A 300 km de Campo Grande, uma cidade de 23.659 habitantes no Mato Grosso do Sul inventou um jeito de receber 300 mil turistas por ano sem destruir o que tem de mais valioso. Bonito é o primeiro destino de ecoturismo do planeta certificado como carbono neutro e mantém rios tão transparentes que é possível enxergar cada peixe a 30 metros de profundidade.
De onde veio o modelo que 40 países copiam?
Tudo começou em 1995 com a criação do voucher único, um sistema que limita o número de visitantes por dia em cada atrativo. O ingresso é pessoal, com hora marcada, e só pode ser comprado por agências credenciadas. Preços são tabelados, guias são obrigatórios e nenhum passeio aceita mais gente do que o ambiente suporta.
O resultado apareceu em 2013, quando Bonito levou o World Responsible Tourism Awards durante a World Travel Market (WTM) em Londres, como melhor destino de turismo responsável do mundo. Em dezembro de 2022, a cidade fez história de novo ao receber da Green Initiative, certificadora reconhecida pela ONU, o selo de primeiro destino de ecoturismo carbono neutro do planeta. Em março de 2025, a recertificação foi confirmada.

Que qualidade de vida a capital do ecoturismo oferece?
O turismo responde por mais da metade da economia local e gera emprego sem exigir que os jovens migrem para grandes centros. A renda per capita supera a média estadual. Bonito investiu em saneamento, coleta seletiva e incentivo à agricultura orgânica nos arredores da Serra da Bodoquena.
O ritmo da cidade é de interior: praça arborizada no centro, ruas limpas, restaurantes de culinária pantaneira e barzinhos com música ao vivo. Em 2014, o Mato Grosso do Sul publicou lei prevendo a neutralidade para todo o estado até 2030, antecipando em duas décadas os compromissos do Acordo de Paris. Bonito virou laboratório dessa meta.
O que fazer nos rios mais transparentes do Brasil?
A região reúne mais de 40 atrativos credenciados, distribuídos entre propriedades privadas com estrutura completa. As flutuações são a experiência mais icônica: você desce ao rio com máscara e snorkel e flutua entre cardumes, plantas aquáticas e formações calcárias.
- Rio Sucuri: classificado entre os rios mais cristalinos do mundo. Flutuação de cerca de 1,8 km em águas verde-esmeralda.
- Rio da Prata: trilha pela mata até a nascente, seguida de flutuação de 2 km com visibilidade que ultrapassa 30 metros.
- Gruta do Lago Azul: caverna tombada pelo Iphan desde 1978. O lago subterrâneo ganha tom azul intenso sob a luz do sol. Fósseis de preguiça-gigante e tigre-dente-de-sabre foram encontrados no fundo.
- Nascente Azul: flutuação em nascente de águas azuladas com tirolesa aquática e balneário.
- Abismo Anhumas: rapel de 72 metros até um lago subterrâneo onde é possível mergulhar com cilindro.
Quem sonha em explorar as águas cristalinas do Mato Grosso do Sul, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Rolê Família, que conta com mais de 50 mil visualizações, onde Paula e família apresentam os 20 melhores atrativos de Bonito e região, com dicas de preços e roteiros:
Prêmio mundial e 18 vezes o melhor do Brasil
Bonito acumula reconhecimentos que nenhum outro destino brasileiro reúne. A cidade foi eleita 18 vezes o melhor destino de ecoturismo do país pela revista Viagem e Turismo e pelo portal Melhores Destinos. Em 2024, figurou entre os dez destinos mais procurados do Brasil e recebeu mais de 313 mil turistas.
A Estância Mimosa, um dos atrativos da região, foi certificada como o primeiro destino turístico Climate Positive do mundo, absorvendo mais carbono do que emite. O modelo de Bonito inspirou práticas similares em Fernando de Noronha, Chapada dos Veadeiros e Nobres (MT).

Que sabores a culinária pantaneira guarda?
A mesa de Bonito mistura influências pantaneiras, indígenas e paraguaias. Os ingredientes vêm dos rios e do cerrado ao redor.
- Peixe pintado grelhado: carne macia e sem espinhas, servido com mandioca e arroz.
- Caldo de piranha: tradição pantaneira que virou entrada obrigatória nos restaurantes locais.
- Jacaré à pantaneira: carne exótica com textura que lembra frango, temperada com ervas do cerrado.
- Arroz boliviano com charque: herança da fronteira com a Bolívia, presente nas fazendas da região.
Como é o clima de Bonito ao longo do ano?
O clima é tropical com estação seca definida. A transparência dos rios aumenta nos meses sem chuva, entre maio e setembro, quando a visibilidade subaquática atinge o máximo.
| Estação | Meses | Temperatura | Chuva | O que fazer |
|---|---|---|---|---|
| Verão | Dez-Fev | 22-34°C | Alta | Cachoeiras e balneários |
| Outono | Mar-Mai | 18-30°C | Média | Flutuações e grutas |
| Inverno | Jun-Ago | 14-28°C | Baixa | Rios no pico de transparência |
| Primavera | Set-Nov | 20-33°C | Média | Trilhas e rapel no Anhumas |
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. A visibilidade dos rios varia conforme o volume de chuvas.
Estradas e voos que levam ao cerrado sul-mato-grossense
Bonito fica a 297 km de Campo Grande pela BR-060 e MS-382, cerca de 4h de carro por estrada asfaltada. O Aeroporto de Bonito recebe voos diretos de Campinas (Azul) e conexões via Campo Grande. De São Paulo, é possível voar até Campo Grande e seguir de carro ou transfer.
A cidade que provou que preservar dá lucro
Bonito mostrou, em quatro décadas, que controle rigoroso e turismo lucrativo são a mesma coisa. Poucos lugares no mundo conseguiram transformar regras ambientais em vantagem competitiva com tanta clareza.
Você precisa flutuar sobre os rios de Bonito, ver cada peixe como se estivesse dentro de um aquário natural e entender por que essa pequena cidade do cerrado virou referência para o planeta inteiro.

