Existe uma ironia particularmente brasileira acontecendo neste momento. Depois de mais de duas décadas de negociações, encontros diplomáticos, discursos sobre integração econômica e celebrações em torno do acordo Mercosul-União Europeia, o Brasil acaba de descobrir que assinar um acordo comercial e poder exportar são duas coisas completamente diferentes.
Enquanto Brasília comemorava o avanço histórico do tratado, Bruxelas fazia uma pergunta muito mais simples: “Vocês trouxeram a documentação?” A resposta, aparentemente, foi não.
A União Europeia decidiu retirar o Brasil da lista de países autorizados a exportar determinados produtos de origem animal para o bloco a partir de 3 de setembro de 2026. O motivo oficial é a ausência das garantias formais exigidas pelas novas regras europeias relacionadas ao uso de antimicrobianos na produção animal.
O detalhe que chama atenção não é apenas a decisão. É o fato de que o Brasil foi o único país latino-americano relevante a ficar de fora da lista. E isso transforma um problema regulatório em algo muito maior. Transforma-o em um sinal político.
Naturalmente, a primeira reação é perguntar: como isso aconteceu? Estamos falando do maior exportador mundial de proteína animal. Um país que abastece supermercados, restaurantes e indústrias alimentícias em dezenas de mercados altamente exigentes. É difícil acreditar que simplesmente esqueceram de enviar um documento. A hipótese mais provável é que a questão seja mais complexa do que parece.
As novas exigências europeias envolvem sistemas de comprovação, rastreabilidade e monitoramento do uso de substâncias consideradas críticas para a saúde humana. Isso exige integração entre órgãos reguladores, ministérios, laboratórios, produtores e cadeias produtivas inteiras.
Em outras palavras, não basta afirmar que o sistema existe. É necessário provar. E provar da forma que Bruxelas deseja. Esse detalhe é importante, porque muitas vezes o Brasil confunde realidade com percepção internacional.
Nós sabemos que nosso agronegócio é moderno, que a produtividade brasileira é uma das maiores do mundo, a pecuária nacional evoluiu enormemente nas últimas décadas, mas no comércio internacional não basta saber, é preciso convencer. E convencer segundo os critérios de quem compra.
Existe também uma segunda leitura possível. Talvez este não seja apenas um assunto sanitário, mas sim geopolítico. A União Europeia vive um momento de forte pressão interna por parte de agricultores locais, especialmente na França, Bélgica e outros países que enxergam a produção sul-americana como uma ameaça competitiva.
Para muitos produtores europeus, o agricultor brasileiro possui uma combinação quase injusta de vantagens: terra abundante, clima favorável, escala gigantesca e custos significativamente menores. Nesse contexto, normas ambientais, sanitárias e regulatórias acabam se transformando em instrumentos de política econômica. Não necessariamente porque estejam erradas. Mas porque servem simultaneamente a múltiplos objetivos: protegem consumidores; protegem a saúde pública e, em alguns casos, também protegem produtores locais. É a versão moderna do protecionismo. Menos tarifas, mais regulamentos. Menos barreiras alfandegárias, mais formulários.
Por isso, quem acredita que o acordo Mercosul-União Europeia eliminaria todos os obstáculos comerciais talvez tenha interpretado mal o jogo. O acordo abre portas, mas não elimina os porteiros. E os porteiros continuam em Bruxelas.
Do ponto de vista econômico, o impacto imediato provavelmente será limitado. A Europa continua sendo um mercado importante, mas já não ocupa a posição central que possuía décadas atrás. China, Oriente Médio e diversas economias asiáticas absorvem volumes muito maiores de proteína animal brasileira.
Não estamos diante de uma crise existencial do agronegócio. Não é um fechamento do mercado chinês. Não é um embargo generalizado. Mas seria um erro tratar o episódio como irrelevante.
A Europa compra produtos de maior valor agregado, paga prêmios de qualidade, funciona como referência regulatória para diversos outros mercados. Quando Bruxelas levanta uma preocupação, outros observam. E esse efeito reputacional pode ser mais importante que o volume financeiro diretamente afetado.
A boa notícia é que nada indica uma exclusão definitiva. Pelo contrário. Tudo sugere que existe espaço para regularização antes ou depois da entrada em vigor das novas regras.
A questão fundamental é se o Brasil responderá com rapidez e pragmatismo ou se transformará uma discussão técnica em mais um capítulo das intermináveis disputas ideológicas que costumam contaminar temas econômicos. Porque, no final das contas, o mercado internacional não compra narrativas. Compra conformidade, previsibilidade, segurança jurídica e regulatória.
Talvez a principal lição desse episódio seja que o comércio global mudou. Durante décadas acreditamos que competitividade significava produzir mais, produzir melhor e produzir mais barato. Hoje isso continua sendo verdade, mas já não basta. Cada vez mais, a disputa acontece em planilhas, certificados, protocolos, auditorias e sistemas de rastreabilidade. A fazenda continua importante, mas o formulário também.
A grande ironia é que o país que alimenta centenas de milhões de pessoas ao redor do mundo corre o risco de encontrar dificuldades não por falta de carne, tecnologia ou produtividade. Mas porque, no século XXI, às vezes uma assinatura vale quase tanto quanto um rebanho inteiro. E talvez esse seja exatamente o recado que Bruxelas decidiu enviar ao Brasil.
*Coluna escrita por Fabio Ongaro, economista, empresário italiano no Brasil e CEO da Energy Group
*As opiniões transmitidas pelo colunista são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da BM&C News.
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