A 200 km acima do Círculo Polar Ártico, uma cidade inteira está mudando de endereço. Kiruna, no extremo norte da Suécia, precisa transferir seu centro urbano 3 km para leste antes que o solo ceda sobre a maior mina subterrânea de minério de ferro do mundo. Em agosto de 2025, a igreja centenária de 672 toneladas cruzou a cidade sobre reboques teleguiados a meio quilômetro por hora, diante de milhares de espectadores e do próprio rei sueco.
Por que o chão de Kiruna está cedendo
A resposta está a 1.365 metros de profundidade. A mina de Kirunavaara, operada pela estatal LKAB, extrai minério de ferro desde 1910 e responde por 80% de toda a produção da União Europeia. A jazida se estende diretamente sob o centro da cidade. Quando a exploração era superficial, o impacto não aparecia. Com a descida para níveis cada vez mais profundos, o terreno começou a ceder.
Em 2004, medições da LKAB confirmaram que o solo acima da mina estava se deformando. Rachaduras surgiram em prédios e ruas. A legislação sueca proíbe mineração sob edificações, e a empresa enfrentou uma escolha: parar de minerar ou mover a cidade. Optou pela segunda. O custo estimado para os próximos dez anos é de 22,5 bilhões de coroas suecas, o equivalente a cerca de 2,4 bilhões de dólares.

Como se move uma igreja de 672 toneladas sem desmontá-la
A Igreja de Kiruna, inaugurada em 1912 e considerada um dos mais belos edifícios de madeira da Suécia, pesava demais para ser desmontada sem risco de dano irreversível. A LKAB decidiu transportá-la inteira. Foram oito anos de planejamento e um investimento de 500 milhões de coroas suecas (cerca de 52 milhões de dólares).
Nos dias 19 e 20 de agosto de 2025, a estrutura de 40 metros de largura foi erguida sobre vigas de aço e colocada em reboques modulares com 224 rodas, controlados remotamente por um operador argentino com um joystick. A velocidade máxima foi de meio quilômetro por hora. O percurso de 5 km exigiu a ampliação de uma estrada de 9 para 24 metros e a desmontagem de um viaduto. A emissora nacional SVT transmitiu ao vivo o evento, batizado de “A Grande Caminhada da Igreja”. O Rei Carl XVI Gustaf acompanhou a chegada.
O que já foi movido e o que ainda falta
Até julho de 2025, 25 edifícios históricos já haviam sido erguidos sobre vigas e transportados para leste. Restavam 16, incluindo a igreja. A LKAB oferece duas opções aos moradores: aceitar uma casa nova no novo centro, construída com o mesmo padrão da original, ou ter a casa fisicamente transportada, quando viável.
Em 2025, porém, a mineradora anunciou que a expansão da mina exigirá a relocação de mais 6 mil pessoas e 2.700 residências na próxima década. Um terço dos 18 mil moradores de Kiruna será afetado. O novo centro, inaugurado oficialmente em setembro de 2022, já conta com prédios residenciais, comércio e serviços. Uma pesquisa da Sifo Kantar indicou que 80% dos moradores apoiam a mudança, embora o sentimento seja marcado por perdas. A Prefeitura antiga, protegida como patrimônio, era de tijolos e não pôde ser movida. Foi demolida em 2019.

A descoberta que tornou a mina ainda mais estratégica
Em janeiro de 2023, a LKAB revelou que havia encontrado em Kiruna o maior depósito conhecido de terras raras da Europa. Esses minerais são essenciais para baterias de carros elétricos, turbinas eólicas e componentes de alta tecnologia. A União Europeia reconheceu o depósito como projeto estratégico dentro do Regulamento de Matérias-Primas Críticas, que busca reduzir a dependência do bloco em relação à China.
A descoberta aumenta a pressão sobre Kiruna. A nova jazida de terras raras será conectada à mina de ferro por um túnel subterrâneo, o que pode ampliar ainda mais a área de subsidência. Para os moradores, surge uma pergunta sem resposta clara: até onde a cidade terá de se mover?
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O conflito entre a mina e o povo Sámi
Kiruna fica em Sápmi, território tradicional do povo Sámi, reconhecido como indígena pela Suécia desde 1977. A mina, as estradas e a ferrovia cortam rotas históricas de migração de renas. Lars-Marcus Kuhmunen, líder de uma das organizações de pastoreio Sámi de Kiruna, declarou à imprensa que a expansão da LKAB ameaça diretamente o modo de vida dos criadores de renas. A líder da aldeia Sámi de Gabna Sameby, Karin K. Niia, chamou a mudança da igreja de “grande espetáculo” para desviar a atenção dos impactos da mineração sobre a biodiversidade e a cultura indígena.
Um estudo da Universidade de Gotemburgo revelou outro efeito colateral: o novo centro de Kiruna, construído em uma depressão do terreno, pode ser até 10°C mais frio no inverno do que a localização anterior. Em uma cidade onde -25°C não é incomum, a diferença é sentida no corpo.
A cidade que aceita desaparecer para continuar existindo
Kiruna nasceu em 1900 por causa da mina e agora se muda por causa dela. A relação entre a cidade e a LKAB é descrita por moradores e autoridades como uma simbiose: uma não sobrevive sem a outra. O processo de mudança, previsto para se estender até 2035, é considerado o maior remanejamento urbano em curso no planeta.
Se você algum dia visitar a Lapônia sueca, é possível que Kiruna já esteja em outro lugar, com a mesma igreja de madeira vermelha, o mesmo frio cortante e a mesma pergunta no ar: quando será a próxima mudança?

