A 846 km de Adelaide, no coração do Outback australiano, existe uma cidade quase invisível. Quem percorre a Stuart Highway pode passar por Coober Pedy sem perceber que ali vivem cerca de 2.500 pessoas, a maioria delas sob o chão de arenito que ferve a mais de 50 °C no verão.
O garoto de 14 anos que mudou o destino do deserto
Em 1º de fevereiro de 1915, Willie Hutchison acompanhava o pai numa expedição fracassada em busca de ouro. Enquanto os adultos procuravam água, o adolescente tropeçou em pedaços de opala espalhados pela superfície. A descoberta transformou aquele trecho árido da Austrália do Sul no maior campo de mineração de opala do planeta.
O nome escolhido em 1920 já dizia tudo. Coober Pedy vem do termo aborígine kupa-piti, que significa algo como “buraco do homem branco”. Os povos originários da região, porém, adotaram outro nome para o lugar em 1975: Umoona, que quer dizer “vida longa”, conforme registrado pelo District Council of Coober Pedy.

Por que metade dos moradores escolheu viver no subsolo?
Soldados australianos que voltaram das trincheiras da Primeira Guerra Mundial trouxeram a ideia. Acostumados a viver em túneis na França, perceberam que o mesmo princípio funcionava contra o calor extremo do deserto. As casas escavadas no arenito, chamadas dugouts, mantêm temperatura constante entre 19 °C e 25 °C o ano inteiro, segundo o site oficial da cidade.
Hoje, cerca de 50% da população vive no subsolo. As residências podem alcançar 450 metros quadrados e incluir piscina, sala de estar e cozinha moderna. Famílias compram lotes vizinhos e abrem túneis para conectar moradias. A cidade inteira funciona abaixo da superfície: há igrejas, hotéis, livrarias, galerias de arte e até um salão de sinuca escavado na rocha.

A capital mundial da opala em números
A Austrália concentra cerca de 95% da oferta global de opala comercial. Coober Pedy, junto com os campos vizinhos de Andamooka e Mintabie, responde por 85% dessa produção, de acordo com o site oficial da cidade. São mais de 70 campos de opala ativos na região e mais de 250 mil poços de mineração já escavados ao longo de mais de um século.
A opala mais valiosa do mundo também saiu daqui. A Olympic Australis, com 3,5 kg, foi encontrada a 10 metros de profundidade em Coober Pedy. Uma curiosidade pouco conhecida: 95% de toda opala minerada é do tipo potch, sem o brilho de cores que torna a pedra preciosa. Apenas uma fração minúscula carrega o jogo de cores pelo qual colecionadores pagam fortunas.

Golfe sem grama e a árvore feita de sucata
O Coober Pedy Golf Club é possivelmente o campo de golfe mais excêntrico do mundo. Não há um fio de grama. Jogadores carregam um pedaço de carpete sintético para apoiar a bola na tacada inicial. As partidas acontecem à noite, com bolas fluorescentes, para escapar do sol que castiga durante o dia.
A vegetação é tão rara que a primeira “árvore” da cidade era uma escultura feita de sucata metálica. A prefeitura precisou criar um programa de incentivo ao plantio para que moradores semeassem qualquer coisa ao redor das casas. Até hoje, a paisagem de superfície lembra um cenário lunar: montes de arenito avermelhado se estendem até onde a vista alcança, sem sombra.
Quem tem curiosidade sobre lugares exóticos, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Geolugar, que conta com mais de 22 mil visualizações, onde Fernando mostra a vida fascinante em Coober Pedy, a cidade subterrânea da Austrália:
O cenário pós-apocalíptico que Hollywood não resistiu
Em 1985, Mel Gibson e Tina Turner desembarcaram no deserto para filmar Mad Max: Beyond Thunderdome. A paisagem marciana de Coober Pedy dispensou cenografia. Desde então, a cidade serviu de locação para Pitch Black (2000), Priscilla, a Rainha do Deserto (1994) e o blockbuster Mortal Kombat (2021), conforme registrado pela Ausfilm.
Adereços de filmagens permanecem espalhados pela cidade. Pedaços de nave espacial do set de Pitch Black ainda decoram o entorno. A Igreja Ortodoxa Sérvia de Santo Elias, construída em 1993 com entalhes na rocha e vitrais iluminados por luz natural, aparece em praticamente todos os documentários sobre a cidade.

45 nacionalidades em um ponto remoto do Outback
Coober Pedy reúne mais de 45 nacionalidades em uma população estimada em 2.500 habitantes. Cerca de 60% dos moradores têm ascendência europeia, herança das ondas migratórias do pós-guerra. Gregos, croatas, sérvios e húngaros chegaram nos anos 1960 atraídos pela febre da opala. A escola local atende alunos de 49 culturas diferentes, e um terço da matrícula é formado por estudantes aborígines.
Apesar da fama mineradora, apenas 8% dos empregados trabalham diretamente com mineração, segundo perfil demográfico do .id Community Profile. O setor de saúde e assistência social lidera a oferta de empregos, seguido pelo turismo, que atrai cerca de 150 mil visitantes por ano ao centro de informações da cidade.
Um lugar que só existe porque alguém decidiu cavar
Coober Pedy nasceu de um tropeço de adolescente no meio do nada e se transformou na mais improvável comunidade habitada da Oceania. A cidade que os aborígines chamaram de “buraco do homem branco” é, na verdade, uma lição silenciosa de adaptação: onde o calor expulsaria qualquer um, milhares de pessoas simplesmente desceram um andar.
Se algum dia a Stuart Highway cruzar seu caminho, desça do carro e entre em Coober Pedy, a cidade que prova que a vida encontra espaço até debaixo do deserto mais seco da Austrália.

