Quem olha para o Rio de Janeiro de cima vê montanhas cobertas de mata compacta abraçando a cidade. Parece vegetação original. Não é. Cada uma daquelas árvores existe porque, no século 19, o Rio quase ficou sem água potável e precisou reflorestar uma montanha inteira para sobreviver.
O café que quase matou a capital do Império de sede
Nos séculos 17 e 18, o Maciço da Tijuca foi progressivamente derrubado para dar lugar a engenhos de cana, plantações de café e produção de carvão. A floresta que cobria os morros foi quase inteiramente destruída. O resultado apareceu rápido: sem a vegetação segurando a água, os mananciais que abasteciam a cidade começaram a secar.
A partir de 1840, crises sucessivas de abastecimento hídrico forçaram o governo imperial a agir. Uma comissão de estudos concluiu que a única solução era desapropriar as fazendas e reflorestar as encostas, segundo registros da Biblioteca Nacional. Em 1861, Dom Pedro II assinou a portaria que daria início ao maior projeto de reflorestamento urbano da história.

Um major, 11 escravizados e 100 mil mudas em 13 anos
A missão foi confiada ao Major Manuel Gomes Archer. Ele iniciou o trabalho com 11 pessoas negras escravizadas, que plantaram as primeiras mudas na área que hoje corresponde à Floresta da Tijuca e à Floresta das Paineiras. Em 13 anos, mais de 100 mil mudas de espécies nativas da Mata Atlântica foram replantadas em terras desapropriadas pela Coroa.
A história dessas 11 pessoas ficou apagada por décadas. Apenas em março de 2025, a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro aprovou o Projeto de Lei 605/23, incluindo seus nomes no livro dos Heróis e Heroínas do Estado do Rio, numa ação de reparação histórica, conforme registrado pelo Parque Nacional da Tijuca. O substituto do Major Archer, o Barão d’Escragnolle, continuou o trabalho e ainda contratou o paisagista francês Auguste Glaziou, que projetou fontes, lagos e recantos na floresta em recuperação.
A floresta que nasceu antes de Yellowstone
O resultado daquele esforço pioneiro é o Parque Nacional da Tijuca, reconhecido internacionalmente pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) como a maior floresta urbana replantada do mundo, com 39,51 km² de Mata Atlântica no coração de uma metrópole de mais de 6 milhões de habitantes.
Há uma curiosidade que poucos conhecem: a proteção da Tijuca começou em 1861, onze anos antes de Yellowstone, nos Estados Unidos, ser criado em 1872 como o primeiro Parque Nacional do mundo. A Tijuca está, portanto, entre as áreas protegidas pioneiras do planeta. Em 2024, o parque recebeu 4,6 milhões de visitantes, liderando o ranking nacional de unidades de conservação mais visitadas do Brasil.

Por que o nome Tijuca significa água podre
O nome carrega uma ironia geográfica. “Tijuca” vem do tupi e significa “água podre”, uma referência à Lagoa da Tijuca, de água parada e cheia de mangue, que ficava no sopé da floresta. A floresta acabou herdando o nome da lagoa pelo simples fato de estar no caminho até ela.
Há outras camadas curiosas nessa história. A floresta, hoje exuberante, é vegetação secundária, não original: quem passeia pelas trilhas está andando por entre árvores que nasceram de um replantio deliberado, não de uma floresta primária preservada. Ainda assim, a diversidade biológica reconquistada impressiona. O parque abriga mais de 230 espécies de animais e aves, entre as quais se encontram, segundo a Riotur:
- Macaco-prego e sagui: primatas comuns nas trilhas, frequentemente avistados por visitantes no Setor Floresta.
- Quati e cutia: mamíferos terrestres que circulam pelas áreas de lazer e picnic.
- Beija-flor e sabiá: aves nativas da Mata Atlântica presentes em toda a extensão do parque.
- Cachorro-do-mato: espécie mais rara, com registros nas áreas de menor circulação humana.

O que explorar nos 39 km² de mata dentro da cidade
O parque é dividido em três setores abertos à visitação. Cada um oferece experiências distintas, da floresta fechada aos mirantes com vista do oceano. Os principais pontos de interesse são:
- Pico da Tijuca: ponto mais alto do parque, a 1.022 metros de altitude. Trilha acessível mesmo para iniciantes, saindo da Estrada da Cascatinha no Alto da Boa Vista.
- Vista Chinesa e Mirante Dona Marta: mirantes com panorama da Zona Norte, Zona Sul e da Baía de Guanabara.
- Cascatinha Taunay: uma das cachoeiras mais antigas do circuito histórico, citada em registros do século 19.
- Cristo Redentor no Corcovado: inserido no Setor Serra da Carioca, acessível de trem pelo bairro Cosme Velho ou por van pelas Paineiras. Ingresso cobrado.
- Parque Lage: entrada gratuita, com o casarão histórico e trilhas que conectam ao Corcovado.
- Pedra da Gávea e Pedra Bonita: acesso pelo Setor Pedra Bonita, com opções de escalada, voo livre e trilhas panorâmicas.
A maior parte do parque tem entrada gratuita. O único setor com cobrança é o acesso ao Corcovado, onde está o Cristo Redentor.
Quem busca aventura em meio à natureza, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Tesouros do Brasil, que conta com mais de 125 mil visualizações, onde João Vita mostra as trilhas e cascatas da Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro:
A floresta que o Rio plantou e hoje não consegue imaginar sem ela
O Parque Nacional da Tijuca é a prova de que reflorestamento em larga escala funciona, mesmo quando o ponto de partida é uma montanha devastada. O que começou como uma obra de emergência hídrica no século 19 virou o maior pulmão verde urbano replantado do planeta.
Se você ainda não caminhou pela Floresta da Tijuca, vale reservar um dia para subir o Pico, atravessar a mata que os escravizados plantaram árvore por árvore e entender por que o Rio é uma das poucas metrópoles do mundo que tem floresta tropical no meio de si mesma.

