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A cidade fantasma que queima por baixo da terra há mais de 60 anos e forçou o abandono de todos os seus habitantes

Vitor Por Vitor
13/03/2026
Em Cidades

Um incêndio aceso em maio de 1962 num aterro sanitário de uma pequena cidade mineradora da Pensilvânia nunca foi apagado. Seis décadas depois, Centralia tem 5 moradores, nenhum código postal e um fogo subterrâneo que pode arder por mais 250 anos.

Como um aterro de lixo incendiou uma cidade inteira

Em 27 de maio de 1962, cinco bombeiros voluntários foram contratados pela prefeitura de Centralia para limpar o aterro municipal antes do feriado do Memorial Day. O método era o mesmo de anos anteriores: atear fogo ao lixo acumulado numa antiga cava de mineração a céu aberto, escavada por volta de 1935, com cerca de 23 metros de largura e 15 de profundidade. Após a queima, os bombeiros apagaram as brasas com mangueiras.

Dois dias depois, moradores viram chamas novamente. Em 4 de junho, o fogo reapareceu. Ao investigar o fundo da cava, as equipes encontraram uma abertura de quase 5 metros que não havia sido vedada com material resistente ao fogo, como exigia a lei estadual desde 1958. Essa brecha conectava o aterro ao labirinto de minas de carvão abandonadas sob a cidade, conforme documenta o Departamento de Proteção Ambiental da Pensilvânia (PA DEP). O fogo encontrou uma veia de carvão antracito e começou a se alastrar pelo subsolo.

Fenda no solo revelando o brilho alaranjado do carvão ardendo no subsolo. (imagem ilustrativa)

Um incêndio que arde a 90 metros de profundidade por 13 km

O fogo de Centralia queima em profundidades de até 90 metros ao longo de uma faixa de 13 km, cobrindo cerca de 3.700 acres (15 km²). A combustão se alimenta das veias de carvão antracito que se estendem pelo subsolo da região, conectadas por túneis e galerias escavados durante mais de um século de mineração. As velhas minas abandonadas funcionam como um sistema de ventilação natural, fornecendo oxigênio ao fogo.

Entre 1962 e 1982, governos local, estadual e federal gastaram US$ 7 milhões em tentativas de apagar o incêndio. Aberturas foram seladas, trincheiras foram cavadas e as minas foram preenchidas com areia, cinzas e rocha triturada. Nenhuma das medidas funcionou. O principal obstáculo era a existência de túneis não documentados, escavados por mineradores clandestinos durante a Grande Depressão, que tornavam impossível mapear e vedar todos os caminhos do fogo.

Quem se interessa por mistérios urbanos, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Canal History Brasil, que conta com mais de 108 mil visualizações, onde é explorada a história de Centrália, a cidade na Pensilvânia que foi consumida por chamas subterrâneas:

 

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O dia em que o chão engoliu um garoto de 12 anos

Em 14 de fevereiro de 1981, o menino Todd Domboski, de 12 anos, caminhava pelo quintal de sua avó quando o solo se abriu sob seus pés. Uma cratera de 1,2 metro de largura e 46 metros de profundidade surgiu sem aviso. Todd se agarrou a uma raiz e foi puxado pelo primo de 14 anos, Eric Wolfgang. A coluna de vapor que saía do buraco continha níveis letais de monóxido de carbono.

O incidente aconteceu no mesmo dia em que políticos estaduais visitavam Centralia para avaliar a situação. A quase tragédia ganhou repercussão nacional e se tornou o ponto de virada na história da cidade. Antes disso, os moradores estavam divididos: muitos não acreditavam que o fogo representava risco real.

Leia também: 13.416 pessoas por km² e nenhum metro quadrado de área rural: a cidade mais apertada do Brasil fica colada em São Paulo

De 1.500 habitantes a 5: o esvaziamento forçado

Em 1962, Centralia tinha cerca de 1.500 moradores. Na década seguinte ao incidente com Domboski, a cidade se desfez. Em 1984, o Congresso dos Estados Unidos aprovou uma verba de US$ 42 milhões para realocar os habitantes. A maioria aceitou a oferta de compra de suas propriedades. Mais de 500 edificações foram demolidas.

Em 1992, o governador da Pensilvânia, Bob Casey, invocou o poder de domínio eminente e condenou todas as propriedades restantes. Em 2002, o serviço postal americano cancelou o código postal (ZIP code) de Centralia. O trecho da rodovia estadual Route 61 que atravessava a cidade foi fechado em 1993, e suas rachaduras no asfalto, por onde escapa vapor e fumaça, se tornaram um dos cenários mais fotografados da região.

Um pequeno grupo de moradores resistiu à remoção. Após anos de disputas judiciais, em 29 de outubro de 2013, o estado e os últimos residentes firmaram um acordo: eles poderiam permanecer em Centralia até a morte, quando as propriedades seriam revertidas ao governo. No censo de 2020, a população oficial era de 5 pessoas.

Igreja branca isolada no topo da colina cercada por névoa e árvores secas. (imagem ilustrativa)

O fogo que pode durar mais 250 anos

O PA DEP estima que o incêndio pode continuar por mais de um século. Outras projeções indicam que as reservas de carvão na região são suficientes para alimentar a combustão por mais 250 anos. O fogo não é um caso isolado: em 2007, ao menos 30 incêndios subterrâneos em minas de carvão estavam ativos apenas na Pensilvânia. Centralia, porém, permanece como o mais duradouro e o que causou maior devastação comunitária nos Estados Unidos.

Em 2021, voluntários plantaram 250 macieiras ao redor da cidade na tentativa de restaurar o ecossistema e criar habitat para a fauna local. A única igreja ainda em funcionamento, a Assunção da Virgem Maria (rito católico ucraniano), segue realizando missas aos domingos. Um estudo geológico confirmou que há rocha sólida, não carvão, sob o templo, o que o protege do colapso.

O que Centralia representa hoje

Centralia se tornou um símbolo das consequências ambientais deixadas por mais de um século de mineração sem recuperação adequada do solo. O jornalista David DeKok, autor de Fire Underground: The Ongoing Tragedy of the Centralia Mine Fire, resume a questão: o incêndio é um legado direto da devastação ambiental da era do carvão e da omissão de governos e empresas privadas diante dos riscos que permaneceram.

A cidade inspirou cenários de ficção, roteiros de documentários e reportagens em veículos do mundo inteiro. Mas para quem viveu ali, Centralia não é cenário. É a casa que não existe mais, a rua que virou mato e o fogo que ninguém conseguiu apagar.

Se você se interessa por lugares onde a natureza e a história humana colidiram de forma irreversível, Centralia é um daqueles destinos que mudam a forma de olhar para o chão que pisamos.

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