resta assusta ainda mais. A Mercy Corps estima que até 80% da água subterrânea de Cabul esteja contaminada com esgoto, arsênio e nitratos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda um mínimo de 80 litros por pessoa por dia para necessidades básicas. Os moradores da capital afegã recebem, em média, apenas 20 litros.
As consequências aparecem no cotidiano. Diarreia e vômito são queixas recorrentes, segundo relatos publicados pela CNN. Escolas e postos de saúde em alguns bairros fecharam por falta de água potável. Crianças faltam às aulas para carregar baldes em filas que atravessam ruas íngremes sob sol forte.
Quando a água vira dívida: até 30% da renda familiar vai para baldes
Quem não tem poço próprio depende de caminhões-pipa e vendedores particulares. A Mercy Corps apurou que algumas famílias gastam até 30% da renda mensal comprando água, e mais de dois terços estão endividadas por causa desse custo. Em cinco anos, o preço da água em Cabul dobrou ou até triplicou em certos bairros.
Empresas privadas perfuram poços profundos, extraem água pública e revendem a preços elevados. Segundo cálculos do pesquisador Najibullah Sadid, publicados pela Al Jazeera, uma única empresa de bebidas da capital consome cerca de 2,5 milhões de litros de água subterrânea por dia. A crise expõe uma fratura social profunda: enquanto moradores mais ricos perfuram poços cada vez mais fundos, os mais pobres ficam sem acesso.

O que diferencia Cabul da Cidade do Cabo?
Em 2018, a Cidade do Cabo, na África do Sul, chegou perto do chamado “Dia Zero”, o ponto em que as torneiras seriam fechadas. A cidade conseguiu evitar o colapso com campanhas de racionamento, restrições drásticas e chuvas de inverno que reabasteceram as represas. A diferença para Cabul é estrutural.
A capital sul-africana tinha instituições funcionando, dados em tempo real sobre consumo e uma população mobilizada para reduzir o uso pela metade em poucos meses. Cabul, ao contrário, enfrenta décadas de guerra, governança frágil e sanções internacionais. Desde que o Talibã reassumiu o poder em 2021, cerca de 3 bilhões de dólares em financiamento internacional para água e saneamento foram congelados, conforme dados da Mercy Corps. A Organização das Nações Unidas (ONU) informou que, até o início de 2025, apenas 8,4 milhões de dólares dos 264 milhões necessários para programas hídricos haviam sido liberados.
Quem tem curiosidade sobre destinos extremos, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Follow the Sun, que conta com mais de 11 mil visualizações, onde João e Marta mostram a realidade de passar 72 horas em Cabul, a capital do Afeganistão:
Soluções existem, mas o tempo é curto
Especialistas ouvidos pela Radio Free Europe/Radio Liberty (RFE/RL) apontam dois projetos capazes de aliviar a crise. A barragem de Shahtoot, a cerca de 30 km de Cabul, forneceria água potável para mais de 2 milhões de pessoas. Um segundo projeto prevê um duto de 200 km trazendo mais de 100 milhões de metros cúbicos anuais do rio Panjshir. Ambos tiveram estudos de viabilidade concluídos antes de 2021, mas estão paralisados por falta de investimento.
O pesquisador Assem Mayar, ex-professor da Universidade Politécnica de Cabul, defende que a recarga artificial dos aquíferos e a construção de pequenas barragens de contenção são medidas de emergência que poderiam ser implementadas antes das grandes obras. A Organização para a Alimentação e a Agricultura (FAO) projeta queda de 40% na produção agrícola da província de Cabul até 2035, caso nenhuma ação seja tomada, segundo dados citados pelo jornal Arab News.
Uma capital que ainda pode mudar seu destino
Cabul carrega cicatrizes de guerras, ocupações e isolamento diplomático. A crise hídrica é talvez a mais silenciosa e a mais urgente. Uma cidade inteira depende de aquíferos que encolhem a cada estação seca, enquanto neve e gelo nas montanhas do Hindu Kush diminuem ano após ano.
Se existe algo que a experiência da Cidade do Cabo ensinou ao mundo, é que uma crise hídrica extrema pode ser revertida quando há vontade política, dados confiáveis e recursos financeiros. Cabul ainda tem tempo, mas cada mês sem ação torna o caminho de volta mais longo e mais caro para milhões de afegãos que só querem abrir uma torneira e encontrar água limpa.

