Três idiomas convivem nas ruas de Pomerode, no Vale do Itajaí, em Santa Catarina. Português, alemão e pomerano se misturam no comércio, nas escolas e nas conversas de calçada. A língua pomerana praticamente desapareceu do continente europeu após a Segunda Guerra, mas sobrevive com mais falantes no Brasil do que na própria Alemanha.
A língua que o mundo perdeu e o Brasil guardou
O pomerano é uma variedade do baixo-alemão nascida na Pomerânia, região entre os atuais territórios da Alemanha e da Polônia. Após a derrota alemã em 1945, a maior parte da Pomerânia foi anexada pela Polônia. A população alemã foi expulsa e se dispersou em regiões onde o idioma não era falado. O pomerano tornou-se uma língua moribunda na Europa em poucas décadas.
No Brasil, comunidades isoladas em terras acidentadas conseguiram mantê-lo vivo por gerações. Pomerode oficializou o alemão como língua cooficial em 2010 e, em 2017, aprovou a Lei nº 2.907, que tornou o pomerano também cooficial ao lado do português. A cidade é o único município catarinense com essa dupla cooficialização. Escolas municipais incorporaram o ensino do idioma ao currículo, e placas bilíngues sinalizam ruas e prédios públicos.

Uma colônia entre duas cidades que virou a mais alemã do país
Em 1863, imigrantes vindos da Pomerânia fundaram a colônia que daria origem a Pomerode, em posição estratégica entre Blumenau e Joinville. A localização foi incentivada pelo doutor Hermann Blumenau para fortalecer o comércio entre as duas cidades. Os colonos dividiram lotes e se dedicaram ao cultivo de arroz, batata, fumo e feijão, além da criação de animais.
A emancipação de Blumenau veio em 1959. O nome do município tem duas versões: uma liga ao ribeirão Pommaroda, outra combina Pommern (Pomerânia) com o verbo alemão rodern (preparar a terra). Em cada vila, os imigrantes ergueram o mesmo tripé: uma igreja, uma escola e um clube de caça e tiro. Essa estrutura se mantém até hoje na Pequena Alemanha de 34 mil habitantes.

Casas sem pregos que renderam selo da ONU
A técnica construtiva enxaimel usa vigas de madeira unidas por encaixes, sem pregos nem parafusos. Os vãos são preenchidos com tijolos de argila assentados com uma massa de barro, cal e fibras naturais. Pomerode reúne cerca de 250 edificações nesse estilo, a maior concentração fora da Alemanha. Só na Rota do Enxaimel, no bairro Testo Alto, são aproximadamente 50 casas tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) ao longo de 16 km.
Em 2022, a Rota do Enxaimel recebeu o selo Best Tourism Villages, da Organização das Nações Unidas (ONU), como uma das melhores vilas turísticas do mundo. O reconhecimento avaliou sustentabilidade, preservação cultural e impacto na comunidade local. É o único representante brasileiro na lista.
Quem planeja visitar Santa Catarina, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal QDestino, que conta com mais de 41 mil visualizações, onde é apresentado um roteiro completo por Pomerode, a cidade mais alemã do Brasil, com dicas de museus e gastronomia:
Dois recordes do Guinness na mesma festa de Páscoa
A Osterfest, maior celebração de Páscoa do Brasil, concentra duas marcas registradas pelo Guinness World Records. Em 2017, a Osterbaum, árvore decorada com casquinhas de ovos naturais pintadas à mão, entrou para o livro dos recordes com 82.404 unidades. Hoje, a árvore ultrapassa 110 mil casquinhas, coletadas pela comunidade ao longo do ano.
Em 2023, Pomerode recuperou o título de maior ovo decorado do mundo, com 16,72 metros de altura e 10,88 metros de largura, superando a cidade de Salou, na Espanha, que havia tomado a marca em 2021. O feito rendeu destaque na edição impressa do Guinness World Records 2024. A arte do ovo reproduz motivos florais da Cassúbia, região da Pomerânia que influenciou a cerâmica trazida pelos colonizadores.
Quando Getúlio proibiu até a língua dentro de casa
Durante a Segunda Guerra, o governo de Getúlio Vargas proibiu o uso de idiomas estrangeiros no Brasil. A campanha de nacionalização vetou a língua alemã, a arquitetura germânica e as manifestações culturais ligadas à Alemanha. Em Pomerode, colonos sofreram repressão e agressões. Muitos não falavam português e não conseguiam buscar atendimento médico.
A reação silenciosa foi esconder a herança. Famílias reformaram casas enxaimel para disfarçar a origem. O idioma recuou para o interior das residências. Décadas depois, a vergonha deu lugar ao orgulho. A Assembleia Legislativa de Santa Catarina (ALESC) reconheceu Pomerode como a cidade mais alemã do Brasil, e o turismo transformou a tradição preservada em motor econômico. A Festa Pomerana, celebração anual de janeiro, atraiu 94 mil visitantes em sua edição mais recente.

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O pomerano que resiste entre o sotaque e a escola
Pomerode guarda algo que o restante do planeta perdeu. A mesma língua que emudeceu na Europa após expulsões em massa ecoa no comércio de uma cidade de 34 mil habitantes no sul do Brasil. As casas sem pregos resistiram à guerra e ao tempo. Os ovos pintados à mão entraram para o livro dos recordes.
Você precisa caminhar pela Rota do Enxaimel em um fim de tarde, ouvir um “Guten Tag” espontâneo no balcão da padaria e entender por que essa pequena Alemanha brasileira continua tão viva.

