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6,7 bilhões de metros cúbicos de água engoliram um município inteiro: a cidade brasileira que precisou ser totalmente reconstruída do zero pelo próprio povo e hoje é modelo de planejamento

Vitor Por Vitor
10/03/2026
Em Cidades

 

No sertão do Ceará, a 250 km de Fortaleza, existe uma cidade que nasceu duas vezes. A primeira, no século 17, às margens do Rio Jaguaribe. A segunda, em 2001, desenhada do zero pelos próprios moradores depois que o governo decidiu submergir a sede original sob o maior açude para múltiplos usos da América Latina. O nome permaneceu o mesmo: Jaguaribara, que em tupi significa “moradores do rio das onças”.

O açude que precisou engolir dois terços de um município

Em 1985, chegou a Jaguaribara a notícia de que o governo planejava construir ali uma barragem gigante. O projeto do Açude Castanhão vinha sendo estudado desde 1910, quando a antiga Inspetoria de Obras Contra as Secas (IOCS), hoje Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS), fez os primeiros levantamentos geológicos no Boqueirão do Cunha. O nome Castanhão veio da fazenda da família Cunha, cujas terras seriam quase inteiramente submersas.

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A obra começou em 1995 e foi inaugurada em 23 de dezembro de 2002. O reservatório armazena 6,7 bilhões de metros cúbicos de água e sozinho representa 37% de toda a capacidade de armazenamento dos 8 mil açudes cearenses. Abastece 5 milhões de pessoas, incluindo a Região Metropolitana de Fortaleza, e controla as enchentes do Vale do Jaguaribe. Para que tudo isso existisse, dois terços do território de Jaguaribara precisaram ser inundados, incluindo toda a sede urbana.

Estação Ecológica do Castanhão de nível federal, localizada em Jaguaribe (CE) // Créditos: Wikipedia

Sete anos de resistência antes de redesenhar a própria cidade

A população não aceitou calada. Durante sete anos, os jaguaribarenses lutaram contra a obra na Justiça e nas ruas. Quando ficou claro que o açude seria construído, impuseram uma condição: participar de cada decisão sobre a nova cidade. Foi criado um Grupo de Trabalho Multi-Participativo, formado por agentes públicos e representantes comunitários, que acompanhou desde o traçado das ruas até o formato das casas.

Todas as decisões foram tomadas em colegiado, segundo a Prefeitura de Jaguaribara. A Igreja Matriz de Santa Rosa de Lima ganhou uma réplica ampliada da original, erguida como símbolo de continuidade. A igreja do antigo distrito de Poço Comprido também foi replicada. Cerca de 3.600 pessoas da área urbana e outras 4.400 da zona rural foram deslocadas entre 2000 e 2001, distribuídas entre os municípios de Jaguaribara, Jaguaretama, Alto Santo e Jaguaribe.

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A primeira cidade planejada do Ceará foi inaugurada em plena caatinga

Em 25 de setembro de 2001, a nova sede foi inaugurada com saneamento, rede de esgoto e energia em 100% do território. Era a primeira cidade totalmente projetada do Ceará, erguida em meio à caatinga a cerca de 50 km da antiga sede. Ruas largas, praças generosas e equipamentos públicos dimensionados para até 70 mil habitantes compõem o desenho urbano. O Censo 2010 registrou pouco mais de 10 mil moradores, e a proporção se mantém modesta, o que dá a Jaguaribara um ritmo lento incomum para o sertão cearense.

Enquanto a nova cidade era erguida, a antiga era esvaziada. Casas foram demolidas, escombros se acumularam e, aos poucos, a água tomou conta. Nos períodos de seca prolongada, quando o nível do Castanhão baixa drasticamente, ruínas da velha Jaguaribara reaparecem, como o monumento a Tristão Gonçalves de Alencar Araripe, herói da Confederação do Equador, erguido em 1924 pelo Instituto Histórico do Ceará e hoje parcialmente visível entre as águas.

Quem se interessa pela história de cidades que deram lugar ao progresso, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Diário do Nordeste, que conta com mais de 645 mil inscritos, onde é narrada a emocionante trajetória de Jaguaribara, no Ceará, a cidade que foi inundada para a construção do Castanhão, o maior açude do Brasil:

Um herói da Confederação do Equador dorme sob as águas do açude

A história de Jaguaribara é mais antiga do que o açude. No final do século 17, colonizadores portugueses instalaram a Fazenda de Santa Rosa às margens do Jaguaribe, em terras antes ocupadas pelos indígenas Cariris. Em 1824, a região foi palco de um dos episódios mais dramáticos da Confederação do Equador: Tristão Gonçalves, presidente da confederação cearense, foi capturado e morto às margens do rio. Seus restos foram supostamente sepultados na capela do povoado, hoje submersa.

Jaguaribara virou distrito de Jaguaretama e só ganhou autonomia municipal em 1957. A economia girava em torno da pecuária e da agricultura de vazante. Com o Castanhão, a piscicultura no açude se tornou a nova base econômica: a produção de tilápia em cativeiro chegou a ser uma das maiores do Nordeste, embora as secas recentes tenham reduzido o volume do reservatório e trazido desafios ao setor.

A cidade que o sertão engoliu e o povo reconstruiu

Jaguaribara carrega uma história que nenhum outro município cearense consegue contar. Foi esvaziada, demolida e submersa para que 5 milhões de pessoas tivessem água. Em troca, seus moradores desenharam a própria cidade, rua por rua, e ergueram réplicas das igrejas para não perder a memória.

Você precisa caminhar pelas ruas largas de Nova Jaguaribara e entender o que significa recomeçar a 50 km de tudo o que se conhecia, num lugar que precisou ser inventado para continuar existindo.

 

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