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Consignado e previdência: como o Banco Master usou o dinheiro do servidor para sustentar seu crescimento

Entre 2018 e 2024, crescimento do Banco Master foi impulsionado pelo crédito consignado a servidores públicos e pela captação de recursos de regimes próprios de previdência

Redação BM&C NewsPor Redação BM&C News
05/02/2026

Série Especial BM&C News | O Caminho do Dinheiro Público no Caso Master

Esta reportagem integra a série especial O Caminho do Dinheiro Público no Caso Master, uma investigação da BM&C News baseada em documentos financeiros, dados públicos e registros de órgãos de controle para analisar o modelo de crescimento do Banco Master e seus impactos sobre o sistema financeiro e previdenciário.

Banco Master, consignado e previdência: a alavancagem

Entre 2018 e 2024, o Banco Master registrou uma expansão acelerada de receitas e de sua carteira de crédito, sustentada principalmente por duas frentes complementares: a ampliação do crédito consignado a servidores públicos e a captação de recursos junto a regimes próprios de previdência social (RPPS) de estados e municípios.

Levantamento realizado pela BM&C News, com base em demonstrativos financeiros publicados pelo Banco Central, entre 2018 e 2024, o modelo combinou fluxo de caixa previsível, margens elevadas e funding institucional com grande participação do setor público, criando uma interdependência entre consignado, previdência e crescimento bancário.

No período, a receita de intermediação financeira do Banco Master saltou de R$ 55,8 milhões, em 2018, para R$ 5,37 bilhões em 2024. A margem financeira acompanhou o movimento, avançando de R$ 55,8 milhões para R$ 1,94 bilhão.

O crescimento não se deu apenas por expansão orgânica tradicional, mas por uma mudança estrutural no perfil de atuação da instituição, cada vez mais concentrada no binômio consignado e previdência.

O consignado como eixo do modelo

O crédito consignado, especialmente aquele concedido a servidores públicos como o CredCesta da Bahia, tornou-se o principal motor do modelo de negócios do Banco Master. Trata-se de uma modalidade marcada por desconto direto em folha de pagamento, inadimplência quase zero e elevado grau de previsibilidade de receitas, características que permitem spreads superiores aos observados em outras linhas de crédito.

Dados do balanço indicam que, enquanto em 2018 o banco praticamente não operava consignado, em 2024 essa modalidade já respondia por cerca de R$ 920 milhões da carteira de pessoa física. Mais relevante, porém, é a concentração setorial: a exposição do Banco Master a atividades ligadas à administração pública, defesa e seguridade social alcançou R$ 8,73 bilhões, segundo a segmentação por atividade econômica apresentada nas notas explicativas, evidenciando a dependência direta do setor público como tomador de crédito.

Esse fluxo recorrente de pagamentos, garantido pelo desconto em folha, passou a sustentar não apenas a geração de receita do banco, mas também sua capacidade de captação no mercado financeiro.

A entrada do dinheiro da previdência

Paralelamente à expansão do consignado, o Banco Master intensificou a captação de recursos junto a investidores institucionais, especialmente regimes próprios de previdência de estados e municípios. Entre outubro de 2023 e dezembro de 2024, ao menos 18 entidades previdenciárias públicas aplicaram cerca de R$ 1,87 bilhão em títulos do banco, principalmente por meio de letras financeiras.

Entre os principais investidores está o Rioprevidência, fundo responsável pelo pagamento de aposentadorias e pensões dos servidores do Estado do Rio de Janeiro, com aproximadamente R$ 960 milhões aplicados. Também aparecem fundos previdenciários do Amapá, Amazonas, municípios paulistas e capitais como Maceió. Em alguns casos, os aportes representaram parcelas relevantes do patrimônio dos regimes.

As letras financeiras são instrumentos típicos de investidores institucionais e não contam com cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Diferentemente de CDBs voltados ao varejo, esses papéis transferem integralmente o risco de crédito ao investidor, exigindo análise aprofundada de liquidez, governança e solvência da instituição emissora.

Chama a atenção o fato de que, enquanto os RPPS ampliaram a exposição ao Banco Master, grandes fundos fechados de previdência complementar, como Previ, Funcef e Petros, não registraram investimentos na instituição. Essas entidades estão submetidas a regras mais rigorosas de governança e supervisão pela Previc, enquanto os RPPS operam sob um arcabouço de fiscalização mais fragmentado, envolvendo Ministério da Previdência e tribunais de contas.

Um circuito fechado de recursos públicos

A combinação entre consignado e previdência criou um circuito financeiro fechado dentro do próprio setor público. O servidor aparece, de um lado, como tomador de crédito consignado, pagando juros descontados diretamente do salário, e, de outro, como investidor indireto, por meio dos regimes próprios de previdência que aplicaram recursos nos títulos do Banco Master.

Na prática, o salário do servidor alimenta o consignado; o consignado gera receita previsível ao banco; essa previsibilidade sustenta a emissão de títulos; e os títulos são adquiridos com recursos destinados ao pagamento futuro das aposentadorias dos próprios servidores. Embora cada operação, isoladamente, seja legal, o arranjo amplia a concentração de risco dentro de um mesmo grupo econômico e social. Até o momento, não há decisão judicial que declare ilegalidade nas operações em si.

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Risco, liquidez e concentração

A estratégia de crescimento do Banco Master envolveu ainda uma captação agressiva, com títulos remunerados acima da média de mercado. Investigações conduzidas pela Polícia Federal e acompanhadas pelo Banco Central indicam que parte dos ativos da instituição apresentava baixa liquidez, contribuindo para um descasamento entre ativos e passivos.

A liquidação extrajudicial do banco pelo Banco Central expôs esse desequilíbrio e abriu a perspectiva de perdas relevantes para investidores institucionais sem proteção do FGC, incluindo regimes próprios de previdência.

Nesse contexto, o risco extrapola a instituição. A concentração de recursos previdenciários em um único banco, associada à dependência de regras administrativas e convênios públicos que sustentam o consignado, amplia o potencial de contágio sobre o sistema previdenciário e financeiro.

Banco Master, consignado e previdência: um modelo sob escrutínio

A trajetória do Banco Master mostra como o crédito consignado público, combinado à captação de recursos da previdência, pode sustentar crescimento acelerado. Ao mesmo tempo, expõe os limites de um modelo excessivamente dependente do setor público, no qual o dinheiro do servidor financia, direta ou indiretamente, o próprio sistema de endividamento do qual ele faz parte.

Com a liquidação da instituição e o avanço das investigações, o Caso Master tende a se tornar referência no debate sobre governança, risco sistêmico e uso de recursos previdenciários públicos no sistema financeiro brasileiro.

A BM&C News procurou o Banco Master e os regimes próprios de previdência citados para comentar os dados apresentados nesta reportagem. Até a publicação, não houve manifestação. O espaço permanece aberto.

O CAMINHO DO DINHIERO PÚBLICO NO MASTER

Foto: BM&C News

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