Dois arranha-céus paralelos, revestidos de espelho, cortando o deserto por 170 km. Zero carros, zero emissões de carbono, 9 milhões de moradores. O projeto The Line nasceu como a peça central de NEOM, o megacomplexo de US$ 500 bilhões que a Arábia Saudita quer erguer no noroeste do país, à beira do Mar Vermelho.
O que é The Line e por que o mundo inteiro parou para olhar
Anunciada em janeiro de 2021 pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, The Line é uma cidade linear planejada para ter 500 metros de altura, 200 metros de largura e 170 km de extensão, segundo o site oficial da NEOM. A fachada externa seria inteiramente espelhada, refletindo a paisagem do deserto de Tabuk. A ideia prevê que qualquer morador acesse serviços básicos, como escolas, clínicas e mercados, em caminhadas de no máximo cinco minutos.
O conceito se chama “urbanismo em gravidade zero”: em vez de ruas horizontais, a cidade empilha camadas verticais de transporte, moradia, comércio e parques. Um trem de alta velocidade subterrâneo, chamado Spine, conectaria as duas pontas em 20 minutos, a 510 km/h. A ocupação total de solo seria de apenas 34 km², segundo a NEOM, uma fração do que cidades com população semelhante exigem.

Os números que desafiam qualquer comparação
Os dados técnicos de The Line impressionam mesmo antes de sair do papel. Para dimensionar a escala do projeto, vale comparar com referências conhecidas:
| Dado | The Line | Referência |
|---|---|---|
| Extensão | 170 km | Distância entre São Paulo e Campinas |
| Altura | 500 m | Maior que o Empire State Building (443 m) |
| Largura | 200 m | Dois campos de futebol lado a lado |
| População prevista | 9 milhões | 25% da população da Arábia Saudita em 2022 |
| Densidade planejada | 260 mil/km² | 6 vezes a de Manila, a cidade mais densa do mundo |
| Investimento total | US$ 500 bilhões | Parte do Saudi Vision 2030 |
Fontes: NEOM e Encyclopaedia Britannica.
Um estádio a 350 metros de altura e a Copa de 2034
A Arábia Saudita incluiu na candidatura para sediar a Copa do Mundo de 2034 o NEOM Stadium, uma arena planejada para o topo de The Line, a cerca de 350 metros do solo. O estádio teria capacidade para 46 mil pessoas, gramado híbrido em padrão FIFA e operação 100% elétrica. A previsão é que as obras comecem em 2027 e a entrega aconteça em 2032, segundo documentos da candidatura saudita.
Se concluído, será o estádio mais alto do mundo já construído, embutido na estrutura linear da cidade. A conexão com o sistema de transporte de alta velocidade permitiria que torcedores chegassem sem usar carros, mantendo o conceito de emissão zero do projeto.
A ideia tem 140 anos e veio da Espanha
O conceito de cidade linear não é novo. Em 1882, o urbanista espanhol Arturo Soria imaginou uma cidade organizada ao longo de uma linha de bonde em Madri. Na década de 1950, o arquiteto franco-húngaro Yona Friedman propôs a “cidade espacial”, modular e vertical. Nenhuma das duas ideias saiu da teoria. The Line é a primeira tentativa de executar esse conceito em escala real, quase um século e meio depois da proposta original.

O que já saiu do papel e o que mudou de rota
Até meados de 2025, imagens de satélite e registros de obra mostravam escavações massivas, fundações com estacas de 2,5 metros de diâmetro e 70 metros de profundidade, além de uma fábrica de concreto dedicada ao projeto. A seção inicial, chamada Hidden Marina, tem 2,4 km e previa acomodar cerca de 200 mil a 300 mil moradores até 2030.
O plano original previa 20 módulos habitacionais, mas revisões sucessivas reduziram o escopo para três módulos. Segundo reportagem da CNBC, o fundo soberano saudita (PIF) contratou consultorias para reavaliar a viabilidade do projeto. Em setembro de 2025, o PIF registrou uma baixa contábil de US$ 8 bilhões em projetos ligados à NEOM e suspendeu novas contratações de obra. A conclusão total de 170 km, antes prevista para 2030, foi adiada para 2045.
Quem se interessa por arquitetura futurista, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Investiga, Pinhel!, que conta com mais de 269 mil visualizações, onde o apresentador mostra detalhes sobre a construção da The Line, a megacidade de 1 trilhão de dólares na Arábia Saudita:
The Line ainda vai sair do deserto?
The Line é, ao mesmo tempo, o projeto urbanístico mais ambicioso do século XXI e um dos mais controversos. A escala desafia a engenharia, o orçamento desafia a economia saudita e o deslocamento forçado de tribos locais como os Howeitat gerou condenações de organizações de direitos humanos. Mais de 20 escritórios de arquitetura internacionais participaram do projeto, incluindo Zaha Hadid Architects, OMA e BIG, todos sob acordos de confidencialidade.
Mesmo com os atrasos, a obra já alterou a paisagem do deserto de Tabuk de forma visível em imagens de satélite. Jerry Inzerillo, CEO do projeto Diriyah (outro megaprojeto saudita), descreveu The Line não como um fracasso, mas como “um laboratório para o que a qualidade de vida pode parecer em 2040”. O futuro dirá se o espelho no deserto vai refletir uma revolução urbana ou os limites da ambição humana.

