As ruas são de quartzito. As paredes das casas, das igrejas e até da delegacia também. Em São Thomé das Letras, no sul de Minas Gerais, tudo nasce da rocha que sustenta o município a 1.440 metros acima do mar. A Cidade Mística reúne lendas de túneis para o Peru, grutas com inscrições rupestres e um pôr do sol que parece engolir a serra inteira.
A pedra que ergueu a cidade e move a economia
São Thomé das Letras foi edificada sobre um largo depósito de quartzito do Neoproterozoico. Desde a década de 1940, a extração da chamada “pedra São Tomé” se tornou a base econômica do município. O material, valorizado por não reter calor, reveste bordas de piscinas, fachadas e pisos em construções de todo o Brasil e do exterior.
Em 2024, o Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI) concedeu o registro de Indicação Geográfica ao quartzito da região, reconhecendo a qualidade exclusiva da pedra extraída ali. O centro urbano reflete essa identidade: casas, muros e calçadas são montados com lascas empilhadas sem argamassa, num encaixe que lembra construções medievais. O Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA/MG) tombou o centro histórico e a Igreja Matriz em 1996.

A lenda do escravo que ganhou liberdade dentro de uma gruta
O nome da cidade vem de uma história do final do século XVIII. O escravo João Antão, fugido da fazenda do Capitão João Francisco Junqueira, refugiou-se em uma gruta no alto da serra. Segundo a lenda, um senhor de vestes brancas apareceu e lhe entregou uma carta escrita com perfeição. Ao levar o bilhete ao fazendeiro, João Antão recebeu a alforria. Na gruta, foi encontrada uma imagem de São Tomé.
Impressionado, Junqueira ordenou a construção de uma capela ao lado da gruta. A Igreja Matriz, iniciada em 1785, preserva pinturas em estilo rococó de Joaquim José da Natividade e ocupa o mesmo ponto até hoje. As “letras” do nome referem-se às inscrições rupestres encontradas na gruta original, visíveis para quem a visita.

O que visitar na cidade de Pedra e seus arredores?
A Cidade Mística concentra atrações entre grutas, mirantes e cachoeiras acessíveis a partir do centro. Condutores locais credenciados pela Prefeitura acompanham os roteiros e conhecem trilhas que não aparecem nos mapas.
- Casa da Pirâmide: construção de formato piramidal no ponto mais alto do Parque Municipal Antônio Rosa, com vista 360° da serra. O pôr do sol dali é o cartão-postal mais fotografado do município.
- Gruta de São Thomé: a caverna onde teria sido encontrada a imagem do santo. Fica ao lado da Igreja Matriz, no centro, e abriga inscrições rupestres que deram nome à cidade.
- Pedra da Bruxa: formação rochosa no alto do parque com marcas que a imaginação local associa a pegadas de uma bruxa. A trilha é íngreme e ventosa, mas a vista compensa.
- Igreja de Pedra (Nossa Senhora do Rosário): construída por escravizados no século XVIII com lascas de quartzito empilhadas sem argamassa. Tombada pelo IEPHA em 1985.
- Cachoeiras da Eubiose, Véu de Noiva e Sobradinho: quedas d’água cercadas por mata e acessíveis por estradas de terra em boas condições.
Quem busca uma viagem mística e contato com a natureza, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Casal Alencar, que conta com mais de 300 mil inscritos, onde Bruna e Adriana mostram um roteiro completo de 3 dias em São Thomé das Letras:
Existe mesmo um túnel para Machu Picchu?
A Gruta do Carimbado, a 6 km do centro pela estrada de São Bento do Abade, alimenta a lenda mais famosa de São Thomé das Letras. Segundo moradores e místicos, a caverna de quartzito seria um portal que conecta a cidade a Machu Picchu, no Peru, a 4 mil km de distância. Ninguém jamais chegou ao fundo da gruta. A Sociedade Brasileira de Espeleologia registrou 212 metros topográficos explorados.
A história ganhou alcance nacional com a minissérie Filhos do Sol, exibida pela Rede Manchete em 1991, que usou São Thomé como cenário para uma trama sobre extraterrestres e civilizações subterrâneas. A gruta está interditada por determinação do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, mas a vizinha Ladeira do Amendoim segue aberta e atrai curiosos: carros em ponto morto parecem subir sozinhos, num efeito de ilusão de óptica que ninguém se cansa de testar.
Quando a altitude favorece cada experiência?
A altitude de 1.440 metros garante noites frescas mesmo no verão. O período seco, entre maio e setembro, é o melhor para trilhas e para ver o céu limpo que alimenta os relatos de avistamentos de luzes no firmamento.
Verão
Outono
Inverno
Primavera
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar. Consulte a previsão antes de viajar.
Como chegar à cidade mística do sul de Minas?
São Thomé das Letras fica a 346 km de Belo Horizonte e a cerca de 370 km de São Paulo. O acesso principal é pela BR-381 até Três Corações e depois pelas rodovias LMG-862 e LMG-868, com trecho asfaltado. Não há aeroporto na cidade. O mais próximo fica em Varginha, a 70 km. Ônibus intermunicipais partem de Três Corações com horários limitados, por isso o carro próprio ou alugado é a opção mais prática.
Suba a serra e pise na cidade que nasce da rocha
São Thomé das Letras é um daqueles lugares que parecem pertencer a outro tempo. A cidade inteira sai da pedra, as lendas se misturam ao cotidiano dos 7 mil moradores e o horizonte se abre de um jeito que só a altitude explica.
Você precisa subir essa serra e ver com os próprios olhos a cidade onde a rocha vira casa, a gruta vira lenda e o pôr do sol na pirâmide faz qualquer explicação perder o sentido.

