Fundada em 1970 como vitrine do programa nuclear soviético, Pripyat reunia jovens engenheiros, escolas modernas e até um parque de diversões prestes a ser inaugurado. No dia 27 de abril de 1986, alto-falantes ordenaram a saída de toda a população. Ninguém voltou. Quase quatro décadas depois, a cidade permanece vazia no norte da Ucrânia, cercada por uma zona de exclusão onde os níveis de radiação ainda impedem qualquer forma de moradia permanente.
A nona cidade atômica da União Soviética
Pripyat nasceu como a nona atomgrad, categoria de cidade-satélite construída para abrigar trabalhadores de usinas nucleares. Erguida a 3 km da Usina Nuclear de Chernobyl e a cerca de 100 km de Kiev, a cidade foi projetada por arquitetos de Moscou com traçado radial, avenidas arborizadas e cinco microrregiões dotadas de escolas, clínicas e comércio próprio. O projeto original previa capacidade para 75 a 85 mil moradores, segundo registros do Museu de História Local de Slavutych.
Em janeiro de 1986, Pripyat contava com 49.400 habitantes. A idade média era de 26 anos. A infraestrutura incluía 160 blocos de apartamentos com 13.414 unidades, 15 escolas infantis, cinco escolas secundárias, um hospital com 410 leitos, 25 lojas, 27 cafeterias e três piscinas. O padrão de vida superava o de muitas cidades soviéticas da época. Engenheiros nucleares de cerca de 30 nacionalidades viviam ali com suas famílias.

36 horas de silêncio entre a explosão e a ordem de saída
Na madrugada de 26 de abril de 1986, às 01h23, o reator nº 4 da usina explodiu durante um teste de segurança conduzido em condições irregulares. Elementos radioativos como plutônio, iodo-131, estrôncio-90 e césio-137 foram lançados na atmosfera, segundo a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). A AIEA classifica o evento no nível 7 da Escala Internacional de Eventos Nucleares, o grau máximo, compartilhado apenas com Fukushima em 2011.
Os moradores de Pripyat não foram avisados imediatamente. Na manhã do sábado, crianças brincavam ao ar livre, pescadores iam ao lago de resfriamento e um casamento foi celebrado em um café da cidade. Muitos sentiram gosto metálico na boca e náuseas, sintomas clássicos de exposição à radiação, mas sem nenhum comunicado oficial. Só na tarde do dia 27, por volta das 14h, alto-falantes anunciaram a evacuação. Os moradores receberam ordem de levar apenas documentos e pertences essenciais, com a promessa de retorno em três dias. Cerca de 1.100 ônibus, reunidos de toda a região de Kiev, transportaram a população em poucas horas.
Quem tem curiosidade sobre destinos históricos e abandonados, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Sou Mochileiro, que conta com mais de 3,9 milhões de visualizações, onde Renato Garcia mostra a realidade surreal da cidade-fantasma de Pripyat, na Ucrânia:
O parque de diversões que nunca abriu
Um dos símbolos mais conhecidos de Pripyat é a roda-gigante amarela do parque de diversões municipal. A inauguração estava marcada para 1º de maio de 1986, cinco dias após a explosão. As crianças nunca chegaram a brincar ali. Hoje, a roda-gigante enferrujada aparece em fotografias e documentários como ícone da cidade abandonada. Visitantes que monitoraram o local com contadores Geiger encontraram, em um dos assentos, radiação até mil vezes acima da média registrada no restante da zona de exclusão.
Outros marcos congelados no tempo incluem o Palácio da Cultura Energetik, cujo nome fazia trocadilho entre “energético” e “trabalhador da usina”, o Hotel Polissya, um dos edifícios mais altos da cidade, e o Cinema Prometheus, com mosaico decorativo de 1975 preservado na fachada. Árvores cresceram através de janelas, pisos e telhados, transformando avenidas planejadas em uma floresta urbana.
Quanto tempo até Pripyat voltar a ser habitável?
A resposta depende dos isótopos. O iodo-131, que causou milhares de casos de câncer de tireoide em crianças, tem meia-vida de apenas oito dias e praticamente desapareceu semanas após o acidente. O césio-137, contaminante mais persistente na superfície, possui meia-vida de cerca de 30 anos. Após quatro décadas, boa parte dele já decaiu, o que explica por que, em maio de 2025, cerca de 100 hectares da zona de exclusão foram declarados seguros para uso agrícola.
Na maior parte de Pripyat, a radiação ambiental hoje não ultrapassa 1 μSv (microsievert) por hora, nível tolerável para visitas curtas. Contudo, bolsões de contaminação persistem, especialmente em musgos, vegetação rasteira e na chamada Floresta Vermelha, faixa de 4 km² de pinheiros que morreram logo após o desastre. Isótopos mais pesados, como o plutônio-239, com meia-vida de 24.100 anos, garantem que partes da zona de exclusão permanecerão restritas por milênios. Cientistas e a própria AIEA consideram a região inabitável para moradia permanente no horizonte de milhares de anos.

O sarcófago de €1,5 bilhão sobre o reator destruído
Nos meses seguintes ao acidente, equipes soviéticas ergueram um sarcófago emergencial de concreto e aço sobre o reator 4 em apenas 206 dias. A estrutura, porém, apresentava fissuras e não era selada ao solo. Em 2016, o Novo Confinamento Seguro, financiado por mais de 40 países e gerenciado pelo Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento (BERD), foi deslizado sobre o antigo sarcófago. Com 257 metros de vão, 108 metros de altura e 36 mil toneladas, é a maior estrutura móvel terrestre já construída.
A obra custou €1,5 bilhão, parte de um plano mais amplo de €2,1 bilhões. O arco foi projetado para confinar os restos radioativos por 100 anos e permitir, no futuro, a desmontagem do reator por guindastes automatizados operados de uma sala de controle interna. Em fevereiro de 2025, um ataque com drone durante o conflito entre Rússia e Ucrânia atingiu a estrutura, levantando preocupações sobre sua integridade a longo prazo.
Pripyat permanece em silêncio
Quatro décadas separaram a cidade-modelo soviética da ruína silenciosa que ela se tornou. As avenidas projetadas para 85 mil moradores hoje pertencem a lobos, alces e javalis que repovoaram a zona de exclusão. Os blocos de apartamentos, os cafés, a piscina olímpica e a roda-gigante continuam de pé, corroídos pelo tempo e pela vegetação, como registros materiais de um desastre que redesenhou os limites da engenharia nuclear.
Se um dia puder, visite a zona de exclusão de Chernobyl e caminhe pelas ruas de Pripyat, a cidade que nasceu como promessa e se transformou no lembrete mais visível de que certas decisões cobram um preço medido em milênios.

