O nome significa “água que não congela” na língua do povo Even, mas o termômetro conta outra história. Oymyakon, na República de Sakha, no extremo leste da Sibéria russa, é a localidade permanentemente habitada mais fria da Terra. Cerca de 500 pessoas vivem ali, onde o inverno médio ronda os -50 °C, os carros nunca são desligados e o solo está congelado a centenas de metros de profundidade.
Como o frio chegou a quase -72 °C em uma vila habitada?
O registro oficial mais baixo da estação meteorológica local data de 6 de fevereiro de 1933: -67,7 °C. Há, porém, uma medição anterior e não oficial, frequentemente citada em publicações russas, que aponta -71,2 °C na década de 1920. Nenhuma outra localidade permanentemente habitada do planeta alcançou marcas semelhantes, conforme registros compilados na enciclopédia internacional.
A explicação está na geografia. Oymyakon fica em uma depressão montanhosa a 740 metros de altitude, longe de qualquer influência oceânica. O ar frio se acumula no vale e não encontra saída. Esse fenômeno de inversão térmica transforma a região em uma espécie de freezer natural durante seis meses do ano. O solo permanece congelado o tempo todo, fenômeno conhecido como permafrost, que pode atingir centenas de metros de profundidade.

O que congela e o que funciona a -50 °C?
A rotina em Oymyakon desafia qualquer lógica urbana. Os canos de água congelam, e os moradores obtêm água potável raspando blocos de gelo dos rios. Os carros precisam ficar ligados continuamente ou guardados em garagens aquecidas para que o motor não se torne um bloco de gelo. A tinta das canetas congela. Baterias de celulares descarregam em minutos ao ar livre. Óculos de metal grudam na pele e podem causar queimaduras de frio.
As escolas só fecham quando o termômetro cai abaixo de -52 °C. Acima desse patamar, as crianças frequentam as aulas normalmente. Quando a temperatura sobe para -40 °C, os moradores consideram o clima quase ameno. As casas são aquecidas 24 horas por dia por uma central térmica a carvão, e a alimentação se baseia em carne de rena, peixe e gordura animal, já que o solo congelado impede qualquer tipo de cultivo.

Por que alguém mora no lugar mais frio do mundo?
Na década de 1920, Oymyakon era apenas uma parada para pastores de renas que aproveitavam fontes termais próximas para aquecer os rebanhos. Com o tempo, a vila se fixou. A economia local gira em torno da mineração de ouro e antimônio, da criação de cavalos e renas iacutos (raças adaptadas a temperaturas extremas) e da pesca sob o gelo, em rios com mais de um metro de camada congelada.
A cidade mais próxima, Yakutsk, fica a cerca de 800 km, em uma viagem que pode levar 18 horas por uma estrada conhecida como Estrada dos Ossos. No inverno, os dias têm apenas três horas de luz solar. No verão, a situação se inverte: são 21 horas de luz e a temperatura pode chegar a 34 °C, criando uma amplitude térmica superior a 100 °C ao longo do ano.

O turismo do frio extremo atrai centenas por ano
Apesar do isolamento, Oymyakon recebe cerca de 400 a mil turistas por ano, conforme o portal de turismo da Yakútia. O Festival do Polo do Frio é o evento anual que mais atrai visitantes, com banhos em águas termais, passeios de trenó puxado por cães e a experiência de jogar água fervente no ar e vê-la congelar antes de tocar o chão.
A vila conta com ginásios, cafés, lojas, farmácias e bibliotecas. O turismo de aventura inclui degustação de carne de cavalo congelada, pesca no gelo e fotografias com termômetros marcando temperaturas que parecem ficção. A infraestrutura é modesta, mas suficiente para quem deseja sentir na pele o que significa viver no limite do frio.
Quem busca entender a sobrevivência extrema, vai curtir este vídeo do canal Ruhi Çenet Português, com mais de 559 mil visualizações, onde Ruhi Çenet explora Oymyakon, na Rússia, a vila mais fria do mundo:
O vilarejo que transformou o congelamento em rotina
Oymyakon existe como prova de que a adaptação humana não conhece fronteiras térmicas. Uma amplitude de mais de 100 °C, rios que servem de estrada no inverno e de fonte de alimento o ano inteiro, e um nome que ironicamente celebra a água que não congela.
Conhecer Oymyakon é aceitar que existe um lugar no planeta onde -40 °C é motivo de alívio e onde a sobrevivência diária é a maior aventura que qualquer turista pode testemunhar.

