Um único município brasileiro é maior que Portugal, Grécia, Islândia e Suíça. Altamira, no sudoeste do Pará, ocupa 159.533 km² de floresta amazônica e supera o território de 104 países independentes. Com apenas 138 mil habitantes, a 3ª maior cidade do mundo em extensão territorial tem menos de um morador por quilômetro quadrado.
Como um município da Amazônia ficou maior que dezenas de países
A história de Altamira começa por volta de 1750, quando missões jesuíticas se estabeleceram às margens do Rio Xingu para catequizar os povos indígenas Xipaia e Kuruaya. O município foi oficialmente criado em 6 de novembro de 1911, quando se emancipou de Souzel, segundo a Prefeitura de Altamira.
O tamanho monumental é resultado de fatores históricos. Na Amazônia, a organização administrativa criou municípios com extensões continentais e população dispersa. Até 2009, Altamira era a maior cidade do mundo. Perdeu o posto para dois municípios da Groenlândia (Qaasuitsup e Sermersooq), criados naquele ano, e hoje ocupa a 3ª posição global. Se fosse um país, seria o 92º mais extenso do planeta. Se fosse um estado brasileiro, seria o 16º maior, um pouco menor que o Paraná e maior que o Acre e o Ceará.

O que cabe dentro de um território de quase 160 mil km²
A área de Altamira equivale a cerca de 13% de todo o Pará. O município faz divisa com 13 outros e está cravado às margens do Rio Xingu, um dos rios mais impressionantes da bacia amazônica. A Rodovia Transamazônica (BR-230) corta a cidade em 60 km no sentido leste-oeste, conectando Altamira a Belém (800 km), Marabá (510 km) e Santarém (570 km).
Dentro desse perímetro existem dezenas de terras indígenas, reservas extrativistas, parques nacionais e estações ecológicas. A Floresta Nacional de Altamira funciona como zona de proteção para as comunidades indígenas Baú, Xipaia e Curuá. É também no território do município que começa a Volta Grande do Xingu, trecho sinuoso de cachoeiras onde foi construída a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, terceira maior do mundo em capacidade instalada, com 11.233 MW, conforme dados do IBGE.
Por que a Transamazônica mudou o destino de Altamira
Em 1972, o presidente Emílio Garrastazu Médici implantou o marco zero da Rodovia Transamazônica em Altamira. A estrada, planejada para ter 8 mil km e ligar o Atlântico ao Pacífico, nunca foi concluída. Mas o projeto de “integração nacional” atraiu milhares de famílias nordestinas e sulistas para a floresta, iniciando um ciclo de colonização acelerada.
A população saltou de poucos milhares para mais de 138 mil habitantes nas décadas seguintes. A cidade se consolidou como o maior centro urbano da região do Xingu, mas a Transamazônica nunca foi totalmente pavimentada. No período de chuvas, trechos ficam intransitáveis, isolando comunidades por semanas. É o paradoxo de Altamira: uma cidade com dimensões de país e uma única rodovia precária como acesso principal.
Quem busca explorar a exuberância da Amazônia, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Turismo Aqui, que conta com mais de 91 mil visualizações, onde a reportagem mostra as belezas de Altamira, no Pará, incluindo o Rio Xingu, a usina de Belo Monte e a famosa rota do chocolate:
O contraste entre tamanho territorial e densidade quase zero
Segundo o Censo 2022 do IBGE, Altamira tem 126.279 habitantes recenseados e densidade de apenas 0,79 habitante por km², uma das menores do país. Para efeito de comparação, São Paulo concentra mais de 12 milhões de pessoas em 1.521 km², enquanto Altamira distribui 138 mil moradores em uma área quase 100 vezes maior.
Essa desproporção gera desafios enormes. Alguns distritos ficam a mais de 1.000 km do centro urbano por rio. A fiscalização ambiental é complexa em um território tão vasto. Altamira liderou o ranking de maior área desmatada da Amazônia e, em 2023, foi incluída na lista de municípios prioritários para ações de combate ao desmatamento pelo governo federal. É a cidade onde o tamanho que impressiona no mapa se transforma em vulnerabilidade quando faltam condições de controle e presença do Estado.
A floresta que esconde uma cidade do tamanho de um continente
Altamira é o retrato mais radical da desproporção territorial brasileira. Um município com menos gente que muitos bairros de capitais ocupa mais espaço que a maioria dos países europeus. O Rio Xingu segue cortando esse território com seus arquipélagos, cachoeiras e comunidades ribeirinhas, enquanto a Transamazônica tenta ligar o que a floresta insiste em separar.
Entender Altamira é entender que o Brasil guarda, na profundidade de sua Amazônia, dimensões que desafiam qualquer noção convencional de cidade, fronteira ou limite.

