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Arquitetos holandeses criaram um bairro de 46 casas que flutuam durante enchentes e abrigam mais de 100 moradores

Laila Por Laila
02/04/2026
Em Arquitetura

Imagine morar numa casa que, em vez de ser destruída pela enchente, simplesmente sobe com a água e você continua dentro dela com luz, água e gás funcionando normalmente. Esse é o princípio das casas anfíbias, desenvolvidas pioneiramente na Holanda a partir de 2005 e que já se espalharam pelo Reino Unido, Bélgica e estão sendo estudadas para cidades brasileiras vulneráveis a inundações.

Como funciona a estrutura que faz uma casa flutuar?

Uma casa anfíbia é construída sobre fundações fixas normais, mas com uma diferença estrutural decisiva: a base é uma cuba de concreto oca, chamada de casco, que atua como pontão e garante flutuabilidade quando a água sobe. Essa estrutura repousa dentro de uma doca úmida, um recinto escavado no solo com paredes de contenção laterais e base impermeável.

Quando a enchente chega, a doca se enche de água e a casa sobe verticalmente. Quatro postes-guia verticais, chamados de dolphins na engenharia britânica, fixados nas laterais da doca, impedem qualquer movimentação lateral ou rotação da estrutura enquanto ela flutua.

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Uma casa anfíbia é construída sobre fundações fixas normais, mas com uma diferença estrutural decisiva: a base é uma cuba de concreto oca, chamada de casco

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Qual foi a primeira casa anfíbia aprovada oficialmente no Reino Unido?

O projeto mais documentado de casa anfíbia individual é a Formosa, projetada pelo escritório britânico Baca Architects, dos arquitetos Richard Coutts e Robert Barker, às margens do Rio Tâmisa em Buckinghamshire, no Reino Unido. Foi a primeira casa anfíbia aprovada pelas autoridades britânicas.

Com 225 metros quadrados, a estrutura foi dimensionada para suportar até 2,5 metros de água de enchente acima do nível normal do terreno. Todas as conexões de serviço, como eletricidade, água, esgoto e gás, são feitas com tubulações flexíveis que se estendem conforme a casa sobe, permitindo que os moradores permaneçam dentro durante a inundação.

As principais características técnicas do sistema anfíbio são:

  • Base de concreto oca (casco) que garante flutuabilidade estrutural
  • Doca úmida escavada no solo com contenção lateral impermeável
  • Quatro postes-guia verticais que impedem rotação durante a subida
  • Tubulações flexíveis de água, luz, gás e esgoto que acompanham o movimento
  • Capacidade de subida de até 5,5 metros no modelo holandês de Maasbommel
Todas as conexões de serviço, como eletricidade, água, esgoto e gás, são feitas com tubulações flexíveis

Como a Holanda escalou o conceito para bairros inteiros?

Em Maasbommel, às margens do Rio Mosa, 32 casas anfíbias foram construídas em 2005 dentro do programa governamental Ruimte voor de Rivier (“Espaço para o Rio”), com fundações ocas de concreto ancoradas a postes de aço que permitem subida vertical de até 5,5 metros.

Em Amsterdã, o bairro flutuante Schoonschip, concluído em 2021, reúne 46 casas em 30 lotes aquáticos com sistemas descentralizados de energia solar, gestão de água e resíduos, abrigando mais de 100 moradores permanentes. “Nós nos sentimos mais seguros durante a tempestade porque flutuamos”, relatou a moradora Siti Boelen em entrevista à BBC em dezembro de 2025.

O canal Fatos Revelados, com mais de 15,4 mil inscritos no YouTube, apresenta oito exemplos de arquitetura resiliente ao redor do mundo, incluindo as casas anfíbias holandesas e outras construções projetadas para enfrentar enchentes, terremotos e séculos de uso:

Quais são os desafios práticos do dia a dia nessas casas?

Um dos desafios menos óbvios das casas anfíbias é a rotina dos animais domésticos durante as fases de flutuação. As docas bem projetadas incluem passarelas articuladas e rampas de acesso que acompanham o movimento vertical da estrutura, garantindo que cães e moradores possam entrar e sair mesmo quando a casa está metros acima do nível do solo.

Em bairros como o Schoonschip, os píeres conectores entre as casas são dimensionados para esse uso cotidiano durante os eventos de inundação. A integração entre mobilidade vertical e rotina doméstica é um dos critérios centrais no projeto dessas estruturas.

As docas bem projetadas incluem passarelas articuladas e rampas de acesso que acompanham o movimento vertical da estrutura, garantindo que cães e moradores possam entrar e sair mesmo quando a casa está metros acima do nível do solo

O Brasil pode adotar casas anfíbias em cidades sujeitas a enchentes?

O principal obstáculo à adoção em massa ainda é o custo: casas anfíbias são sistematicamente mais caras do que construções convencionais no mesmo terreno, pela complexidade da fundação e dos sistemas flexíveis de infraestrutura. O arquiteto holandês Koen Olthuis, fundador do Waterstudio em 2003, argumenta que a padronização dos elementos construtivos tem potencial de reduzir os custos com o aumento da escala.

A Holanda exporta ativamente o conceito e o Brasil, com cidades como Porto Alegre e Recife cronicamente atingidas por enchentes, figura entre os mercados com maior potencial de adoção. Diante do aumento global das inundações, a casa que sobe com a água deixou de ser uma curiosidade arquitetônica e passou a ser uma resposta concreta a um problema que cresce a cada temporada de chuvas.

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