A construção civil é responsável por quase 8% das emissões globais de CO₂, em grande parte por causa do concreto. Pesquisadores do Instituto Politécnico de Worcester (WPI), nos EUA, desenvolveram um bloco de construção que inverte essa lógica: em vez de emitir carbono durante a fabricação, o material retira CO₂ diretamente do ar, cura em poucas horas e dispensa temperaturas elevadas no processo.
O que é o ESM e como um bloco de construção consegue sequestrar carbono?
O material foi batizado de ESM (enzymatic structural material) e tem como base a enzima anidrase carbônica, que converte dióxido de carbono em partículas minerais sólidas por um processo bioinspirado. Depois que essas partículas são formadas, elas são unidas e curadas sob condições suaves, gerando peças estruturais em poucas horas, sem as temperaturas elevadas típicas da produção do cimento convencional.
O projeto foi liderado por Nima Rahbar, professor e chefe do Departamento de Engenharia Civil, Ambiental e Arquitetônica do WPI. Os resultados foram publicados na revista científica Matter em janeiro de 2026. A lógica central do ESM é uma inversão direta do que acontece com o concreto tradicional: em vez de liberar carbono para produzir o material, o processo usa esse carbono como matéria-prima estrutural.

Por que o concreto convencional é o ponto de partida da comparação?
O concreto é o material de construção mais usado no planeta, e produzir um metro cúbico dele emite cerca de 330 quilos de CO₂ na atmosfera. Segundo o comunicado oficial do WPI, produzir um metro cúbico do ESM sequestra mais de 6 quilos de CO₂ durante a fabricação.
A diferença não está apenas no número, mas na direção do impacto. “O que nossa equipe desenvolveu é uma alternativa prática e escalável que não apenas reduz emissões”, disse Rahbar, “ela de fato captura carbono.” Esse deslocamento de lógica é o que coloca o ESM em uma categoria diferente de qualquer outro material construtivo sustentável disponível hoje.
O canal WPI, com mais de 11,2 mil inscritos, publicou o vídeo a seguir com a participação do professor Nima Rahbar detalhando o desenvolvimento do ESM e o que o material representa para o futuro da construção:
O novo bloco de construção também é competitivo em desempenho estrutural?
Um material mais limpo só ganha adoção real se for competitivo na prática. O ESM foi projetado para ser forte, durável, reciclável e reparável, respondendo diretamente às exigências do setor. A cura rápida amplia esse argumento: enquanto o concreto convencional pode levar semanas para atingir resistência completa, o ESM pode ser moldado e curado em questão de horas.
Conforme a cobertura do Science Daily, o material também permite reparos pontuais em vez de substituição completa da peça, reduzindo resíduos e custos ao longo de todo o ciclo de vida da construção. Raramente uma inovação construtiva reúne ao mesmo tempo velocidade de cura, desempenho estrutural e impacto ambiental positivo.
Onde o bloco de construção com ESM pode ser aplicado já nesta fase?
Os pesquisadores identificaram usos diretos para o ESM ainda nesta fase de desenvolvimento. Os principais campos de aplicação previstos são:
- Lajes de cobertura e painéis de parede em construções convencionais e modulares, onde a cura rápida reduz o prazo de obra;
- Habitações acessíveis, nas quais o custo reduzido e a velocidade de produção são fatores decisivos para viabilizar o projeto;
- Infraestrutura resiliente às mudanças climáticas, com menor impacto ambiental tanto na produção quanto na manutenção;
- Reconstrução pós-desastre, onde a cura em poucas horas e o peso reduzido aceleram o retorno das comunidades afetadas.

O ESM ainda precisa provar escalabilidade, mas o conceito já mudou a conversa
A comparação direta entre os dois materiais deixa clara a dimensão da diferença que o ESM representa para o setor:
| Critério | Concreto convencional | Bloco de construção ESM |
|---|---|---|
| Emissão de CO₂ por m³ | ~330 kg emitidos | Mais de 6 kg sequestrados |
| Tempo de cura | Semanas | Poucas horas |
| Temperatura de produção | Elevada | Condições suaves |
| Reciclabilidade | Limitada | Sim, com reparo pontual |
Questões de durabilidade em longo prazo e escalabilidade industrial ainda precisam de estudo aprofundado antes de uma adoção ampla. Mas o princípio já é consistente: transformar carbono atmosférico em parte da solução estrutural, e não em subproduto do processo.
Se uma fração da construção global migrar para o ESM, o impacto pode ser enorme
O bloco de construção com captura ativa de CO₂ propõe uma mudança de lógica para o setor inteiro. O segmento que hoje responde por quase 8% das emissões globais pode passar a ser parte ativa da solução climática, e não apenas um emissor tentando se tornar menos prejudicial.
“Se mesmo uma fração da construção global migrar para materiais com emissão negativa como o ESM, o impacto pode ser enorme”, disse Rahbar. Não se trata de substituir o concreto amanhã, mas de provar que existe outro caminho. Esse caminho já começou a tomar forma dentro de um laboratório em Worcester.

