A aproximação de Dario Durigan, ministro da Fazenda e consultor econômico da campanha de Lula, com nomes como Armínio Fraga, Marcos Lisboa, Samuel Pessoa e Pedro Malan coloca em evidência uma questão central: o diálogo representa uma mudança estrutural na forma como o PT pretende enfrentar a armadilha fiscal brasileira, ou funciona como gesto eleitoral para tranquilizar mercado e centro político? A pergunta foi levantada pelo economista Vandyck Silveira, em comentário realizado pela BM&C News, que avalia o movimento como insuficiente diante da ausência de um plano fiscal detalhado.
Na avaliação apresentada, o Brasil enfrenta uma armadilha fiscal que não comporta mais improvisação. As saídas disponíveis são duras: inflação elevada por vários anos ou alguma modalidade de default parcial. Nenhuma delas foi explicitada em propostas concretas por nenhum dos principais presidenciáveis, incluindo o PT e outros candidatos como Flávio.
Escutar o mercado não substitui apresentar como a conta será paga
Vandyck questiona se as reuniões com economistas de perfil ortodoxo traduzem-se em compromissos fiscais reais ou servem apenas para construir uma narrativa de responsabilidade sem ancoragem em medidas práticas. O problema, segundo ele, não está no gesto de diálogo, mas na falta de transparência sobre quem pagará a conta do ajuste e como isso será feito.
Para Silveira, a dinâmica política brasileira tem repetido o erro de prometer equilíbrio sem detalhar sacrifícios. A questão fiscal exige definições sobre corte de gastos, revisão de subsídios, reforma tributária efetiva ou aumento de carga — escolhas que nenhuma campanha tem apresentado com clareza ao eleitorado.
Juros externos e câmbio pressionam cenário já frágil
Outro ponto abordado foi o impacto dos juros longos nos Estados Unidos sobre a taxa de juros e o câmbio no Brasil. Na avaliação de Vandyck Silveira, a pressão externa agrava a fragilidade doméstica e reduz a margem de manobra para qualquer governo que assuma em 2027. O risco-país tende a subir se não houver sinalização concreta de ajuste, e o custo do financiamento da dívida continuará pressionando o orçamento.
O mercado não reage ao discurso, reage ao risco. E o risco fiscal brasileiro segue sem resposta estrutural, independentemente de quem esteja conversando com quem nos bastidores de campanha.
Transparência fiscal define credibilidade, não lista de interlocutores
Silveira encerra a análise com uma provocação: a necessidade de clareza nas propostas econômicas não é uma exigência do mercado financeiro, mas uma condição para que eleitores e investidores avaliem o que está em jogo. Sem um plano detalhado, o diálogo com economistas renomados corre o risco de ser visto como tática de imagem, não como mudança de rota.
A armadilha fiscal brasileira exige mais do que boa vontade, exige escolhas explícitas sobre quem ganha, quem perde e como o país pretende sair do ciclo de endividamento crescente.
Assista à entrevista completa da BM&C News no link abaixo:
