A tabuleta na margem da estrada anuncia “Monowi 1”. Não se refere à milhagem: é o total de habitantes. No extremo setentrional do Nebraska, a 8 quilômetros da divisa com a Dakota do Sul, existe um município constituído legalmente que conta com uma única residente, três luminárias públicas, um bar, um acervo de livros e nenhum morador ao lado. Elsie Eiler, que veio ao mundo em 1933, ocupa os cargos de prefeita, escrivã, tesoureira, responsável pela biblioteca e proprietária do estabelecimento. De acordo com o Guinness World Records, Monowi possui o título de menor quantitativo populacional dentre as cidades formalmente organizadas do globo.
De 150 habitantes a uma mulher sozinha nas planícies
Monowi surgiu em 1902, época em que o prolongamento dos trilhos da Fremont, Elkhorn and Missouri Valley Railroad atraiu famílias pioneiras para aquelas campinas. O vilarejo abrigou perto de 150 almas na década de 1930, dispondo de colégio, templo religioso, agência postal, armazéns e casas de refeição. O esvaziamento seguiu a tendência típica das Grandes Planícies: o avanço das máquinas no campo e o desmoronamento das economias interioranas após o término da Segunda Guerra Mundial conduziram os mais novos rumo às metrópoles.
Em 1980, restavam 18 moradores. No Censo de 1990, oito. No Censo de 2000, apenas dois: o casal Rudy e Elsie Eiler, que havia comprado a taverna local em 1971. Rudy faleceu em 2004, e Monowi perdeu metade da população em um único dia. Desde então, Elsie é a única habitante registrada pelo Censo dos Estados Unidos.

Uma administradora que recolhe impostos de si mesmo
Com o intuito de preservar Monowi como entidade municipal válida, Elsie executa um cerimonial administrativo que beira o risível não fosse ele concreto. A cada ciclo anual, ela subscreve a autorização para comercializar bebidas alcoólicas em seu próprio nome: obtém o papel na função de secretária do povoado, dá o aval na condição de prefeita e faz a entrega a si mesma como dona do bar. Recolhe impostos da prefeitura, valores que ela mesma arrecada. Elabora um cronograma anual de conservação das vias públicas para assegurar o repasse do governo estadual que custeia as quatro lâmpadas da rua acesas.
Desprovido desse rito burocrático, Monowi perderia a razão de ser enquanto cidade e se tornaria só mais um acúmulo de imóveis largados à margem da Rodovia 12. Elsie dedica 12 horas diárias, em seis jornadas semanais, à frente da Monowi Tavern, oferecendo sanduíches de carne moída, café e bebida gelada a agricultores das cercanias e visitantes que fazem uma parada para conhecer a menor municipalidade dos Estados Unidos.

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Cinco mil livros em homenagem ao último vizinho
Após o falecimento de Rudy, Elsie converteu a lembrança dele num espaço de leitura. A Rudy’s Library congrega por volta de 5 mil obras, todas registradas e acessíveis a quem aparecer. Não se usa ficha de inscrição nem método de empréstimo convencional: os volumes são levados na base da boa-fé. O acervo contempla obras acerca do passado regional, prosa norte-americana e enciclopédias juntadas no decorrer de muitos anos.
Rudy era um leitor insaciável. Elsie relata que ele chegava a devorar dois livros por jornada e alimentava o desejo de ter uma biblioteca aberta ao povo na cidade. Ela concretizou esse anseio depois que ele partiu. Nos dias de hoje, a biblioteca e a taverna compõem o núcleo de convívio e cultura de Monowi, cativando gente de todos os 50 estados da federação americana e de mais de 60 países, conforme declarações de Elsie a órgãos de imprensa como a BBC, a People Magazine e o Guinness.
Quem gosta de curiosidades geográficas, vai curtir este vídeo do canal Psicologia e cultura, com mais de 6 mil visualizações, onde Gusttavo Lima revela como vive Elsie Eiler em Monowi, nos Estados Unidos:
O censo de 2020 e o morador fantasma
Quando as informações do Censo 2020 vieram a público, Monowi surgiu com um contingente de dois cidadãos. Elsie achou estranho: não houvera nenhum novo morador na cidade. O esclarecimento partiu do próprio U.S. Census Bureau. O hipotético segundo residente era fruto de um mecanismo de sigilo estatístico chamado <em>differential privacy</em>, que redistribui algarismos entre setores de contagem para preservar o anonimato dos entrevistados. Em municípios de maior porte, o impacto é quase nulo. Em Monowi, ele “inventou” um vizinho de mentira.
O Bureau ratificou que Elsie prossegue sendo a única pessoa de carne e osso. O fato ganhou as manchetes do país e reavivou o interesse pelo lugar. Em 2018, a cadeia de lanchonetes Arby’s já havia optado por Monowi como palco para fixar o maior cartaz de propaganda do mundo, devidamente chancelado pelo Guinness. Em outubro de 2024, ao festejar 91 primaveras, Elsie ganhou do governante do Nebraska a patente honorária de almirante da frota naval do estado, uma pilhéria protocolar numa unidade federativa que não tem costa marítima.

O que acontece quando Elsie não estiver mais lá?
A indagação flutua sobre Monowi como a brisa constante do descampado. Sem Elsie, não haveria quem preenchesse os papéis oficiais, quem revalidasse a licença do bar, quem zelasse pelas lâmpadas dos postes. A cidade perderia a condição de autarquia e se transformaria em mais um cenário de fachadas descoradas ao longo da rodovia. Elsie tem plena ciência disso. Em diálogo com o Guinness, sintetizou com a concisão peculiar do Meio-Oeste: “Feito Monowi, eu sou casca grossa demais para bater as botas.”

